Eis o delator de tucanos

Eis o delator de tucanos

Conheça Sérgio Corrêa Brasil, ex-diretor do Metrô de São Paulo, que ao Ministério Público Federal relatou uma suposta rotina de fraudes em licitações da companhia e a arrecadação de propinas de empreiteiras para abastecer campanhas eleitorais do PSDB

Luiz Vassallo, Pepita Ortega, Pedro Prata e Fausto Macedo

29 de agosto de 2019 | 16h34

O engenheiro Sérgio Corrêa Brasil, delator de tucanos na Lava Jato em São Paulo, trabalhou 42 anos no Metrô paulista. Sua delação tem um forte impacto não apenas na administração pública do estado nos anos sob gestão Geraldo Alckmin e José Serra, mas também nas pretensões do PSDB, principal partido atingido por suas declarações.

O engenheiro Sérgio Corrêa Brasil, delator de tucanos na Lava Jato em São Paulo, trabalhou 42 anos no Metrô paulista. Foto: Alesp/Divulgação

Brasil é o primeiro colaborador a ter ocupado a cúpula da Companhia do Metropolitano. Conhece como poucos a empresa, o seu dia a dia e suas fragilidades.

A trajetória de Brasil no Metrô paulista faz parte do Anexo 1 de sua delação premiada.

Formado em engenharia elétrica em 1975, ele ingressou no Metrô no ano anterior, em abril de 1974, como estagiário. Percorreu toda carreira técnica e administrativa passando por todos os cargos, ‘sem exceção’.

“Galguei os cargos de analista, coordenador-chefe de departamento até ser promovido ao cargo de gerente de contratações e compras, o que ocorreu em 1994”, narra.

Já em agosto de 2008, foi nomeado Diretor de Assuntos Corporativos, função que ocupou até dezembro de 2010.

Em 2011, por iniciativa da própria Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Regional (SPDR), e com a anuência do Metrô, passou a ocupar cargo comissionado naquele órgão de Estado, mas ainda vinculado à Companhia.

Atuava, então, na função de assessor técnico na Unidade de PPP’s da Secretaria de Planejamento e, posteriormente, ‘por ato do Governador do Estado de Sao Paulo passou a acumular a função de substituto, em casos de ausências e impedimentos, do secretário Executivo do Conselho Gestor das PPP’S e do Programa de Desestatização’.

Em 2014, retornou ao Metrô, ‘a pedido do secretário de Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes’.

Como assessor técnico, atuou diretamente com Jurandir ‘em trabalhos específicos de orientação na condução de determinados processos, ligados às Linhas 4 e 6 do Metrô, bem como de indicação de procedimentos e recomendações’.

No final de 2016, Sérgio Brasil aderiu ao Plano de Demissão Voluntária (PDV) oferecido pela Companhia e se aposentou do serviço público. Atualmente, presta consultorias ‘em áreas correlatas aos seus conhecimentos técnicos, sem prestar serviço direto ao setor público’.

Os relatos de Sérgio Brasil são divididos em 7 anexos, cada um relativo a um tópico do esquema que ele delata.

O Anexo 2 trata da Linha 2 – Verde, lotes 1 até 5. Ele detalha como o dinheiro de propinas chegava às mãos dos destinatários. Aponta para o que chama de ‘sistema implantado de financiamento político- partidário em favor dos partidos de sustentação do governador Geraldo Alckmin, quais sejam, PPS, PSDB, PFL e PTB‘.

Segundo Brasil, ‘era pago um valor mensal a cada um dos partidos, para que eles dessem sustentação às propostas e aspirações do Governo na Assembleia Legislativa‘.

Revela entregas de dinheiro vivo em escritórios políticos, cafés, restaurantes nos Jardins e shoppings. Cita nomes de deputados.

O Anexo 7 é intitulado ‘Diluição de valores indevidos recebidos por mim em contas bancárias de familiares’.

O Anexo 6 (‘Linha 4, Amarela, Metrô-SP’) contém dados da licitação desse trecho da companhia e nele Brasil diz que ‘nada foi conversado entre os representantes das empreiteiras e ele acerca de propina’, mas faz uma ressalva. “Em razão da ‘parceria’ ja estabelecida na Linha 2, Verde do Metrô-SP, eu tinha uma expectativa de recebimento de propinas, como uma espécie de ‘taxa de sucesso’ caso tais empreiteiras viessem a vencer a licitação.”

COM A PALAVRA, JOSÉ SERRA

“O senador José Serra não é citado como beneficiário na delação e reafirma que jamais recebeu vantagens indevidas em 40 anos de vida pública e sempre pautou sua carreira política na lisura e austeridade em relação em relação aos gastos públicos.”

COM A PALAVRA, GERALDO ALCKMIN

“Apesar de desconhecer o teor das declarações ora divulgadas, o ex-governador Geraldo Alckmin reitera que não houve qualquer contribuição ilegal às suas campanhas, muito menos qualquer vinculação entre doações eleitorais alegadamente efetuadas e atos ou contratos administrativos cumpridos durante o seu governo.”

COM A PALAVRA, RODRIGO GARCIA

“Trata-se de uma acusação sem fundamento. Rodrigo Garcia já foi inocentado no STF por falsas acusações referentes ao metrô de São Paulo e lutará novamente contra essa injustiça.”

COM A PALAVRA, O METRÔ

“O Metrô é o maior interessado na apuração de todos os fatos e, se comprovada qualquer irregularidade, apoia a punição dos envolvidos e o ressarcimento dos eventuais prejuízos dos cofres públicos.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO DANIEL CASAGRANDE, QUE DEFENDE SÉRGIO BRASIL

“Sérgio Brasil é colaborador da Justiça e está cumprindo com as obrigações que assumiu quando da assinatura de seu acordo com a Força Tarefa da Operação Lava Jato em São Paulo, acordo esse, inclusive, já homologado pela Justiça Federal de São Paulo. Nesta linha, aguarda a apuração dos fatos pela Justiça e se coloca à disposição do Poder Judiciário.”

COM A PALAVRA, O TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DE SÃO PAULO

“O senhor Eduardo Bittencourt está desligado do Tribunal de Contas desde 1 de abril de 2012, portanto não possui mais vínculos com o órgão. Todas as questões acerca de supostos atos praticados estão sendo conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo e pela Justiça.
O Tribunal de Contas desconhece o teor das supostas delações e permanece à disposição para prestar eventuais esclarecimentos.”

COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ

“A Andrade Gutierrez informa que apoia toda iniciativa de combate à corrupção, e que visa a esclarecer fatos ocorridos no passado. A companhia assumiu esse compromisso público em um manifesto veiculado nos principais jornais do país e segue colaborando com as investigações em curso dentro dos acordos de leniência firmados com o Ministério Público Federal (MPF), com a Controladoria Geral da União (CGU), com a Advocacia Geral da União (AGU) e com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE).

Cabe ressaltar que a empresa tem total interesse em esclarecer os fatos que abrangem as obras do metrô e já se coloca à disposição das autoridades competentes para uma colaboração ampla e irrestrita das informações de que tem conhecimento.

A Andrade Gutierrez reforça anda que incorporou diferentes iniciativas nas suas operações para garantir a lisura e a transparência de suas relações comerciais, seja com clientes ou fornecedores, e afirma que tudo aquilo que não seguir rígidos padrões éticos será imediatamente rechaçado pela companhia.”

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT

“A Odebrecht tem colaborado de forma permanente e eficaz com as autoridades, em busca do pleno esclarecimento de fatos do passado. Hoje, a Odebrecht está inteiramente transformada. Usa as mais recomendadas normas de conformidade em seus processos internos e segue comprometida com uma atuação ética, íntegra e transparente”.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO GUILHERME CORONA, QUE DEFENDE MARCOS MONTEIRO

“O advogado Guilherme Corona, responsável pela defesa de Marcos Monteiro, informa que não teve conhecimento do teor das declarações prestadas e nem do seu contexto de modo que não irá comentá-las. Reitera que seu cliente sempre pautou sua vida pública dentro da legalidade.”

COM A PALAVRA, O PSDB

“O PSDB de São Paulo desconhece os fatos narrados pelo delator/réu e reafirma que jamais recebeu recursos provenientes de desvios ou permitiu que os mesmos fossem negociados em seu nome. O PSDB reitera seu total apoio às investigações, sua confiança no ex-secretário Marcos Monteiro e a convicção de que, ao término das investigações, culpados serão punidos e a lisura do comportamento institucional será comprovada.”

COM A PALAVRA, O PTB

“O PTB nunca recebeu recursos ilegais ou indevidos e sempre teve suas contas aprovadas pela Justiça Eleitoral. Da mesma forma, o partido desconhece as afirmações de Sérgio Brasil.”

COM A PALAVRA, O CIDADANIA (ANTIGO PPS)

A reportagem entrou em contato com o Partido. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, LUIZ FRAYZE

A reportagem entrou em contato com a defesa de Luiz Frayze. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, ARNALDO JARDIM

“Fui informado pela reportagem e nenhuma comunicação judicial recebi. De qualquer forma menciona fatos e procedimentos que desconheço e um comportamento que nunca tive.”

COM A PALAVRA, A CAMARGO CORRÊA

“A Construtora Camargo Corrêa teve papel determinante nas investigações de irregularidades envolvendo obras do metrô de São Paulo. A empresa informa que as denúncias ora investigadas são resultado direto do acordo de leniência e dos acordos de colaboração firmados, respectivamente, entre a companhia e ex-executivos com o Ministério Público do Estado de São Paulo e com o CADE.”

COM A PALAVRA, JOSÉ ANIBAL

“Desconheço totalmente o teor desta calúnia acolhida como “delação”. Mais uma vazamento seletivo do Ministério Público Federal. Em 2013 fui vítima de um canalha delator que disse que nunca falou comigo e não me conhecia. Insisti com o STF que julgasse a farsa. Um ano e três meses depois, o Supremo julgou e arquivou o processo. Farei o mesmo agora. Chega de impunidade de bandidos delatores, de quem os emula e de quem divulga os seus crimes aleatoriamente.”

COM A PALAVRA, FÁBIO GANDOLFO

“A informações trazidas agora pelo Sr. Sérgio Brasil apenas corroboram os fatos narrados anteriormente na colaboração de Fábio Gandolfo, homologada pela Justiça em fevereiro de 2017, sendo importante consignar que Fabio apenas atuou nas obras da linha 02 do Metrô até janeiro de 2007, quando foi transferido para atuar no exterior, não tendo qualquer participação em obras das linhas 05 e 06.”

COM A PALAVRA, EDSON APARECIDO

A reportagem tenta contato com Edson Aparecido. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, CAMPOS MACHADO

A reportagem tenta contato com Campos Machado. O espaço está aberto para manifestação.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: