Educação em segunda chamada

Educação em segunda chamada

Douglas Oliani*

11 de julho de 2021 | 10h30

FOTO: AGÊNCIA BRASIL

Costuma-se dizer que o estudante que está em segunda chamada é aquele que precisa demonstrar de forma mais efetiva a sua aprendizagem, um melhor desempenho. Isto posto, não é exagero afirmar que o atual cenário da educação brasileira deveria ser colocado em segunda chamada.

De um lado, ainda que em parte a rede privada tenha retornado à presencialidade um pouco antes do que se desenha para a rede pública, temos a necessária recuperação do ambiente escolar ou acadêmico pelos alunos. De outro, é preciso muito planejamento para e por parte dos gestores educacionais.

No caso dos estudantes menores, os pais e responsáveis, aqueles que acompanharam o processo de ensino e aprendizagem durante o período de distanciamento e virtualidade forçada, estão cientes dos prós e contras de cada metodologia e dos processos presentes nas instituições. Já os gestores deverão estar atentos para ganhar tempo nesse próximo semestre, para que consigam chegar a 2022 com, ao menos, boa parte dos problemas equacionados.

Viveremos, literalmente, um tempo de reforço, necessário à recuperação, para que todos os estudantes cheguem ao próximo ano preparados para a normalidade que, sem quaisquer dúvidas, será um tanto diferente da realidade que conhecíamos antes da pandemia de Covid-19.

Além disso, do ponto de vista de gestão, teremos que nos atentar ao chamado “novo” Ensino Médio, que, como já comentei certa vez, não é tão novo assim, pois remonta a uma iniciativa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) anterior ao Bug do Milênio, mas que trará nada menos do que a necessidade de um reajuste de 1,8 mil horas no cronograma. Trata-se de um imenso desafio, tanto do ponto de vista de calendário quanto do ponto de vista financeiro. Aqui, mais uma vez, a rede privada precisará usar da inteligência para fechar a conta, buscando uma performance ainda mais eficiente.

As normas do jogo estão sendo alteradas, e isso é muito bom! De certa forma, a inovação só desabrocha depois de períodos de dificuldade. Ao mesmo tempo, sabemos o quão difícil é movimentar a educação por completo em um país de dimensões continentais. Veremos, portanto, fatalmente, a ampliação do espaço que separa o público do privado.

A rede privada com certeza se adequará dentro dos prazos estabelecidos, até por uma questão de sobrevivência. Mas também estamos fadados a observar parte da educação talvez nem chegar a uma segunda chamada, algo demonstrado nitidamente pelo Plano Nacional de Educação, que em uma década não atingiu nenhuma meta sequer – e, ao que tudo indica, ficará por isso mesmo.

O que precisamos ter em mente é que, às vezes, a segunda chamada pode ter um gosto amargo, mas ser muito mais educativa do que um conselho de classe condescendente.

*Douglas Oliani é presidente do Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe/PR)

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