‘Ele podia fazer companhia com o Marcelo da Odebrecht’, diz assessor de deputado em grampo da Carne Fraca

‘Ele podia fazer companhia com o Marcelo da Odebrecht’, diz assessor de deputado em grampo da Carne Fraca

Luiz Santamaria Neto, assessor do parlamentar estadual Stephanes Junior (PSB), brinca com exoneração de chefe da fiscalização do Mapa no Paraná Daniel Gonçalves Filho, apontado como líder do esquema criminoso e que deixou a pasta após apuração interna

Mateus Coutinho, Julia Affonso e Luiz Vassallo

26 Março 2017 | 05h13

Marcelo Bahia Odebrecht, em depoimento ao juiz federal Sérgio Moro

Marcelo Bahia Odebrecht, em depoimento ao juiz federal Sérgio Moro

Os grampos da Polícia Federal na Operação Carne Fraca flagraram dois investigados comparando a situação do ex-chefe da Superintendência Federal da Agricultura no Paraná Daniel Gonçalves Filho, apontado pela PF como o líder do esquema criminoso no Mapa, com a do empreiteiro Marcelo Odebrecht, preso desde junho de 2015 pela Lava Jato.

Em tom de piada, os interlocutores comemoram a exoneração de Gonçalves Filho, ocorrida no ano passado, e dizem que ele podia “fazer companhia” a Marcelo Odebrecht, em referência à prisão.

O diálogo interceptado no dia 12 de abril, quando saiu a exoneração do fiscal, flagrou o ex-chefe da Unidade Técnica Regional de Agricultura de Londrina/PR – UTRA/Londrina, Juarez José Santana, comemorando o fato com o assessor do deputado estadual do Paraná Stephanes Junior (PSB), Luiz Santamaria Neto.

Em determinado momento da conversa, Santamaria chega a insinuar que gostaria que Daniel Gonçalves fosse preso. “Ele podia fazer ali uma companhia com o Marcelo da Odebrecht né? Ficar ali um pouco”, disse.

Aos risos, Juarez responde: ” Reforçar o time lá?”

“Santamaria: É reforçar o time, fica lá né?”, comenta.

“Juarez: Reforçar o time (risos)”

“Santamaria: É reforçar o time, ele joga de centroavante ali no time. Fazer um curso de canarinho ali.”

“Juarez: Ah, mas…centroavante não dá, muito gordinho né?”

“Santamaria: Ah então, então, então, fica na reserva né?”

“Juarez: É, fica no banco né?”, segue o diálogo, em tom de brincadeira.

Deflagrada no dia 17 de março, a Operação Carne Fraca levou ao afastamento de 33 servidores do Mapa e à prisão de 36 pessoas investigadas, incluindo empresários, funcionários de frigoríficos e servidores públicos. Apesar da “torcida” de Juarez e Santamaria, Daniel Gonçalves Filho foi preso e encaminhado a Piraquara (PR), longe da sede da PF em Curitiba, onde foi detido inicialmente Marcelo Odebrecht.

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O próprio Juarez, por sua vez, está detido na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, por onde passou Marcelo quando foi detido, em 19 de junho de 2015.  Santamaria não foi preso, mas foi alvo de mandados de condução coercitiva e de busca e apreensão na operação. Mais do que comemorar a saída de Daniel eles discutem quem deve assumir o posto de chefe da Superintendência do Mapa no Paraná.

“Santamaria: Filha da puta, tá vendo, bem feito, ordinário. E você vai assumir ou não?

Juarez: Não, você está louco. Nem posso ne Santa? Eu também não posso

Santamaria: Ah

Juarez: Aquelas broncas minhas lá né? Não tem nem como, nem que queira né?

Santamaria: Sim, e vem nosso amigo?

Juarez: Como?

Santamaria: E vem o doutor?

Juarez: Não, não sei, é…diz que quem bateu pesado para tirar o Daniel

Santamaria: Hã?

Juarez: Bateu firme foi o João (Arruda, deputado federal do PMDB), sabe?

Santamaria: O João Arruda? Alo, alo, alo Juarez, ta cortando

Juarez: Eu estou na estrada”.
Além deste diálogo, nos grampos da Carne Fraca, a PF identificou várias conversas nas quais os investigados ligam Gonçalves Filho e até outros fiscais ao PMDB. Há inclusive diálogos com assessores parlamentares e funcionários de frigoríficos sobre as indicações para a fiscalização do órgão e as disputas entre parlamentares do próprio PMDB. A reportagem tentou contato com o gabinete de Stephanes Júnior, mas ninguém atendeu.

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DO PMDB:

O PMDB não autoriza ninguém a falar em nome do partido e está à disposição da justiça para qualquer esclarecimento.

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DE JOÃO ARRUDA:

“O deputado João Arruda nega seu envolvimento com qualquer ato ilícito ligado a essa operação . Como o próprio delegado, responsável pela investigação declarou, as conversas onde seu nome é citado são pedidos exclusivamente de caráter político e institucional .

O deputado informa que seu assessor pediu exoneração do cargo e espera o rápido esclarecimento dos fatos . ”