Egoísmo cruel e burro

Egoísmo cruel e burro

José Renato Nalini*

28 de dezembro de 2020 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O mergulho contemporâneo no obscurantismo é fenômeno inexplicável. Parece admitir múltiplas análises, de acordo com a ideologia e o ponto de vista de quem o examina. Talvez se pudesse explicá-lo à luz de duas considerações. A primeira, é a fragilidade da matéria humana, vulnerável a incríveis retrocessos e capaz de fazer os homens caminharem às tontas. Em círculos ou em marcha-a-ré.

A segunda é o fardo da ignorância. Multi-agravado no caso do Brasil, que tem negligenciado a educação de qualidade. Enquanto países que enfrentaram guerras e outras catástrofes investiram em ciências, matemática e física, nós ficamos a repetir lições coimbrãs, defasadas, anacrônicas e até necrosadas.

Daí chegarmos a esse melancólico e ridículo estágio em que se duvida de que o planeta Terra tenha a sua forma esférica, mas seja uma espécie de pizza. Não há qualquer forma de aquecimento global, o ser humano não interfere com a mudança climática, não há incêndio na Amazônia, nem no Pantanal e somos o país que mais protege a natureza em todo o globo.

Também não existe pandemia. Tudo não passa de alarmismo conspiratório de quem pretende que o Brasil pare de trabalhar e perca o seu espaço de fornecedor de alimentação para o mundo inteiro. Daí para não admitir a vacina é um passo. Chega a ser risível afirmar-se que a imunização serviria para emascular os machos e para fazer crescer barba nas fêmeas.

Cada um pode acreditar naquilo que quiser. Desde que não interfira na vida alheia. E a vacina é a única alternativa à contaminação e ao evento morte, que se aproxima dos duzentos mil humanos e vai superar essa dolorosa cifra, porque a mesma ignorância que faz duvidar da vacina, deixa a multidão se contagiar em bando.

A vacina deve ser compulsória. É insuficiente vincular algumas atividades à comprovação de tê-la tomado. Pois não é uma questão de foro íntimo. É um tema de saúde pública, uma política humanitária, muito acima de ser pública ou até mesmo estatal.

Ninguém pode alegar a liberdade individual para não se vacinar. Quem optar por isso não pode ter contato com ninguém mais. Pois é um eventual contaminador e deve ser coibido de circular e de semear a peste por uma comunidade difusa de semelhantes.

Não existe o direito a não se imunizar. O STF nem precisaria ter se posicionado a respeito, porque é de senso comum reconhecer a obrigação que o integrante da sociedade tem de sacrificar seus interesses egoísticos em prol da maioria.

Paradoxal que a humanidade tenha atingido este ponto de inflexão. A ciência cada vez mais precisa, as tecnologias disponíveis, a longevidade batendo seguidos recordes e a mais abjeta ignorância a presidir parcela considerável da população. Os semeadores do ceticismo não se contentam com a sua temeridade, mas procuram seduzir pessoas que não estão convencidas de que a vida é uma constante conspiração do mal contra o bem.

Mal é o que esses pregadores da mentira causam aos incautos, aos crédulos e aos mais ignorantes ainda do que eles. Quanto já não se afirmou que a natureza foi módica ao distribuir talentos, mas generosa quanto a povoar a Terra de gente tosca, ignorante, medíocre e idiota? E, além do mais, ignorantes maldosos. A crueldade ao optar por uma postura que não é meramente pessoal: todo contaminável é um provável transmissor da peste a outro ainda não imunizado.

Nesta terra da judicialização, em que tudo começa e acaba num Tribunal, é óbvio que a vacina também será judicializada. Que nosso sistema justiça esteja preparado para tornar a vacina impositiva, não um tema discricionário. Pensa-se é na saúde de todos. Enquanto houver pessoas contamináveis, a vida de todos está em perigo.

A ignorância é tamanha e tão profunda, que uma nação que vive há décadas com a imensidão de produtos “made in China”, queira agora refugar uma vacina que é um dos raros frutos de uma cooperação científica entre o Instituto Butantã, nicho de excelência, e renomados cientistas chineses.

Recomendar-se-ia aos ignorantes, sem sucesso é claro, porque eles têm fobia por pesquisa, verificar quantos trabalhos científicos foram elaborados por expertos da China e como está o Brasil em cotejo com eles. Aprender com a sabedoria chinesa, com a tradição chinesa, com a seriedade com que os chineses trabalham, não faria mal a este país tão necessitado de mais sensatez.

Queira Deus tenhamos vacina paulista-chinesa o quanto antes. E que tenham outras vacinas, venham de onde vierem. A alternativa é a roleta-russa de se contaminar e de morrer. Será que os negacionistas têm plena noção disso?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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