Em ano repleto de incertezas, equilíbrio das contas deve ser fator decisivo na retomada da economia

Em ano repleto de incertezas, equilíbrio das contas deve ser fator decisivo na retomada da economia

João Henrique Dib Netto*

06 de fevereiro de 2021 | 08h30

João Henrique Dib Netto. FOTO: DIVULGAÇÃO

Forças antagônicas são o pilar básico da incerteza. Nos mais diferentes contextos, a imprevisibilidade emerge quando há fatores diversos apontados para direções ambíguas. Na política, por exemplo, quando extremos opostos populares pleiteiam o poder. Também na saúde pública, quando o vírus e a vacina postulam o posto de protagonista único.

A economia também segue o mesmo princípio. Períodos em que há impulsos positivos e negativos vindos de diferentes agentes são também aqueles nos quais o desempenho forte e a crise perversa estão separados por uma linha tênue que, por simplificação, chamamos de acaso.

Por isso, preocupa o fato de poucos anos terem iniciado com tantas forças antagônicas na economia brasileira como 2021, ainda que não falte volatilidade à nossa história recente.

Sob a perspectiva das famílias, a retomada gradual da ocupação e da renda – consequência natural da reabertura – enfrenta o baque do fim do auxílio emergencial e do desemprego alarmante herdado da crise sanitária.

Do ponto de vista das empresas, a volta do consumo – tão debilitado em 2020 – se contrapõe à inadimplência represada pela flexibilização do crédito e à redução de subsídios.

Já para o governo, o norte para o desenvolvimento econômico é ameaçado pela necessidade de reformas estruturais profundas, de difícil negociação política e sob o pano de fundo do esgotamento das fontes de estímulos fiscais.

Ainda que cada um dos protagonistas da economia tenha problemas de origens e dimensões diversas, há um denominador comum que deve ser decisivo para que a incerteza de 2021 penda para o lado bom ou ruim: o equilíbrio das contas.

Começando pelo setor público, que deve urgentemente adequar seus gastos, mas sem impor um ajuste tão forte a ponto de estrangular a já frágil reabilitação econômica. O déficit primário de 2020, em torno de R$ 800 bilhões, tornou estéril a aprovação da reforma da previdência (estima-se R$ 855 bilhões de economia em 10 anos) e o governo deve implementar novas ações para que o discurso de responsabilidade fiscal volte a ser crível.

O retorno da confiança e da previsibilidade dos investimentos é essencial para impulsionar as empresas, que têm urgência em voltar a gerar caixa, mas para isso precisam de alguma forma inovar na eficiência do uso do capital. Segundo os últimos dados do IBGE (agosto/20), a crise deixou um rastro de mais de 715 mil negócios falidos no país. Os sobreviventes devem ter disciplina de custos e maleabilidade de receitas para lidar com um mercado consumidor incapaz de estabelecer grandes compromissos financeiros imediatos.

A retomada robusta nas expectativas de lucratividade das empresas é pré-requisito para a recuperação do emprego, imprescindível para que milhões de famílias possam acomodar seus orçamentos buscando a melhora da renda e renegociando dívidas que ficaram para trás. São ao todo 14 milhões de desempregados e 70 a 90 milhões de inadimplentes (tantos que não há consenso no número exato). O consumo só será estimulado quando essas pessoas tiverem mais conforto com relação ao equilíbrio entre suas receitas e despesas do dia a dia.

Fica evidente que há um elo indissociável entre todos os agentes da economia: a estabilidade de um está ligada à flexibilidade e à recuperação dos outros. Dessa forma, dentro do imprevisível antagonismo de forças que se avizinha, a busca pelo equilíbrio de contas nas diferentes esferas se mostra como condição necessária para que o país volte ao rumo do tão perseguido crescimento sustentável.

*João Henrique Dib Netto é graduado em Economia pela FGV-SP, mestre em Teoria Econômica pela FEA-USP e líder de Ciência de Dados da BLU365

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