Educação na pandemia: quem saiu na frente?

Educação na pandemia: quem saiu na frente?

Isabela Villas Boas*

17 de junho de 2020 | 08h30

Isabela Villas Boas. FOTO: WALLACE MARTINS

Passados cerca de três meses desde o fechamento das escolas, vemos hoje uma variedade de soluções para a continuidade do processo de ensino-aprendizagem de forma remota. O volume infinitamente superior de alunos e as desigualdades econômicas mais evidentes na rede pública tornaram as decisões mais complexas e as soluções mais limitadas. De qualquer maneira, tanto na rede pública, quanto na privada, as escolas não pararam e seus dirigentes e professores buscaram diferentes soluções para o ensino remoto, optando por aquelas que estivessem em consonância com sua filosofia de ensino e com o grau de letramento digital de seus alunos e professores.

Pudemos observar escolas utilizando desde “lives” no Instagram ou vídeos no Youtube, seguidos de exercícios enviados via email ou whats app, até plataformas para aulas remotas ao vivo, como Zoom, Google Meet e Microsoft Teams. Redes públicas em todo o Brasil usaram soluções diversas, entre elas o uso do Google Classroom e das TVs educativas para a transmissão de aulas. As que foram ágeis em estabelecer as necessárias parcerias público-privado conseguiram oferecer acesso gratuito a rede de dados e uso livre de ferramentas tradicionalmente pagas.

No entanto, um erro comum é nos referirmos a todas essas variadas soluções como ensino a distância, ou EAD. O que a grande maioria das escolas passou a fazer durante o isolamento social foi o ensino remoto ao vivo, na maioria dos casos. Ensino a distância é outra modalidade de ensino que já foi planejado desde o início para ser realizado a distância do início ao fim. Adota-se uma plataforma de ensino robusta – não somente para transmissão de aulas ao vivo – que permite ao professor gerenciar todas as etapas do processo de ensino-aprendizagem. Os alunos são engajados por meio de vídeo aulas, leituras, projetos, fóruns de discussão, jogos, entre outros. Pode ou não haver aulas remotas ao vivo, mas a interação individual com o professor é imprescindível. Somente as poucas escolas que já tinham uma modalidade híbrida e já utilizavam alguma plataforma de ensino podem dizer que passaram a fazer, de fato, ensino a distância.

Observando todas as variadas soluções e experiências de ensino remoto ao vivo ou assíncrono Brasil afora, por que algumas escolas tiveram mais sucesso e conseguiram controlar a evasão mais efetivamente do que outras? Um primeiro aspecto fundamental para o sucesso de muitas escolas foi a efetividade na comunicação com as famílias. É evidente que nenhuma escola conseguiria virar a chave de um dia para o outro e todas tiveram que parar por um período para se planejarem. No entanto, saiu na frente quem soube comunicar isso o mais cedo possível e dar uma perspectiva de planejamento futuro para as famílias. Mais ainda: saiu na frente quem soube continuar engajando os alunos, de alguma maneira, mesmo antes do início das aulas ao vivo.

Outro aspecto que determinou o sucesso maior de algumas instituições foi o investimento prévio no letramento digital de seus professores. Com professores já versados em várias ferramentas digitais, tornou-se fácil selecionar a mais adequada e treinar os professores para usá-la, pois a curva de aprendizagem não foi tão grande. Para escolas com professores com baixo letramento digital, essa curva tornou-se mais íngreme e, muitas vezes, intransponível. A pandemia acelerou e, muitas vezes, forçou a transformação digital das escolas.

Saiu na frente também quem adotou ferramentas para ensino remoto congruentes com a sua filosofia de ensino, para que a dinâmica das aulas permanecesse a mesma. Uma escola cuja filosofia é interacionista e que adota o trabalho em pares e grupos como um de seus princípios básicos teve que buscar uma ferramenta que permitisse esse mesmo tipo de atividade. Muito mais que isso, o ensino remoto também possibilitou outras formas de produção dos alunos, como outros gêneros textuais escritos e orais.

Em suma, quem soube se comunicar com as famílias efetivamente, já estava em processo de transformação digital e soube ressignificar o seu ensino e utilizar as oportunidades inovadoras que a tecnologia e o ensino remoto oferecem obteve excelentes resultados e conseguiu, com isso, encantar e reter os alunos.

*Isabela Villas Boas, doutora em Educação, é gerente Corporativa Acadêmica da Casa Thomas Jefferson

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