Educação multiportas

Educação multiportas

José Renato Nalini*

14 de agosto de 2020 | 07h30

José Renato Nalini. FOTO: HELVIO ROMERO/ESTADÃO

O Brasil é o país da retórica, no pior sentido que o verbete possa representar. O discurso prevalece enquanto a prática desaparece. Não desconheço o perigo de afirmação tal. As palavras não são iguais ao que pensamos. Há uma hierarquia em três níveis: a realidade no cume, a mente intermediária e a palavra na base. Nem sempre o que se diz reflete com exatidão o que se pensa.

A educação esteve sempre na eloquência e estes tempos pestilentos assistem a uma intensificação das opiniões dos doutos. Há muitos experts em educação. Estão há muito no pódio e os resultados são mais próximos ao fracasso do que ao êxito.

A cada anúncio de retomada das aulas, surgem os mesmos a proclamar suas verdades. Os achismos se repetem e a mesmice predomina. Assim como o futebol e a medicina, o universo da educação é prenhe de genialidades.

A desgraça da Covid19 deveria servir para mudar o disco. Por que não ousar e tentar outros percursos? O lema “inove ou morra” também vale para a educação. A educação formal não acordou para a profunda mutação do planeta, mercê da irreversível imersão da humanidade nas tecnologias da Quarta Revolução Industrial.

As crianças, vítimas daquele ensino padronizado, enfileirado e insosso, ainda conseguem ficar trancadas numa sala de aula ouvindo preleções que não convencem e não seduzem. Os jovens, intuitivamente, fogem a esse anacronismo. É só verificar os bares cheios e as classes ociosas.

Talvez não tenha sido tão cruel a paralisação das aulas presenciais. Um hiato para os especialistas reformularem a sua concepção do que deva ser um processo educativo. Algo que tem início na primeira infância e que precisa prosseguir pela inteira existência do educando. Somos todos educandos. Aprendizes permanentes, na breve trajetória que nos foi permitido vivenciar. Algumas décadas, não mais.

Fazer mais do mesmo não funciona. As novas gerações já nascem com chip. É constatável, empiricamente, a atração exercida pelas bugigangas eletrônicas nas mentes infantis. Isso tem de ser potencializado para despertar a curiosidade da criança, para mostrar que há um universo a ser desvendado e que ela tem condições de ser partícipe da direção a seguir.

O momento é a oportunidade para uma reflexão dos professores, para que se reinventem. Quem acredita hoje que o aluno é um completo vazio, a ser preenchido pelo detentor do conhecimento, o docente? Não é assim. A informação está disponível e nunca foi tão acessível como hoje. O mestre é um indutor da curiosidade. Um orientador. Alguém que dialoga em busca de serenar as dúvidas. E de estimular a contínua busca pelo conhecimento, resultante do filtro das informações, nem sempre fácil para as mentes imaturas.

O percurso do aprendizado não pode ser padronizado. As conversas têm de ser praticamente individualizadas. O protagonismo deve ser premiado. Atenue-se ou até se suprima a necessidade de saber de cor. Decorar é algo que papagaio aprende. Criança tem de aprender a pensar por si só. Os dados atualizados estão no Google. Um toque e milhares de respostas surgem magicamente.

A escola deve ser um lugar agradável e acolhedor. Focar os atributos que permitam convivência cordial, se não puder ser fraternal. Propiciar o desenvolvimento de individualidades irrepetíveis, pois o humano é singular por vocação. Homogeneidade é característica de formigueiros ou colmeias.

Os atributos a serem desenvolvidos são as decantadas competências socioemocionais. Quando delas se descuida, a escola é uma prisão. Lugar para onde se volta para matar colegas e professores, antes de praticar suicídio.

O constituinte de 1988 foi sábio ao contemplar a educação: direito de todos, em qualquer idade, a qualquer tempo, para um projeto pessoal formal e informal. Dever de todos: família, Estado e sociedade. Cada qual igualmente responsável por criar gerações mais preparadas para os desafios que são inevitáveis, diante da tragédia produzida por nossa geração. Que não soube defender o ambiente, não soube reduzir as desigualdades, não soube, verdadeiramente, educar. Pois educar é qualificar para a subsistência digna, para o exercício da cidadania e, principalmente, para exaurir as potencialidades de autoaprimoramento.

A ortodoxia não é a melhor conselheira para uma educação de verdade. Educação que deve ser multiportas: online, presencial quando se interromper a acelerada ascensão da curva de contaminações, em casa, por aqueles que se considerarem aptos a esse desafio, confessional ou na linha de qualquer das pedagogias existentes.

Tentar fazer uma escola única para seres distintos é desperdiçar os escassos recursos do Erário e caminhar para a repetição do insucesso. Algo que conhecemos bem. E de que não temos muito a nos orgulhar.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: