‘Eles estão envolvidos com drogas e prisões’

‘Eles estão envolvidos com drogas e prisões’

Maurício Sampaio, presidente do Atlético Goianiense, está no banco dos réus acusado de ser mandante do homicídio do jornalista Valério Luiz de Oliveira; ele nega envolvimento e desfere acusações contra parentes da vítima

Luiz Vassallo

14 Março 2018 | 05h30

Foto: Paulo Marcos/ Assessoria do Atlético Goianiense

Um cartola do futebol está no banco dos réus pelo assassinato de um jornalista que era considerado ‘persona non grata’ em seu clube. Maurício Sampaio, que comanda o Atlético Goianiense, foi pronunciado a Júri Popular sob acusação de ser o suposto mandante do homicídio de Valério Luiz de Oliveira, há quase seis anos.

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Além do Ministério Público e da Polícia Civil, familiares de Valério têm convicção de que o presidente do Atlético é autor do crime. Maurício rebate e desfere duras acusações aos parentes do radialista.

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“Eu tenho uma história, não podem os aproveitadores de plantão que usaram a morte de um filho para sair candidato a deputado. O filho perdeu para vereador, o avô tinha 60 e tantos mil votos para deputado. O filho foi candidato a vereador e tomou uma tunda. Então, as pessoas que utilizam desse momento triste de uma família, que eu comungo com a tristeza deles, mas usaram em benefício próprio!”.

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E ainda completa. “Você não conhece, mas essa família do Valério, estão envolvidos em drogas, em prisões, é só pegar os jornais. o pai virou deputado, nunca apresentou um projeto”.

O radialista foi baleado em frente à emissora em que trabalhava, a rádio 820 AM, no dia 5 de julho de 2012. Maurício Sampaio chegou a ser preso temporariamente após uma testemunha, que, inicialmente, assumiu autoria do crime, mas, recuou em depoimento alegando que havia sido ameaçada por uma falsa confissão, ligando o cartola ao clube.

Segundo a acusação, alvo de críticas de Valério, o cartola chegou a pressionar a PUC-TV para que afastasse o jornalista da emissora, ‘chegando inclusive a oferecer uma vantagem financeira à diretoria’.

No ar, em seu programa, o Mais Esporte, Valério chegou a comentar o desligamento de Maurício do clube, em 2012. “Nos filmes, quando o barco está afundando os ratos são os primeiros a pular fora”. Uma carta chegou à emissora proibindo a entrada de equipes jornalísticas no Atlético sob alegação de que Valério era ‘persona non Grata’.

Maurício nega animosidade. “A mesma carta que o Goiás fez pra ele, que o Vila Nova fez para a equipe para ele. Isso é normal no futebol. Na semana passada, o Atlético mineiro teve um problema com alguém da imprensa. Isso no futebol é normal. Não tem como não ser diferente. Ninguém vai matar uma pessoa por isso”.

Três dias antes da morte de Valério, chips da operadora Claro foram habilitados em nome de Maria de Fátima Freitas Coelho, cujo filho tinha relação comercial com Urbano de Carvalho Malta, motorista que vivia, sem pagar aluguel, em uma casa de propriedade do cartola. De acordo com quebra de sigilo telefônico, as linhas foram usadas no momento e em locais próximos do crime.

“Vamos ali na Claro ou na Vivo e vamos comprar dois chips e vamos por no nome do Lula e do FHC. Eu não sei nada disso. Realmente, isso não é prova que não incrimina ninguém”, rebate Maurício.

Além de Ademá, um sargento da PM, Djalma Gomes da Silva, faziam segurança a cartolas do Atlético. “Eu não sei, tem dois policiais envolvidos que eram pessoas que assim em todos os clubes, elas frequentam, elas vão ao estádio, prestam segurança, mas não prestam segurança para o A, B não presta para todo mundo que está ali, para a diretoria, então, quer dizer, é muito fácil acusar”, diz Maurício, a respeito.

Inicialmente, o crime teve a autoria assumida pelo açougueiro Marcus Vinícius Pereira Xavier. No entanto, em seguida, ele prestou novo depoimento em que revelou uma trama diferente. Conhecido como ‘Marquinhos’, ele disse ter emprestado uma moto, capacete e camiseta que seriam usados por Ademá para a execução do crime. Ele afirma ter sido pago pelo sargento Da Silva e que foi inicialmente procurado pelo tenente coronel Uzerda, da Polícia Militar de Goiás, para matar um ‘desafeto do seu patrão’.

Foi ‘Marquinhos’ que revelou à Polícia Civil a existência dos chips da Claro, versão corroborada pelas investigações. O cartola questiona a a versão do açougueiro e a mudança em seu depoimento. “Qual é a verdade dele? Tem que virar ele de cabeça para baixo?”.

Além da acusação do assassinato, Maurício Sampaio é também alvo de ações de improbidade referentes ao cartório que herdou do pai, em Goiás, do qual chegou a ser afastado por decisão judicial. Ele diz viver à base de remédios com a repercussão do caso. “Eu acho que depois de tudo que eu sou na minha vida, porque ela foi estraçalhada, ela virou de cabeça para baixo”.

Em dezembro de 2017, uma decisão do ministro Ricardo Lewandowski anulou a pronúncia de Maurício, Uzerda, Urbano, ‘Marquinhos’ e Djalma da Silva. Para Lewandowski, a decisão do Tribunal de Justiça de Goiás não individualizou a conduta dos acusados. Após recurso da Procuradoria-Geral da República, o ministro recuou a título de retratação.

Para Maurício, que nega envolvimento no crime, a morte de Valério teria sido motivada por questões relacionadas ao tráfico de drogas. “Um filho do Manoel de Oliveira, com nome de Matheus devia a um traficante e o traficante foi cobrar do pai a quantia que o filho devia. O pai não foi pagar, pediu para que o Valério, que é irmão, entrasse em contato com esse traficante. Então, pasme, presta atenção, a execução do Valério é no mesmo dia que é executado esse traficante. Os dois foram executados no mesmo dia e tinha ligação do Valério para esse traficante porque era para fazer o acerto da droga do irmão”.

Após a decisão, Maurício deu entrevista ao Estado em que diz ser vítima de perseguição das autoridades. “As pessoas que fizeram a investigação, todos caíram para cima, como se diz no futebol, só tiveram benefícios”.

ESTADÃO: Como sua vida tem sido impactada pela acusação e o processo?

MAURÍCIO SAMPAIO: Imagina uma pessoa com hoje 60 anos de idade passar por tudo isso que eu venho passando, até porque, acho… não, tenho certeza que são acusações sem procedência. Nunca houve uma outra linha de investigação. As pessoas que fizeram a investigação, todos caíram para cima, como se diz no futebol, só tiveram benefícios. Eu, infelizmente, tive minha vida privada da liberdade, fui tratado como um marginal. Um homem que sempre talhou pela conduta, pela ética, tenho eu a responsabilidade por uma família, a responsabilidade de funcionários e empresas da qual eu sou gestor. E, de repente, ver sua vida num mar de lama com acusações. Obviamente, quando se trata de alguém ligado à imprensa, essa tem poder de decidir o que vai sair, o que se publica, nunca tive uma chance em nenhum momento de ser ouvido. Me admira muito que no inquérito, quantas coisas sem fundamento! Acusa-se porque: “ah, comprou uma área para matar uma pessoa. Um lote. Não, não é o lote, é uma área onde seria o maior empreendimento do centro-oeste brasileiro, e depois vem a história porque ‘mexeu com a mulher’, ou ‘porque os ratos que abandonam o navio’. Quer dizer, são várias histórias que não fecham. São coisas que eu fico pensando, como a vida nossa pode mudar de um dia para a noite pelo simples fato de uma morte? Ah, uma morte é uma perda irreparável para a família. Mas e a pessoa que está do outro lado que é vítima de acusações que não tem nenhum cabimento, que não procedem? Eu fico horrorizado. O juiz do caso que fez toda a instrução do processo é afastado do processo, entra um novo juiz que nem ouviu as testemunhas, os acusados , as testemunhas.

ESTADÃO: Saiu por suspeição?

MAURÍCIO: Não, ele é o juiz do caso! Eu tenho formação, eu sou bacharel em Direito. Eu fico horrorizado que em um país como o nosso julga-se somente pelo ‘há indícios’! Iindícios de que? Eu busco até hoje as provas. Eu quero me inserir dentro desse contexto que eu fui colocado. Qualquer coisa que saia, a imprensa… Recentemente, teve a decisão do ministro Lewandowski, que determinou: juiz, determine a culpa de cada um na sentença… aí, a imprensa coloca assim: Maurício Sampaio não irá a Juri. Onde que estava isso? Que história é essa? Onde que estava isso? Não existia! Dizia simplesmente: precifica cada um na história.

ESTADÃO: Após acolher recurso da procuradoria, o ministro recuou a título de retratação. Como o senhor recebeu essa decisão?

MAURÍCIO: Eu digo assim: Engraçado, vai e volta, numa decisão de um sentido e retrata de outro. Mas tudo vem. Eu sempre respeitei a justiça. Me admira muito que se afaste o juiz, entre um novo juiz e dá uma sentença de pronúncia. E aí eu simplesmente busco a verdade. E parece que a verdade incomoda os outros. Assim como o sucesso das pessoas incomoda muito os outros. é muito fácil condenar quando a fala é maior. Vai repetindo e muitas vezes uma mentira se torna uma verdade.

ESTADÃO: Por que acha que o incomodo com o sucesso é levado em consideração?

MAURÍCIO: Eu creio que sim e vou dizer por quê. O Ministério Público tem a função de acusar, a policia de investigar. A polícia quando ela é cobrada e não vai, não acha, demora-se sete meses para achar um culpado. É muito engraçado, uma pessoa que aparece no mundo que é uma pessoa que nem vi na minha vida, o que não é justificativa, porque você pode estar no fim do mundo e arrumar um álibi para você. A verdade é essa: nunca tivemos uma acareação frente a frente, que é uma coisa normal. Quero ser acareado, frente a frente. Ver quem está mentindo nessa história. E, Outra coisa. Qual foi a linha da Polícia? Sempre o Atlético? Quer dizer que o fato de uma rede de imprensa ser proibida de entrar num clube isso gera o motivo? isso é uma coisa normal no futebol! Hoje mesmo onde o Valério trabalhava está impedido de entrar no Vila Nova. Isso é crime? Outra coisa, eu sou da imprensa. Eu era dono da Rádio 730. Eu sou do meio. Eu não vejo uma lógica nisso. Eu sempre declarei, se pegar minhas declarações, futebol são 90 minutos ou 180. O que fica no campo, fica no campo. Não tem uma lógica, uma cronologia, essa história, entre o fato de a pessoa ter sido impedida de entrar no clube com a morte dele 60 dias depois. Eu nem era mais presidente do clube. Eu tinha saído do clube. Em maio de 2012 eu saí do Atlético, me afastei por divergir com o presidente à época. Desde que eu entrei no futebol em 2005 comentários positivos e negativos é o que existe no futebol. O nome mais bonito que você tem quando chega em um estádio é ‘filho daquilo’. Você vai brigar com todo mundo por isso? Agora, eu falo: “Como?”

O Atlético jogou em Anápolis, e um diretor do Anápolis atacou um dirigente do Atlético ontem depois do resultado. Futebol é o momento, é a paixão, o clamor, o amor na hora. O Valério, se você não sabe, é torcedor do Atlético, do meu clube. O Valério foi para quem eu mais entrevista dei. Ele tinha como muita gente da imprensa. Todo mundo tinha uma solução para os casos. Ele tinha um programa chamado ‘boleiragem’. Ele fazia com um restaurante ou bar e fazia um programa noturno. Como o Atlético sempre esteve em finais ou semifinais, obviamente tinha convidado. Eu participei de diversos programas com ele, viajamos juntos , então eu não vejo essa ligação que querem dar. Dizem que eu sou inimigo dele. Aonde? As tratativas que eu tive como radialista, e isso não eu pessoal mas o clube, foram feitas através de advogados.

ESTADÃO: A policia civil leva em consideração uma carta em que ele era considerado pessoa non grata pelo Atlético…

MAURÍCIO: A mesma carta que o Goiás fez pra ele, que o Vila Nova fez para a equipe para ele. Isso é normal no futebol. Na semana passada, o Atlético mineiro teve um problema com alguém da imprensa. Isso no futebol é normal. Não tem como não ser diferente. Ninguém vai matar uma pessoa por isso. Qual motivo eu tinha para matar ele? Não existe motivo.

ESTADÃO: Existia inimizade entre vocês?

MAURÍCIO: Críticas sempre vão existir no futebol. Eu sou criticado hoje, o Atlético está mal. Imagina só eu sair matando gente da imprensa porque diz que o Atlético está mal? Isso não existe! Isso é um absurdo! É a coisa mais louca. Eu tenho tantas coisas para olhar. Eu tenho família, neto. Tenho trabalho. Vou preocupar com comentário de futebol que dura 2 minutos? Mesmo que me xingou hoje amanhã tá me abraçando. Isso não existe!

ESTADÃO: O senhor se defende de ações de improbidade, uma condenação, além da acusação do suposto homicídio. Como o explicar isso ao torcedor do clube?

MAURÍCIO: Esse julgamento foi um pedido do CNJ onde me apontaram 13 irregularidades. Das 13, dose foram sanadas. Uma única foi questão de cobranças, porque existia uma liminar. Eu não fui intimado, o meu advogado foi, isso não exime minha culpa. Ele não me comunicou que tinha caído a liminar e eu cobrei durante período de 20 e poucos dias algo nesse sentido. Essa foi minha condenação. O que tiver que ser pago será pago. Nem isso eu fui condenado em nenhum ressarcimento, e, sim trabalho para comunidade. Coisa que eu já faço ha muito tempo. Eu tenho um abrigo de velhos que eu mantenho. Várias outras associações correlatas a isso que eu ajudo. Em relação às improbidades, a outra [ação] é que eu nomeei minha filha como suboficial do cartório e ela é médica e trabalhava a distância. Isso não é crime porque cartório no fundo é uma atividade privada. Quem nomeia e demite é o titular do cartório. Em nenhum dos momentos em que ela esteve nomeada, alguém foi questionar a nomeação dela. Isso veio depois. Isso me causa espanto porque no Brasil inteiro, hoje tem gente que nomeia parentes em cartório em Goiânia e em cartório no Sul, então assim, essas questões de improbidade são de espantar. Porque, ah, nomeou uma filha. E daí? Qual cartório que não tem uma filha nomeado? Se é uma atividade privada, qual é o crime?

ESTADÃO: Aos olhos da opinião pública, como explicar isso?

MAURÍCIO: Eu acho que depois de tudo que eu sou na minha vida, porque ela foi estraçalhada, ela virou de cabeça para baixo. Eu tenho vivido à base de remédios. Eu tenho uma família muito forte. Sou uma pessoa que tenho muita fé em deus. Se você pegar na época, a quantidade de padres que me visitavam no presídio. Causava verdadeiro terror às pessoas. Graças a deus, eu tenho fé, sou católico, apostólico romano. Eu sou das antigas. Eu continuo fazendo minhas obras sociais. eu uso futebol pra isso também, para tirar criança de rua. O atlético tem mais de 2500 crianças nas suas escolinhas de base.

Eu tenho uma história, não podem os aproveitadores de plantão que usaram a morte de um filho para sair candidato a deputado, ele perdeu para vereador, tinha 60 e tantos mil votos para deputado. O neto, que é o filho foi candidato a vereador, tomou uma tunda. Então, as pessoas que utilizam desse momento triste de uma família, que eu comungo com a tristeza deles, usaram em benefício próprio! Esse clamor popular. A gente tem que entender o que é a vida. Eu busco as provas. Eu tenho uma história de mais de 30 anos aqui. onde eu chegar vou ser respeitado. sofro muito. Minha família sofre, meus filhos sofrem, meus netos sofrem. E nem precisa dizer porque você ser acusado e não ter como provar a sua inocência… o Brasil precisa repensar um pouco as leis e acabar com essa história de: Vamos lavar a mão e fica para a opinião pública. Ela é orientada. Sabe como funciona. Eu acho que a ditadura da imprensa tem que ser muito ruim. Ela tem que ser mais aberta.

Você não conhece, mas essa família do Valério, estão envolvidos em drogas, em prisões, é só pegar os jornais. O pai virou deputado, nunca apresentou um projeto. Ele foi eleito para defender o direito daqueles oprimidos e nunca apresentou um projeto. Foi acusado de usar a TBC que é um canal de televisão em goiás e desviar mais de um R$ 1,9 milhão. Tá acusado pelo Ministério Público e o bandido sou eu? Condenado por cobrança indevida sem saber? Eu acho isso extremamente de preocupar. estamos aproximando da eleição e vamos voltar ao caso Valério Luiz. Pensa na família. Eu tenho família, tenho história. Eu gostaria muito de olhar nos seus olhos, frente a frente. Eu tenho 60 anos, não sou menino, que me escondo atrás de coisas que faço errado. Se eu tivesse feito uma porcaria dessa, eu tenho certeza que assumiria. Tenho certeza que não demoraria 7 meses para achar nada não. Eu me entregaria. porque eu sou homem suficiente para isso. acho um absurdo! eu sou empresário, tenho uma história. eu acho uma maldade o que estão fazendo, e não querem conhecer a verdade. Do jeito que está, está cômico. uma única linha de investigação e durar 7 meses… é muita incompetência!

ESTADÃO: Qual é sua relação com o Urbano? Acha que ele cometeu o crime?

MAURÍCIO: Eu falo por mim. Não tive mais contato. Sei que mora fora de Goiânia. Trabalhamos juntos, eu tinha dois caminhões, ele tinha dois, fretava esses caminhões e fazia acerto, me arrendava esses caminhões na verdade. E essa era a minha convivência com ele. Ele foi morar nessa área, mas isso nós estamos falando de um ano antes de qualquer coisa ter acontecido, porque senão fica parecendo que ele mudou para fazer assassinatos. Eu não sei, tem dois policiais envolvidos que eram pessoas que assim em todos os clubes, elas frequentam, elas vão ao estádio, prestam segurança, mas não prestam segurança para o A, B não presta para todo mundo que está ali, para a diretoria, então, quer dizer, é muito fácil acusar. eu não tenho o contato com eles. Meu contato é aquele contato ligado a futebol, nada além disso. Com o urbano eu tinha essa ligação que arrendei dois caminhões para ele, que é uma coisa natural.

ESTADÃO: Trabalhava pra você?

MAURÍCIO: Ele nunca trabalhou para mim. Nunca tive funcionário sem carteira assinada. Ele arrendava caminhões.

ESTADÃO: Não prestava qualquer tipo de serviço?

MAURÍCIO: Ele foi morar nessa área porque lá era uma antiga faculdade e tinha duas piscinas olímpicas, construíram vários prédios em volta e era uma área muito valorizada, e, quando comprou a área, que é uma área de 5 mil metros quadrados, é a última área do setor mais nobre de Goiânia que pode se edificar. Lá seria edificado o maior empreendimento do centro-oeste, já estava em fase de projetos. Ele foi morar lá porque as pessoas ligavam para o antigo dono e reclamavam de dengue nas piscinas, e eu ofereci: ‘vai morar lá, tem uma casa. mora lá, cabem os caminhões’. E o Urbano foi morar lá, essa coisa dos caminhões, a premeditação eu não entendo. Eu tenho um filho que é muito preocupado, que fala assim: ‘pai, será que alguém não vai enxergar que como é que alguém que compra uma coisa um ano antes tá pensando que o time dele vai ficar ruim, que ele vai ser criticado e vai matar alguém?’ As contas não fecham. O tempo não fecha. Por mais que tenha raiva, ela é muito rápida, o futebol é emoção no coração.

ESTADÃO: Acha que o Urbano é inocente?

MAURÍCIO: Eu não acho nada. Eu tenho dificuldade de olhar isso. Tenho dificuldade de tanto que eu sofro com essa história. Eu não sei, ele que eu saiba participou. Quem apareceu foi um açougueiro com o nome de marquinho. Eu não sei outra história.

ESTADÃO: A Polícia diz que ele comprou chips da Claro e colocou em nome de terceiros para arquitetar o crime…

MAURÍCIO: Essa história eu posso te responder fácil. Quando apareceu esse negócio no inquérito o advogado falou: Vamos ali na Claro ou na Vivo e vamos comprar dois chips e vamos por no nome do Lula e do FHC. Eu não sei nada disso. Realmente, isso não é prova que não incrimina ninguém.

ESTADÃO: Segundo o relatório das investigações, ele estava nas proximidades da cena do crime e se comunicou com o Ademá minutos antes. Por que ele faria isso?

MAURÍCIO: O Ademá estava na casa do Joel Datena Filho. O Urbano morava ali. Ele estava na casa no exato momento. Ele parece que é um dos primeiros que chegam lá quando houve os tiros. até onde eu sei, é isso. Entre eu ter comunicado 10 minutos depois pode ter avisado alguma coisa. Agora, o Ademá estava na casa do Joel Datena. Ele já provou isso que ele estava na casa do Joel Datena. inclusive ele sai com o Joel Datena . Tem as câmeras.

ESTADÃO: Não foi o Ademá que matou Valério?

MAURÍCIO: Nem sabia que ele matou. Até onde eu sei quem apareceu como sendo o executor foi o tal do açougueiro. Então eu não estou sabendo que é o Urbano.

ESTADÃO: O açougueiro seria o Marcos Vinícius? Ele fez um primeiro depoimento em que assumiu o crime e depois voltou atrás dizendo que havia sido ameaçado.

MAURÍCIO: Eu vou chamar de outro absurdo. Vamos pensar na melhor hipótese. Acha que um policial que é o caso do Ademá, iria fazer um crime, colocar um bandido que ele havia prendido. Já prendeu ele várias vezes, isso não é racional. Isso não tem racionalidade. Não tem. Eu não vou pedir. Eu que sou policial não vou pedir arma, capacete e moto para alguém. Principalmente para alguém que eu já prendi. Isso não tem lógica, é um negócio irracional.

ESTADÃO: O Marcus Vinícius diz ter emprestado a moto em troca dos R$ 10 mil…

MAURÍCIO: E quem pagou? Esse mesmo Marcus Vinicius, tá nos autos ele deu declaração publica dizendo que eu não tenho nada com isso, que ele não me conhece, não me viu. Ele fez por escritura pública. O cara que diz que matou, que depois emprestou disse que não sabe nem quem sou eu. Por que eu estou nesse negocio ainda? Qual é a racionalidade disso?

E porque tem que ser o Maurício? Tem que ser o Atlético? É um negócio que eu assusto cada dia que passa. Você como homem que leu e viu tá me dizendo que ele Marcos Vinícius, que tem fé pública – porque ele é um homem sério, pelo visto é um homem sério, ele é bandido, mas é sério -, ele declara que recebeu, aí declara que nunca me viu. Qual é a verdade dele? Tem que virar ele de cabeça para baixo. E ele apresenta em juízo na instrução do processo dizendo que ele confessou através de terem quebrado as costelas dele. Ele mostrou as costelas quebradas. Mas isso no Brasil, tortura deve ser prática normal para se obter alguma confissão. Ele apresenta em juízo isso. Nada vale. Fizeram uma condenação pública. Isso vende jornal.

É um absurdo, ridículo isso que acontece. Fico abismado de ver tanta hipocrisia. Um filho do Manoel de Oliveira, com nome de Matheus devia a um traficante e o traficante foi cobrar do pai a quantia que o filho devia. O pai não foi pagar, pediu para que o Valério, que é irmão, entrasse em contato com esse traficante. Então, pasme, presta atenção, a execução do Valério é no mesmo dia que é executado esse traficante. Os dois foram executados no mesmo dia e tinha ligação do Valério para esse traficante porque era para fazer o acerto da droga do irmão. O irmão foi preso por tráfico. O filho do mané. Se você quiser, eu mando mais de 20 processo contra esse rapaz. O traficante que foi morto, que chama Davi Sebba, o processo dele foi arquivado. E ele morreu horas depois ou antes do Valério. Então, você imagina as coisas, se for levantar aqui, a gente iria ficar horas falando… Ninguém quer a verdade. Vamos crucificar alguém.

A polícia coloca o depoimento do marcos vinicius no centro das investigações. Ele ganha credibilidade na medida em que revelou o uso dos chips da Claro, por exemplo, e que eles teriam sido colocados em nome de terceira pessoa para serem utilizados no dia da execução. Isso foi comprovado nas investigações. De fato, existem os chips e eles fizeram ligações momentos antes do crime. Os investigadores dão credibilidade a esse depoimento, que foi corroborado com provas como quebra de sigilo telefônico. É só na menção ao senhor que o depoimento dele é inverídico?

Eu volto a dizer. Qual credibilidade? A de um assaltante, de um criminoso que em seu depoimento diz que nunca me viu, não sabe nem meu nome. Tanto que ele fala: eu matei a pedido do urbano. E o Maurício pediu para o Urbano? É uma indagação. Cadê o processo de dúvida nessa história? Ele que foi o executor passa a ser o executor. Ele vai buscar o Figueiredo lá da casa do Joel Datena, que em momento nenhum saiu da casa do Joel Datena, mas como na física tudo é permitido e a pessoa consegue ocupar dois espaços ao mesmo tempo, a pessoa ficou lá e o espírito do dela foi matar o outro. Deve ser isso! Porque não tem lógica. A polícia fala o que ela quer. Inquérito mal feito em goiás é a praxe. Acusa-se porque tira das costas e joga para a sociedade.

ESTADÃO: E as ligações entre eles pouco tempo antes do crime?

MAURÍCIO: Dez minutos depois do crime, as ligações feitas de um para o outro! Aí, onde chega em mim? O urbano ligou para o Figueiredo. a investigação chega aí. Onde tem conversa comigo? Eu estou procurando isso. Onde a polícia me põe nisso?

ESTADÃO: Eles ligam para o seu cartório depois. Com qual finalidade?

MAURÍCIO: Ele arrendava os meus caminhões. Estava marcado para ele levar a vistoria dos caminhões. Está lá. Você paga a vistoria no Detran, leva, e ele marca o dia que vai levar para fazer. A ligação foi essa. Se o Urbano tivesse falado comigo, teria marcado por telefone meu que ele tinha. Ele poderia ter ligado no meu particular. No dia, eu tinha chegado de um velório, eu nem no cartório eu fui. Então, assim, é muito diz que não diz. É muita conversa solta. Por que na hora do interrogatório não questionaram? Por que na polícia não questionaram? porque não colocaram todo mundo junto para fazer acareação! Isso é de lei!

COM A PALAVRA, A FAMÍLIA DE VALÉRIO LUIZ DE OLIVEIRA

Em primeiro lugar, é preciso colocar as coisas em sua devida ordem: minha família não ficou conhecida em Goiás pelo assassinato de meu pai, mas o contrário. O assassinato do meu pai comoveu Goiás pela história de minha família no Estado, somada à extrema brutalidade do crime, claro. Meu avô, Manoel de Oliveira, trabalhava no rádio e como repórter em impressos já nos anos 1960. Nos anos 1980, comandava as duas maiores equipes de jornalismo esportivo de Goiás, na Rádio Difusora e na Rádio Clube (que depois se tornou Rádio K e hoje é Rádio 730). Na segunda metade dos anos 1980, quando Sampaio ainda era um jovem trabalhando no cartório do pai (Waldir Sampaio), Manoel de Oliveira já era deputado estadual constituinte, o segundo mais votado daquela eleição (1986). Já Valério Luiz possuía 35 anos de carreira, tendo passado por praticamente todos os veículos de comunicação goianos, e boa parte dos profissionais da imprensa local ou começaram suas carreiras com Manoel e Valério ou foram colegas de ambos.

