Ecos proféticos

Ecos proféticos

José Renato Nalini*

18 de maio de 2022 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

Umberto Eco foi um dos intelectuais mais impactantes do século XX e continua a impactar a humanidade. Aquilo que ele escreveu sobre a imbecilidade tomando conta da internet aconteceu. Mas não é só nessa área que seus vaticínios se concretizam. Em “Cinco escritos morais”, encontro textos de uma atualidade aterrorizante.

Vou me deter hoje apenas no primeiro deles.

Chama-se “Pensar a guerra”. Escreve que não se pode justificar a guerra somente porque ela possa ter atingido os seus objetivos. Isso poderia “persuadir a todos de que a guerra é ainda, em certos casos, uma possibilidade razoável. O que deve, obrigatoriamente, ser desmentido”.

Eco analisa a postura dos intelectuais diante do conflito armado. E ensina que “os intelectuais como categoria é algo de muito nuançado, todos o sabem. Diverso é, por outro lado, tentar definir ‘função intelectual’. Esta consiste em distinguir criticamente aquilo que se considera uma aproximação satisfatória do próprio conceito de verdade – e pode ser exercida por qualquer um, até mesmo por um marginal que reflete sobre sua própria condição e, de alguma maneira, a expressa, do mesmo modo como pode ser traída por um escritor que reaja aos acontecimentos de modo passional, sem impor a si mesmo a decantação da reflexão”.

A comunidade intelectual escreve sobre a guerra e conseguiu, ao menos, torna-la algo abominável. Falou tanto, “e com tal empenho missionário que mudou radicalmente a maneira como o mundo vê a guerra. Nunca como nessa ocasião as pessoas sentiram todo o horror e a ambiguidade de tudo que estava acontecendo. À parte alguns dementes ninguém tinha as ideias em preto e branco. O fato da guerra ter explodido assim mesmo é sinal de que o discurso dos intelectuais não teve um sucesso completo, não foi suficiente, não teve espaço histórico suficiente”.

Isto não seria adequado para a lastimável guerra da Rússia contra a Ucrânia? Ou então “O mundo de hoje olha a guerra com olhos diversos daqueles com os quais podia olhá-la no início do século XX, e se alguém falasse hoje da beleza da guerra como única higiene do mundo, não entraria para a história da literatura, mas da psiquiatria. Aconteceu com a guerra o mesmo que aconteceu com o delito de honra e com a lei de talião: não é que ninguém os pratique mais, é que a comunidade os considera um mal, enquanto num tempo passado eram considerados um bem”.

Harari, o mais lido historiador contemporâneo, autor dos bestsellers “Homo sapiens”, “Homo Deus” e “Vinte e uma lições para o século Vinte e um”, errou ao dizer que nunca mais haveria a guerra. Subestimou a crueldade e a ignorância humana. Era aquilo que Eco traduzia tão bem, quanto à improbabilidade de uma aventura errática, inviável em nossa era: a racionalidade só poderia “concluir que não se pode fazer a guerra porque a existência de uma sociedade da informação instantânea e dos transportes rápidos, da migração intercontinental contínua, unida à natureza da nova tecnologia bélica tornou a guerra impossível e irracional. A guerra está em contradição com as próprias razões pelas quais é feita”.

Ainda assim, prevalece a loucura, a insanidade, a insensatez, verdadeiro delírio. No momento em que o mundo lamenta a destruição da última grande floresta tropical, a Amazônia vilipendiada e destroçada, a Rússia mata civis, destrói cidades, alimenta a indústria armamentista, que sequer deveria existir se a humanidade tivesse evoluído, em lugar de retroceder.

Líderes egocêntricos e narcisistas ignoram, premeditadamente, o fato de que as armas nucleares indicam a perda do planeta e a vitória de ninguém. Além disso, na visão de Umberto Eco, “o poder não é mais monolítico e unidirecional: é difuso, parcelado, feito de uma contínua aglutinação e desaglutinação de consensos. A guerra não põe mais duas pátrias frente a frente. Coloca infinitos poderes em concorrência. Nesse jogo, alguns centros de poder saem lucrando, mas à custa dos outros”.

Inadmissível que alguns transitórios detentores de poder pensem que lucrarão à custa da morte de inocentes. Que ganho imundo é esse?

A miséria moral a que chegou a humanidade apenas comprova que não se deve subestimar a maldade do bicho que se considera racional.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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