El Patrón

El Patrón

Fernando Goldsztein*

21 de novembro de 2021 | 17h15

Fernando Goldsztein. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Aprecio muito o cinema argentino, em especial os filmes protagonizados pelo ator Ricardo Darín, um “craque” das telas. Recentemente assisti no Netflix ao filme El Patrón (O Patrão), lançado em 2015 e estrelado por outro muito bom ator, Joaquin Furriel. Gostei do filme, mas já adianto que o roteiro em si é repugnante. Um casal humilde vem do interior para ganhar a vida na cidade grande, no caso Buenos Aires. Encontram emprego num açougue onde seu sinistro e violento patrão os obriga a vender carnes em mau estado e, ao mesmo tempo, os submete a uma relação de escravidão. O negócio do açougue é comprar o produto em estado de apodrecimento. As carnes escuras e mal cheirosas são entregues clandestinamente na madrugada para serem lavadas com produtos químicos a fim de torná-las avermelhadas. Também vendiam a carne podre na forma de milanesa e linguiça. Advirto que o filme possui cenas repulsivas com boas chances de deixar você nauseado. Um horror!

Qual não foi a minha surpresa ao ver a notícia sobre as carnes das hamburguerias na cidade de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul? Tratava-se de um tradicional fornecedor da região que vinha entregando carne de cavalo no lugar de carne bovina. E, o que é ainda pior, as carnes eram processadas em péssimas condições de higiene e, em muitos casos, estavam já apodrecidas. Inacreditável!

Parabéns ao Ministério Público, que conseguiu, depois de longa investigação, desbaratar a quadrilha e prender os criminosos. Entretanto, são necessários no País leis mais severas e rigor na sua implementação para evitar casos como esse. De acordo com o artigo 272 do Código Penal, além de multa, o infrator deste crime horrendo poderá pegar de quatro a oito anos de reclusão. Ocorre que, se o apenado for primário e o crime tiver sido praticado com ausência de violência, a pena poderá ser reduzida em 84%. Sim, 84% de redução!! Neste caso, mesmo havendo a condenação máxima, o criminoso vai permanecer apenas 15 meses atrás das grades. Ora, vejam, este crime pode não ser considerado hediondo pelo Direito, mas o é pelos fatos. Toda uma população, inclusive crianças e idosos, consumiam uma carne deliberadamente distribuída como podre. Evidente que também deve ser rigorosamente apurada a eventual responsabilidade dos estabelecimentos comerciais que, segundo consta, compravam a tal carne por preços mais baixos, sem embalagem adequada nem informações ou datas de fabricação e validade.

Existe em tramitação no Congresso Nacional, desde 2017, um projeto de lei de número 7664, que prevê o dobro da pena (10 a 15 anos) para crimes de fraude, falsificação e adulteração de alimentos. Que a sociedade cobre do Congresso a tramitação e aprovação deste projeto. A solução do problema passa não só por uma  fiscalização eficiente (como felizmente ocorreu em Caxias), mas também por uma legislação muito mais rigorosa. Só assim poderemos evitar que roteiros surreais de filmes como El Patrón possam ser protagonizados impunemente, ao vivo e a cores, pelo Brasil afora.

*Fernando Goldsztein, empresário

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