Foi essa história que Maurício Sampaio tomou por irrelevante quando ordenou que executassem meu pai ali mesmo na porta da rádio, duas da tarde, à vista dos colegas e de todos, como se pisasse num inseto. Desde o dia da tragédia, 05 de julho de 2012, usamos de todas as armas legítimas de que dispúnhamos para desarticular os inúmeros tentáculos criminógenos de Sampaio nas estruturas de poder goianas, de modo a ser possível levá-lo à Justiça. E não tem sido fácil. Foi preciso um juiz de direito, Ari Ferreira de Queiroz, ser aposentado compulsoriamente pelo CNJ para que parasse de usar a toga em benefícios espúrios a Sampaio. Foi preciso um delegado, Manoel Borges, ser afastado de suas funções quando se descobriu que atuara para beneficiar o cartola atleticano em um Habeas Corpus. Nossas iniciativas e mobilizações são todas motivo de orgulho, as carregaremos pra sempre no coração, e tenho certeza que, quando tudo isso chegar ao fim, será uma história de luta, determinação e Justiça.

Nunca falamos nada sem referências verdadeiras. Sabe-se que esta semana o juízo da 2ª Vara da Fazenda Pública Estadual decretou o bloqueio de R$ 2.928.252,79 de Maurício Borges Sampaio, por dano ao erário quando da ocupação interina e intervenção no 1º Tabelionato de Protestos de Goiânia (ACP nº 0038033.21.2016.8.09.0051), e esse já é o terceiro bloqueio decretado pela Justiça goiana contra o ex-cartorário. O primeiro se deu em 2013, na ACP nº 201302258561, distribuída por dependência à Ação Popular nº 201301325680, ações pelas quais Sampaio encontra-se condenado em R$ 4.808.076,88. Desses processos, a apelação do réu já se encontra no TJGO. O terceiro bloqueio, de R$ 672.023,27, foi decretado 06 de agosto de 2014, na ACP nº 201401771208. Sampaio também já possui uma condenação em 2ª instância pelo crime de “excesso de exação” (art. 316, §1º, do Código Penal) – Ação Penal nº 201491963948. Como se percebe pelas cifras e imputações, trata-se de pessoa com alto poder financeiro e grande audácia criminógena.

Perante situação tão grave, é revoltante que esse senhor ainda se preste a falar contra meu avô Manoel, ainda mais quando uma mera consulta aos sítios do Tribunal de Justiça de Goiás demonstra a inexistência de qualquer ação ou medida judicial referente a “desvios” na Tevê Brasil Central, até mesmo porque Manoel de Oliveira jamais teve nenhum cargo na emissora, seja de direção ou de qualquer natureza, e portanto nunca manejou recursos da Autarquia. Sobre as alegações envolvendo “Davi Sebba”, de fato o advogado foi assassinado no mesmo dia de Valério (05/07/2012), coincidência a qual a defesa de Sampaio tentou explorar na instrução do processo, mas de forma infrutífera, dado que as quebras de sigilo telefônico de Valério Luiz não demonstraram nenhuma ligação entre as duas vítimas, que não se conheciam, e as autoridades encarregadas da investigação do “caso Davi”, que já se encontra em vias de ir a Júri, oficiaram o juízo reiterando a ausência de conexão. Tampouco consta ligação telefônica de Valério Luiz a qualquer “traficante”.

O que Maurício Sampaio busca é jogar à vítima pechas de apelo popular para desviar a atenção da opinião pública, confundi-la, criando esteio à sua única tese defensiva: negativa de autoria. Ocorre que tais alusões a “ligações” e “traficantes”, além de mentirosas, não possuem sequer um documento correspondente nos autos, de modo que nem poderão ser usadas perante os jurados. Já as provas contra Sampaio, por outro lado, são fartas, como seu comprovado histórico de animosidade contra a vítima, a comprovada participação de seus seguranças e funcionário no homicídio, seus contatos telefônicos com os outros acusados no dia do crime, as ligações de um dos réus (Urbano), da cena do crime, para seu então cartório; além dos “bodinhos” descobertos (celulares habilitados especificamente pra empreitada criminosa) e a delação de um dos acusados (Marcus), apontando-o como mandante. Em entrevistas, o cartola costuma empregar evasivas quanto a tais provas, ao mesmo tempo em que nos ataca. Mas no Júri, enfim, não poderá fazê-lo.

Que seja feita a Justiça, ainda que caiam os Céus.