Educação em tempos de pandemia: ação urgente ou retrocesso latente

Educação em tempos de pandemia: ação urgente ou retrocesso latente

Naira Sathiyo*

22 de agosto de 2020 | 11h00

Naira Sathiyo. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

O vírus da covid-19 pegou o mundo de surpresa. Nenhuma rede de ensino estava preparada para transformar o método presencial em remoto de uma hora para outra. A questão é que a pandemia acabou por escancarar todos os problemas que sempre existiram na Educação Brasileira, sobretudo na rede pública de ensino: falta de acesso à tecnologia, evasão escolar, alunos dependentes da merenda escolar como principal refeição no dia e nível de aprendizado inadequado.

A postura do Ministério da Educação é vergonhosa, sem orientação, descoordenada e com um entra e sai de ministros que aprofundou divisões e não contribuiu para propor uma política pública eficiente. Resultado: muita polêmica e nenhuma entrega.

Para tentar preencher o vácuo deixado pelo MEC, as secretarias regionais têm se esforçado para ampliar o acesso da educação básica às plataformas digitais e materiais impressos. Muitos desses esforços passaram por parcerias com a iniciativa privada, que possibilitaram acesso à aula online, merenda escolar e interação ao vivo entre alunos e professores.

É importante deixar claro que o EAD é uma situação paliativa para emergências porque nada substitui o dia a dia do ambiente escolar. E ele não facilita o aprendizado já que vários alunos estão com dificuldades para conseguir acessar ou absorver o conteúdo. Estudos comprovam que aprender matemática e português ao lado do professor é muito mais eficiente do que pela tela do celular. O problema é que a realidade das famílias brasileiras é muito diferente. Não são todos os alunos que contam com um ambiente propício dentro de casa para assistir às aulas online, ainda mais quando toda a família está tentando passar suas tarefas diárias para dentro da residência.

Neste ambiente incerto, os alunos se mostram cada vez mais desmotivados. Pesquisas mostram que 3 em cada 10 jovens pensam em deixar a escola e metade cogita desistir do Enem. A evasão escolar sempre foi um problema por diferentes razões (necessidade de trabalhar para ajudar a família, falta de propósito e sentido na sala de aula, etc), mas infelizmente a expectativa é que o número de alunos abandonando a escola aumente no pós-pandemia.

E o cenário fica ainda mais complexo porque a perspectiva é de um aumento na defasagem no aprendizado. Será impossível recuperá-la em quatro ou cinco meses.

Diversos estudos acadêmicos mostram que um aluno perde entre 30% e 50% do conhecimento de um ano para outro durante as férias. A Educação no país está parada há cinco meses! O retrocesso será gigantesco e imensurável porque ele atingirá vetores multidimensionais do conhecimento, socialização, convívio e cognitivo.

Ou seja, serão anos de esforço para que consigamos correr atrás do prejuízo. O Poder Público terá que de fato encarar a Educação como prioridade dessa vez.

As aulas presenciais são insubstituíveis, mas o momento do retorno ainda é incerto. E esse é um dilema que afeta todo o mundo. Não há consenso entre médicos, há divergência entre pais (os que preferem não mandar seus filhos e os que sem opção por conta do trabalho precisam ter os filhos em ambiente escolar) e existe uma preocupante incapacidade das instituições cumprirem os protocolos de segurança.

O importante é que tudo o que for feito a partir de agora seja baseado em evidências. Política pública construída em achismos é ineficaz e não traz resultado adequado para a sociedade. Toda ação do poder público deve ser implementada a partir de dados científicos claros e experiências já adotadas que deram certo em outros lugares.

A partir daí é possível construir um ensino mais forte. Uma oportunidade disso foi trazida pela própria pandemia. A covid-19 trouxe um aprendizado importante para as escolas em como construir o conhecimento de longe. E em como todo o processo há um legado: o ensino híbrido. Ainda que seja algo novo, a educação semipresencial pode ser uma oportunidade para as próximas gerações porque traz novas dimensões para o aprendizado do aluno, sobretudo na tecnologia, agregando valor pedagógico ao saber de cada estudante. Além disso, pode resolver vários problemas e indiretamente trazer ganhos nas áreas de segurança pública e transportes, para citar apenas dois exemplos.

O momento é de se avaliar as opções, sabendo que as dificuldades são imensas e a complexidade do cenário, enorme. A Educação deve ser priorizada porque ela é o caminho mais forte de transformação. E meu exemplo é pessoal. Sou filha de uma ex-professora e de um ex-metalúrgico e estudei boa parte do ensino básico em escolas públicas de São Paulo. Depois de prestar várias provas, ganhei uma bolsa de estudos para cursar o ensino médio em uma das escolas privadas mais tradicionais da cidade e senti na pele os vários “brasis” da Educação.

O Poder Público sempre deixou a desejar quando se fala de Educação porque é um tema apenas eleitoral, que é esquecido na priorização das políticas públicas. É hora, portanto, dessa lógica mudar. Só assim os déficits históricos não serão cristalizados em uma geração perdida.

*Naira Sathiyo, 24 anos, advogada e ativista da Educação

Tudo o que sabemos sobre:

Artigoeducação

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: