Elas querem sexo

Elas querem sexo

Emanuela Carvalho*

14 de fevereiro de 2017 | 04h35

Emanuela Carvalho

Emanuela Carvalho

Algo está muito errado nesse mundo. Quem são essas mulheres que querem sexo?

Uma frase que soa tão machista quanto a dificuldade em escrevê-la, mas sim, inicia o rápido resumo de situações da vida real, entre mulheres que tentam ser livres em relação aos seus desejos e os homens machistas.

É válido ressaltar, logo de início, que a dicotomia machismo X feminismo é mais fraudulenta que muita gestão investigada na Operação Lava Jato. Nunca é demais lembrar que, no machismo, há uma sobreposição do homem em relação à mulher – e sim, o mundo é machista – e a luta contra isso é árdua, tanto quanto possível, já o feminismo, não propõe a sobreposição da mulher em relação ao homem, mas a igualdade entre os sexos.

Torço para que Beauvoir não se incomode com a forma simplista de explicar o termo, mas quanto mais simples, mais fácil de compreender.

Voltando ao mundo machista, em que até a nossa língua favorece a sobreposição do homem, quando o masculino é um ‘gênero não marcado’, ou seja, representa tanto o masculino quanto o feminino, e o feminino representa apenas ele mesmo.

Um exemplo clássico é, se você cumprimenta um grupo de pessoas, homens e mulheres, pode se dirigir com um ‘olá a todos!’, mas se utilizar um ‘olá a todas’ estará excluindo os homens da saudação.

Claro que há quem preferisse utilizar um ‘olá a todos e todas’, mas falar no masculino é o suficiente para generalizar. Então, é nesse contexto que o homem ainda tem o poder de, em muitas situações, decidir o que, quando e como fazer em relação à mulher.

A liberdade sexual está aí, sabemos todos. A questão é que usar essa liberdade retira da mulher o título de ‘direita’ e a transforma uma mulher fácil, vulgar, vadia. Porque mulher direita é aquela que, entre as quatro paredes faz tudo o que o homem deseja – e tem que fazer, porque se ela não fizer, ele encontra outra que faça – mas fora da cama, fora do quarto, é recatada, obediente, silenciosa, submissa. Aliás, submissa essa mulher é nas duas opções, dentro e fora do quarto.

É tão absurdo que parece texto daquela novela da tarde – que, aliás, tem um péssimo enredo, cheio de estímulo aos estereótipos, principalmente no que diz respeito às mulheres. Mas não é. Ou, que seja enredo de novela, mas também é vida muito real.

Há muitos homens que ainda dividem as mulheres em categorias: para casar e só para o sexo.

E não é estranho constatar que muitas vezes esses homens, mesmo casados, procurem aquela mulher que é só para sexo a fim de se satisfazerem. Mas esses homens, que podem fazer sexo quando e como quiserem, com a quantidade de mulheres que quiserem, não são tachados de promíscuos, vadios, putos. Ao contrário, são garanhões, conquistadores, têm ‘borogodó’.

A ideia aqui não é reprimir os homens. Pessoas adultas precisam ser responsabilizadas por suas escolhas. A ideia é trocarmos, mentalmente, os homens e as mulheres de posição – na sociedade – e fazermos uma avaliação rápida e sincera. Os direitos podem até ser fingidamente os mesmos, mas a repercussão pelo seu uso, completamente diferente e exagerada quando falamos sobre as mulheres.

Não basta ter direitos iguais, voltando ao cerne do feminismo, é preciso que esses direitos sejam respeitados, legitimados. É insuficiente o discurso do homem que, num restaurante, na hora em que a conta chega, lembra que as mulheres querem direitos iguais e a conta será dividida. Justo dividir a conta, pagar pelo que consome, pelo que compra. Justo também deixar claro que, não é apenas nesse e em poucos outros momentos pontuais que as mulheres querem ter direitos iguais. Em tantos outros momentos também.

E quanto ao sexo, se ela, a mulher, demonstra desejo, vontade e quer sexo, já foi ao longo da história, julgada demais por isso. Não merece um tratamento cheio de desconfiança e interpretações errôneas, do tipo: ‘se faz assim comigo, deve fazer com todos’. E que faça, isso não a torna menos mulher, menos importante.

É preciso entender, mesmo que tardiamente, que mulher não é objeto de valor. Pouco valor. Muito valor. E essa compreensão é necessária não só aos homens, mas a muitas mulheres, que ainda não se dão conta que têm o direito de expressar as suas vontades, fora da cama, fora do quarto, fora de casa.

É na vida que elas querem somente sexo, ou também sexo, ou não querem sexo. É na vida que elas têm o direito de desejar, de ter. Sem falso moralismo e sem avaliação externa do seu ‘passe’. É mulher e ponto. E se você não está pronto para abrir mão dos seus julgamentos e dos seus critérios preconceituosos e machistas, sempre é tempo.

Aceita o convite?

*Emanuela Carvalho é professora e autora do livro ‘Antes Feliz do que Mal Acompanhada’

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