Ele arrancou a TV da parede e, desesperado, foi pra favela trocar por cocaína

Ele arrancou a TV da parede e, desesperado, foi pra favela trocar por cocaína

Fernanda Alves*

27 Agosto 2017 | 12h00

Fernanda Alves. FOTO: DIVULGAÇÃO

Geralmente, pais de viciados classe alta ou média controlam o salário/conta corrente dos seus filhos. O motivo é óbvio: toda vez que vão buscar drogas na favela, voltam lisos, sem suas carteiras, cartões de créditos, dinheiro, e às vezes, sem o carro, mesmo sendo ‘brother’ dos traficantes.

Esse texto que escrevo, presenciei a cena. Fui ‘codependente’ de um ex-namorado viciado. Ele já estava alterado devido ao alcoolismo.

O álcool não fazia mais o efeito que ele necessitava. Um dia ligou para seu banco para saber o saldo: zerado. Não pensou duas vezes – arrancou a TV da parede e foi para a favela Paraisópolis.

Aquela cena me chocou. Não disse uma palavra, apenas meditei. Tentar conversar, mas convencer um viciado quando chega a esse ponto é perda de tempo e até perigoso. Pode ficar agressivo.

Esperei por horas, ele me prometeu que iria apenas pegar a droga e voltaria em 20 minutos. Não voltou, ficou por lá e só chegou quando já estava clareando o dia.

Isso eu soube porque perguntei ao porteiro. Não esperei ele chegar, sabia que a noite seria longa. Fui para minha casa cuidar da vida; Eu sei que voltaria à casa dele logo cedo para saber se estava lá.

Eu sempre pedia para que ele deixasse a porta aberta, sempre!

Mas nesse dia ele trancou a porta, a social e a de serviço. Aquilo me desesperou. Arrombei a porta, não sei de onde veio tanta força. Fui direto para o quarto dele, também estava trancado.

Eu gritava para ele acordar, ele não escutava, eu não sabia se estava morto ou dopado de rivotril, até que uma hora ele abriu a porta, sonolento. Sua cachorra dormia na cama com ele e uma faca grande, aquelas de cortar carne para churrasco, estava ao seu lado.

O que faz uma faca ao lado de um viciado? Ele queria se matar? Não! Assim como se trancou no apartamento, colocou uma faca para se ‘defender’. Na maioria dos casos, um viciado tem aquela sensação de estar sendo perseguido. A loucura bate, ficam com medo, muitos tem esquizofrenia.

Nessa hora liguei para um psicoterapeuta, de uma clínica onde fiz laboratório por alguns dias. Nós o levamos ao hospital. Com a autorização do seu pai, o levei e por lá ele ficou 10 dias para desintoxicação.

Foram os 10 dias mais calmos da nossa relação. Mas esse tempo não é suficiente para esse grau de dependência química.

No mesmo dia em que ele saiu do hospital, bebeu e usou cocaína.

A paciência, a estrutura familiar, o amor, são essenciais para tentar ajudar um dependente químico.

Codependente: é um termo da área de saúde usado para se referir a pessoas fortemente ligadas emocionalmente a uma pessoa com séria dependência física e/ou psicológica de uma substância (como álcool ou drogas ilícitas) ou com um comportamento problemático e destrutivo (como jogo patológico ou um transtorno de personalidade).

*Jornalista, apresentadora, embaixadora ‘S.O.S Dependentes Químicos’

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