Edinho visitou Andrade Gutierrez antes e depois da reeleição de Dilma

Edinho visitou Andrade Gutierrez antes e depois da reeleição de Dilma

Ministro-chefe da Secretaria de Comunicação e alvo da Lava Jato procurou em 2014 Otávio Azevedo, presidente da empreiteira que mais doou (R$ 21 milhões) para a campanha da petista

Ricardo Brandt, Fausto Macedo, Mateus Coutinho e Julia Affonso

16 Novembro 2015 | 05h00

Edinho Silva. Foto: JF Diorio/Estadão

Edinho Silva. Foto: JF Diorio/Estadão

Atualizada às 15h57

O ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência Edinho Silva – investigado na Operação Lava Jato – visitou três vezes o empresário Otávio Marques de Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez, na sede da empreiteira. Uma visita foi em 2012, a dois meses das eleições municipais. As outras duas foram em 2014, em agosto (dois meses antes das eleições presidenciais) e em novembro, um mês depois do pleito em que a presidente Dilma Rousseff se reelegeu.

A informação consta de planilha de controle de visitas recebidas por Otávio Azevedo. Edinho foi tesoureiro da campanha de reeleição de Dilma. Ele está sob investigação do Supremo Tribunal Federal (STF), por suspeita de obter financiamento de campanha mediante ‘ameaças’ sobre contratos da Petrobrás.

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A Andrade Gutierrez é a empreiteira que mais doou para a campanha da reeleição de Dilma, R$ 21 milhões, quase três vezes o montante repassado pela UTC Engenheira, do empresário Ricardo Pessoa, delator da Lava Jato que disse ter sido ‘persuadido’ por Edinho a ‘doar mais para o PT’.

Para todos os candidatos do PT a Andrade Gutierrez doou R$ 39, 3 milhões.

A planilha de visitas da Andrade Gutierrez foi anexada pela Polícia Federal nos autos da Operação Lava Jato. O presidente da empreiteira Otávio Marques de Azevedo é réu em processo por corrupção e lavagem de dinheiro. Ele foi preso em 19 de junho, na Operação Erga Omnes, desdobramento da investigação sobre esquema de propinas que se instalou na Petrobrás entre 2004 e 2014. Nesta sexta-feira, 13, frente a frente com o juiz federal Sérgio Moro, que conduz a Lava Jato, Otávio Azevedo ficou em silêncio.

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Os registros da Andrade Gutierrez indicam que a primeira visita ocorreu no dia 20 de agosto de 2012. Edinho entrou na empresa às 8h54 e saiu às 10h17. A segunda visita foi no dia 25 de agosto de 2014, entrada às 14h48 e saída às 15h25. A terceira, no dia 3 de novembro de 2014. O então tesoureiro da campanha de Dilma entrou às 15h09 e saiu às 15h50.

Nas três oportunidades em que esteve na empreiteira, cuja sede fica em São Paulo, Edinho Silva se identificou como membro da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Em um campo de observações na mesma planilha, a Polícia Federal qualifica Edinho Silva como ‘Deputado estadual/SP (2011-2015), Presidente do PT/SP, e atual Ministro Chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência’. O ministro não é mais deputado – seu mandato parlamentar expirou em fevereiro.

Em outubro passado, o ministro foi ouvido na Polícia Federal, em Brasília. Ele confirmou encontros com o presidente da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa – delator da Lava Jato -, mas negou que tenha feito pressão para que o empreiteiro doasse recursos para a campanha da reeleição da presidente Dilma, em 2014.

O ministro também negou, na ocasião, ter dito as frases que Ricardo Pessoa lhe atribuiu em sua delação premiada. Aos procuradores da República que integram a força-tarefa da Lava Jato, o dono da UTC disse ter sido ‘persuadido’ por Edinho a ‘contribuir mais para o PT’, uma vez que a empresa tinha contratos expressivos com a Petrobrás. “O Edinho me disse: ‘Você tem obras na Petrobrás e tem aditivos. Não pode só contribuir com isso. Tem que contribuir com mais. Estou precisando'”, relatou Pessoa.

A suspeita é que os R$ 7,5 milhões doados pela UTC à campanha da petista tenham sido fruto de dinheiro desviado da Petrobrás. Em setembro, o ministro Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a investigação do ministro, após pedido de abertura de inquérito enviado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Nesta semana, em depoimento à Justiça Federal no Paraná, base da missão Lava Jato, Ricardo Pessoa declarou. “Na época de campanha as contribuições de campanha não tinham nada a ver com propina, eram contribuições de campanha mesmo. O restante não, o restante era como se pagava a comissão da propina da Petrobrás.”

Após esse depoimento de Ricardo Pessoa, o ministro Edinho Silva declarou que ele ‘reforça’ sua alegação de que a campanha da presidente Dilma respeitou a legislação eleitoral. “A fala dele (Pessoa) só reforça aquilo que temos dito desde o início, todas as doações da campanha da presidenta Dilma ocorreram dentro da legalidade.”

Na sexta-feira, 13, a assessoria do ministro disse que não foi possível manter contato com Edinho porque ele estava em vôo.

Vaccari. O mesmo relatório de visitas à Andrade Gutierrez que cita Edinho Silva mostra que João Vaccari Neto, ex-tesoureiro nacional do PT, contabilizou entradas e saídas do escritório do empresário Otávio Marques de Azevedo em vinte vezes, entre 13 de novembro de 2007 e 25 de agosto de 2014. Ao todo, Vaccari foi ao local em 10 oportunidades.

Em todas as ocasiões, o ex-tesoureiro do PT informou na recepção da empreiteira que o motivo da visita era ‘particular’. Vaccari também está preso – a Lava Jato o pegou em março e lhe atribui arrecadação de propinas para abastecer o caixa do PT.