Educação: ano letivo x sucesso

Educação: ano letivo x sucesso

Francisco A. C. Mendes*

12 de janeiro de 2020 | 03h00

Francisco A. C. Mendes. FOTO: DIVULGAÇÃO

O objetivo desse artigo é sugerir alguns movimentos que os pais podem fazer com os filhos ao longo do ano letivo no intuito de ajudá-los a terem um bom desempenho escolar. Minha intenção é ser direto em minhas colocações, mesmo que isso possa parecer, em um primeiro momento, uma “receita de bolo”, mas tenha certeza que não o é. Não o é, pelo simples fato de que não existem modelos prontos de Sucesso.

Enfim, chegamos mais uma vez ao início do Ano Letivo e, junto com ele, temos algumas perspectivas, várias expectativas, certas incertezas e muitos desejos. Entretanto, como fazer para que o ano letivo não seja perdido? Mais ainda, como podemos ajudar os alunos a tirarem o melhor proveito do processo ensino-aprendizagem? Como podemos fazer com que pais e filhos atinjam bons resultados em suas “obrigações”?

Antes de mais nada veja a Escola como um local de interações sociais destinada à Educação Formal, escolástica, curricular. Em outras palavras, não espere que a escola “eduque” seu filho com boas maneiras sociais. Na verdade, elas até fazem isso, mas a responsabilidade do ensino e da manutenção de boas práticas de convivência é da família e ponto.

Há anos trabalhando com Educação Básica (Infantil ao Médio) observo que a maioria dos alunos (e alunas) tem a família como modelo. Em outras palavras, se o aluno (ou aluna) cumprimenta a todos na escola (serventes, porteiros, funcionários em geral, professores etc.), preocupa-se com os demais, respeita o outro e o bem público etc., de cara podemos esperar que a família possui o mesmo hábito e as mesmas práticas: fato!

Isso posto, vamos às sugestões:

“Espelho, espelho meu!”

Podemos notar que os alunos (ou alunas) são o reflexo da família. Eles aprendem e reforçam o que veem. Sendo assim, nossa 1.ª sugestão versa sobre o cuidado com os seus hábitos, suas palavras e suas ações. Por mais que possa parecer mais do mesmo, vamos retomar um exemplo. De que adianta a Escola trabalhar Educação no Trânsito se a família atrapalha o trânsito na rua, para em fila dupla, fala ao celular dirigindo e tantas outros vícios urbanos? Querer levar vantagem, ter atitudes desonestas, agir contra as regras sociais da boa convivência refletem negativamente na Educação.

“Amigo estou aqui!” (Randy Newman – Disney)

Uma 2.ª sugestão importante é participar da vida social escolar do aluno (ou aluna). Mostre a ele (ou ela) que pode confiar em você. Para isso, puxe uma conversa e não faça (pelo menos não imediatamente) juízo de valor. Existem algumas maneiras simples para isso. Sempre que possível mantenha-se informado sobre o que está acontecendo no ambiente escolar. Mostre-se interessado pela vida dele (ou dela), fazendo perguntas simples, como por exemplo:

Como foi o seu dia na escola? Fez novas amizades? Aconteceu algo diferente hoje na escola? Como são seus Professores? Se você tivesse que escolher 3 amigos e 3 amigas para fazer uma viagem de 15 dias, quais você escolheria e por quê? No mesmo contexto, qual amigo e qual amiga você não escolheria em hipótese alguma? Por quê?

Estudar é aprofundar-se no ser.

A nossa 3.ª sugestão vai ao encontro da 2.ª Você deve estar atento ao que ele (ou ela) está estudando e como ele (ou ela) está agregando tal conhecimento. Para isso, procure saber qual o conteúdo está vendo em sala de aula, com que frequência e se traz para casa atividades extras (pesquisas, estudos, exercícios etc.). Isso é muito fácil de fazer. Uma boa estratégia é, em algum momento no dia, de preferência no traslado escola-casa, perguntar sobre as aulas e pedir para que lhe explique um pouco da matéria como se você quisesse aprender. Faça com que ele (ou ela) seja o “Mestre do Conhecimento Escolar”. Atitudes simples como essa lhe ajudarão a diagnosticar antecipadamente vários pontos, desde relacionamento com os colegas, com os professores e com a matéria, até as dificuldades, as tendências e as afinidades dele (ou dela). Além do mais, é importante salientar que, ao fazer isso, você está estimulando as conexões sinápticas criadas ao longo do dia e fortalecendo o aprendizado, fazendo com que retome o processo vivido no ambiente escolar.

“Um por Todos…e Todos por Um!” (Alexandre Dumas, pai)

Esta 4.ª sugestão é bem simples e faz uma considerável diferença. Lembre-se que a Escola foi escolhida por vocês, portanto, não há motivo para duvidar dos profissionais que lá atuam. Claro que podem ocorrer equívocos, mas nada que impeça de manter um saudável diálogo. Quanto mais você colocar em mente que a Escola procurou selecionar os melhores profissionais dentro de sua possibilidade, mais chance de considerá-la sua parceira. Não se esqueça que a Escola e seus profissionais são os especialistas em Educação, procure ouvir as suas orientações e não agir com ingerência. Não existe somente “o seu filho(a)” como aluno (ou aluna). Mande mensagens aos Coordenadores, Supervisores e Professores fazendo perguntas sobre o aluno (ou a aluna). Frequente sempre as reuniões de Pais e Mestres que são oferecidas pelas escolas. Se possível, leve o aluno (ou aluna) com você. Afinal, quem deve ouvir as colocações dos Professores é ele (ou ela). Em outras palavras, participe da vida escolar. Esse tipo de atitude geralmente evita surpresas futuras, dando a todos a possibilidade de agir de maneira honesta preventivamente.

“Dai-me um ponto de apoio e levantarei o mundo.” (Arquimedes)

5.ª sugestão tange a cooperação e os apoios emocional e pedagógico. Entretanto, lembre-se, apoiar não significa apenas ouvir e “passar a mão na cabeça”. Não! Apoiar representa observar, orientar e agir de maneira assertiva, chamando atenção para os pontos fortes com elogios e pontos fracos a serem trabalhados com observações pontuais. Ache a medida certa entre o cobrar pouco e o cobrar demais. Tente acompanhar o aluno (ou aluna) nos estudos. Ajude-o a pesquisar fontes de estudo, oriente-os em relação às disciplinas. Ajude os Professores a buscar aplicabilidade prática aos conteúdos estudados. Caso se sinta inseguro em relação a isso, procure ajuda da Escola para receber orientação (lembra-se da parceria?). Em último caso, procure auxílio de especialista externo (Professores particulares, serviços de tutoria etc.). Fazendo isso, você consegue identificar pontualmente quais as dificuldades que o aluno (ou aluna) apresenta e agir antecipadamente. Entretanto, jamais esqueça de dois pontos importantes: um, é não delegar a outrem a sua responsabilidade social de garantir a Educação do aluno (ou da aluna); outro, é não desmerecer ou denegrir essa ou aquela disciplina (matéria), esse ou aquele conteúdo, essa ou aquela metodologia pedagógica. Isso apenas fará com que seja aberto um fosso, um vão, um buraco entre o aprendizado do estudante e a ação pedagógica.

“Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante…” (Saint-Exupéry)

Nossa penúltima e 6.ª sugestão versa sobre as atividades diárias do aluno (ou da aluna). Lembre-se que nosso dia tem apenas 24 horas, das quais parte desse dia devem ser dedicados obrigatoriamente ao descanso absoluto do corpo através do sono. Estudos indicam que em faixa etária escolar deve-se dedicar de 8 a 10 horas de sono tranquilo em ambiente agradável (em outro artigo descreveremos a importância do sono no aprendizado). Sabemos que, em grandes cidades, por exemplo, gasta-se muito tempo com traslados, portanto, para as demais horas, contabilize todos os momentos possíveis. Nossa sugestão é que o tempo seja dividido em 6 partes proporcionais da seguinte forma:

1) descanso;

2) escola;

3) traslado casa-escola-casa e alimentações (café da manhã, almoço, lanches, jantar etc.);

4) estudos extra-escola (exercícios complementares, pesquisas, trabalhos, avaliações etc.);

5) atividades outras (idiomas, esportes, teatro etc.); e

6) LAZER! Note que o lazer é muito importante, pois em momentos de atividades lúdicas e diferentes, mas de escolha do aluno (ou aluna), são geradas estratégias mentais que também ajudam na resolução de problemas diversos.

“Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém.” (Paulo Freire)

Por fim, nossa última e 7.ª sugestão. Estimule a autonomia desde pequeno. Atribua a ele (ou ela) responsabilidades possíveis de serem realizadas de maneira autônoma. Deixe-o (ou deixe-a) responsável pela divisão do próprio tempo e organização das atividades, organização do estudo, do próprio material escolar (inclusive uniforme), até mesmo por possíveis esclarecimentos sobre pontos delicados da Escola diretamente com a staff. Fazendo isso você está estimulando a autogestão e o amadurecimento com responsabilidade social. Entretanto, lembre-se que a responsabilidade geral sobre os atos, ações e, principalmente, Educação, não deixa de ser sua. Em outras palavras, acompanhe, fiscalize, oriente sempre. Não “delargue” a sua responsabilidade para outrem ou até mesmo para o próprio estudante.

Enfim, acreditamos que esses são apenas alguns passos para que se busque o Sucesso. Mais uma vez enfatizamos que não há receita pronta e que os jovens não vêm com Manual de Instrução. Portanto, seja razoável e pondere.

Feliz Ano Letivo e Bom Divertimento a Todos!

*Francisco Amancio Cardoso Mendes, doutor em Educação pela USP com mestrado em Educação em Ciências com foco em Tecnologia Educacional pela USP e pela Unesp. É membro da Comissão Especial de Educação Digital da OAB-SP

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