Educação de guerra

Educação de guerra

José Renato Nalini*

10 de setembro de 2020 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A pandemia transformou a face da Terra. Tudo diferente em todos os aspectos da convivência. Será difícil digerir a tonelagem de obras produzidas sobre a peste. Algo que surpreendeu a humanidade, cada vez mais segura de sua incolumidade, tantas as conquistas científicas logo convertidas em avanços tecnológicos.

À medida em que se avizinha, ainda tímida e discreta, uma atenuação dos níveis de contaminação e óbito, intensifica-se a discussão a respeito da retomada da economia. Forjou-se o jargão “economia de guerra”, para mostrar que será necessário um esforço sobre-humano, até atingir-se o estágio anterior à praga.

Se isso vale para a economia, por que não pensar numa “educação de guerra”?

Nunca estivemos bem no assunto mais relevante e mais urgente para o Brasil. Educação, repita-se, é a chave para a resolução de todos, absolutamente todos, os cruciais problemas nacionais.

Somos hoje um país de iletrados. Proliferam os analfabetismos denunciadores de nosso miserável estágio. Analfabetos em sentido estrito, aquele incapaz de qualquer leitura. Analfabetos funcionais, que conseguem soletrar e rabiscar uma assinatura, mas não têm noção do que estão lendo. Analfabetos mentais, que pensam que entendem, mas que não assimilam as mensagens escritas. Analfabetos petulantes, que acreditam ser suficiente a escolarização para compreender as complexidades do mundo.

Sobram analfabetos literários, ou seja, aqueles que poderiam ler, mas o não fazem. Consumimos pouco em livro. As edições mais vendidas são as religiosas, para muita gente repetir, tatibitate, numa reiteração automática de textos que só aumentam a ignorância e o fanatismo, se não forem contextualizados. E manuais, estes cada vez mais singelos, ao ponto de se tornarem simplórios.

Não é o ano de 2020 que foi perdido na escolarização formal. Essa batalha já vinha sendo o palco de derrota há muitos anos. Por uma série de fatores. O declínio dos valores menosprezou a educação, a começar pelo desprestígio do professor. O conceito de autoridade foi revisto e a onda do “é proibido proibir” fez vicejar a explosão de instintos que, eufemisticamente, poderíamos chamar de “menos humanos”.

Escolas vandalizadas, professores ameaçados, agredidos verbal e fisicamente. O desalento tira da sala de aula milhares de docentes. Basta examinar o número de afastados por razão de saúde. E a percentagem de licença por problemas de saúde mental.

Nem toda família leva a sério o seu dever de educar. Esqueceu-se a sábia lição de que a escola instrui, mas a educação vem do lar. As aulas prelecionais competem com o instantâneo acesso de quem tiver curiosidade às redes sociais mais atualizadas e infinitamente mais sedutoras.

O que fazer?

Uma “educação de guerra” significa investimento potencializado no processo educacional. Isso não significa exclusivamente dinheiro. Mais importante é o mergulho determinado e entusiástico na missão de redimir os carentes de educação de qualidade.

Família e sociedade têm de estar ao lado do Estado para essa missão. Até porque, educação é assunto muito sério para se relegar ao governo. Principalmente se considerada a série de desastres promovidos pela administração pública em nome da educação.

Todos devem se envolver na epopeia que levaria ao recrutamento de todos os professores aposentados, para que auxiliem a recuperação do atraso. Aqueles que cursaram o antigo Normal, (abandonado assim como outras soluções excelentes, para adoção de cursos de Pedagogia e Letras que não ensinam a ensinar), têm condições de alfabetizar com eficiência.

Os alunos mais adiantados também são os melhores tutores dos que ficaram para trás. Os millenials já nasceram com chips, como nativos digitais, têm desenvoltura para desenvolver aplicativos que acelerem o aprendizado de português, matemática e ciências. Youtubers têm de ser estimulados a produzir peças atraentes de ensino/aprendizado.

O incentivo à leitura e à discussão posterior deve ser promovido em todos os ambientes, por todas as pessoas. Físicas e jurídicas. Todo brasileiro culto pode multiplicar o número daqueles hoje excluídos de participação consciente na frágil democracia pátria, mediante processos inteligentes de um despertar para a preocupação cultural.

A empresa, instituição que vivenciou o milagre de sobreviver, a despeito da incompreensão estatal, tem de imergir no processo, detectando os intelectos criativos e curiosos, para uma pesquisa que resulte em cultura do empreendedorismo.

Nada impossível, tudo factível, cuja adoção denotaria a superveniência de algo negligenciado: a responsabilidade familiar, societária e estatal para com a mais frágil das obrigações numa Democracia que pretenda ser digna desse nome.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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