Efeitos e desafios para startups com a covid-19

Efeitos e desafios para startups com a covid-19

Daniel Ibri*

18 de abril de 2020 | 08h00

Daniel Ibri. FOTO: DIVULGAÇÃO

Com a crise socioeconômica causada pela covid-19 forçando a criatividade nos negócios, surge a necessidade de que as startups estejam também preparadas para revisar seus planejamentos para atender as expectativas impostas pelo mercado, a fim de manter sua estabilidade ou até garantir algum crescimento. Todos sabemos que as startups são empresas, em geral novas e de base tecnológica, mas que possuem principalmente um modelo de negócios altamente escalável.

De fato ninguém se preparou para este momento. O movimento da bolsa de valores durante o início da crise foi drástico, comparado as duas últimas crises econômicas. Enquanto nas outras víamos uma tendência de queda, na atual vimos o crescimento repentino no valor do dólar e a queda brusca da bolsa de valores, ao mesmo tempo que estratégias de prevenção e contenção do vírus nos impuseram um isolamento. Fomos obrigados a ficar em casa.

Apesar da facilidade em tomar decisões de forma ágil e mudar o rumo do negócio, as startups muitas vezes dependem de poucos clientes grandes ou de muitos clientes pequenos. Como, em sua maioria, ainda não há um modelo de negócios provado ou faturamento relevante que permita atravessar períodos de crise acentuadas, elas dependem do capital de investidores para proteger o negócio e até mesmo ampliar suas probabilidades de rápido crescimento. Além disso, os impactos são diferentes para startups B2B e B2C, pois os modelos de negócios respondem de formas diferentes ao mercado, ou seja, é importante ter em mente que para todos os tipos e perfis de startups o cenário é uma situação sensível.

Para um momento como esse, as recomendações que circulam para startups e pequenas empresas tendem a se repetir: preservar o caixa e a liquidez, focar nos clientes que a startup já possui, garantir um bom atendimento, segurar novas contratações e, principalmente, rever os gastos internos. É importante que empreendedores calculem o runway – termo usado por startups referente ao tempo de vida no mercado – para pelo menos um ano, primando para não precisarem de mais investimento externo neste período.

Cuidados na crise

É importante considerar que será difícil conseguir captar novos clientes e recursos de investidores no curto prazo, restando, portanto, focar nos clientes e no dinheiro líquido que o empreendedor já tem. Além disso, renegociar contratos em andamento, não tomar nenhuma decisão estratégica importante que possa impactar o negócio no curto e médio prazo, também são recomendações para se olhar com cuidado.

Com a medida provisória que permite a redução da carga horária de trabalho, onde funcionários recebem um benefício emergencial equivalente a uma parte do seguro-desemprego, é possível reduzir drasticamente a carga horária de profissionais que, por ora estão obsoletos, mas que serão necessários quando a crise atenuar. Se possível, reduza os salários dos executivos principais e não faça novas contratações.

O marketing, por sua vez, é um setor essencial para startups pois gera crescimento para o negócio. Apesar disso, em momentos de crise não vale a pena investir em determinadas ações de marketing se o mercado não vai ter capital para responder a estes investimentos. Todavia, é essencial manter uma comunicação fluida, sensível e transparente entre empresa, colaboradores e clientes.

Perspectivas para um novo mundo pós-crise

Os impactos sociais da atual crise são profundos e certamente mudarão a forma de trabalho e interação social. O desemprego também deve aumentar expressivamente, tirando alguns países da zona de conforto, como os Estados Unidos. O impacto na economia brasileira será profundo e estima-se que sua recuperação a nível de pré-crise só irá acontecer dentro de alguns anos.

Ecossistemas de investimento em startups de países mais maduros como Estados Unidos e Israel tem mais atividade e oferta de opções mesmo em momentos de crise como esse. Num país com menos oferta de capital, como o Brasil, o empreendedor tende a sofrer mais e ter mais dificuldade. Entretanto, a crise passará e as coisas não serão como antes – provavelmente porque o “antes” não estava tão bom.

Grandes setores passarão por mudanças acentuadas, como educação e saúde. Mas, como cada empreendedor será impactado? O que está sendo feito para que o empreendedorismo se prepare para este novo cenário? Oportunidades podem surgir desses questionamentos e certamente a atuação da tecnologia será muito reforçada no pós-crise, criando novas formas de trabalho e maior adaptabilidade das pessoas ao seu uso.

E-commerce, streaming, delivery e gaming são setores que se beneficiam diretamente deste cenário todo. A Taxa de Juros Brasileira (SELIC) está no patamar mais baixo historicamente. Isso facilitará o crédito, mas também continuará empurrando investidores mais tradicionais para a economia real, incluindo startups. Com o dólar no patamar atual, as empresas nacionais devem ficar mais competitivas e empreendedores terão que se moldar a uma nova realidade, onde a rentabilidade e sustentabilidade financeira de seus negócios se torna item essencial.

*Daniel Ibri é cofundador e CEO da Mindset Ventures

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