Economizar energia: um ato de civilidade

Economizar energia: um ato de civilidade

Fernando Teixeirense*

26 de agosto de 2021 | 14h40

Fernando Teixeirense. FOTO: DIVULGAÇÃO

A falta de água nos reservatórios, causada pela pior estiagem em 91 anos, trouxe mais uma vez o risco do racionamento de energia e levou o governo a avaliar medidas em conjunto com a indústria para alterar a demanda e aliviar o sistema. Por enquanto, os consumidores residenciais estão livres de qualquer medida mais austera, mas o caso é grave, muito mais que os últimos acontecidos na história recente do setor elétrico.

Por causa da recorrência das crises e pela enorme dependência brasileira de períodos chuvosos prolongados, o Brasil precisa de uma política de Estado que fomente a economia de energia. Algo ensinado pelos nossos pais, mas que, no país das águas abundantes, virou apenas história contada de outros tempos.

Não custa lembrar. O Brasil optou por um sistema hidrotérmico, que nada mais é do que priorizar o consumo da energia vinda das hidrelétricas. As usinas térmicas, que funcionam com os mais variados tipos de combustíveis, são usadas apenas como um seguro, para momentos de emergência. O problema da aposta é que ela depende da vontade de São Pedro, que tem falhado em mandar chuvas. Aliada a isso está a nossa total incapacidade de planejar o setor elétrico e a impossibilidade de fazer hidrelétricas com grandes reservatórios.

No racionamento de 2001, as pessoas economizaram espontaneamente, mas sem programas de incentivo e campanhas educativas. O hábito durou pouco e caiu por terra. Logo veio um projeto para construir usinas térmicas e dar mais segurança ao sistema. Uma medida exitosa até pouco tempo atrás, quando mais uma vez as chuvas não foram como se esperava. As usinas térmicas até deram conta do recado, mas o uso de outras usinas representou um aumento pesado na conta de luz mesmo com os investimentos em gás natural, que tem valor aproximado das hidrelétricas.

O que nenhum governo quer, ainda mais perto de eleições, é aumento de tarifa. Para evitar reajustes, vimos em nossa história muitas manobras contábeis com alto grau de criatividade. Cedo ou tarde a conta chega, e como o debate se dá sempre pela questão tarifária, perdemos a oportunidade de discutir amplamente a necessária modernização do setor elétrico – o PLS 232/16 está parado no Congresso. Mais ainda, dentro desse debate tem de estar uma estratégia de eficiência energética. Poupar energia é um ato de civilidade e o estabelecimento de uma cultura de economia começa pela Educação, pelo ensino nas escolas.

Orientar e estimular a população a respeito do uso consciente de um bem tão importante como a energia elétrica protege os governos e a sociedade toda vez que vivemos momentos como o atual, com reservatórios em situação crítica e sem previsão de chuvas torrenciais. Já passa da hora de tirar essa responsabilidade de cima de São Pedro, especialmente, depois da comprovada influência adversa da humanidade sobre o clima, constatada no relatório Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU). O clima não é e nunca mais será mais como antes. Precisamos nos adaptar para não ficarmos dependentes da imprevisibilidade.

O desperdício de energia custa muito caro ao Brasil e custará ainda mais enquanto o Estado brasileiro não se debruçar sobre um verdadeiro planejamento energético. A cada pico no consumo e a cada período chuvoso insatisfatório, viveremos o risco de racionamento forçado, a implementação de tarifas abusivas e os efeitos devastadores para a economia, que certamente serão sentidos por anos. Enquanto o Brasil vira a cara para a eficiência energética, siga o conselho de seu avô e apague a luz ao sair.

*Fernando Teixeirense, consultor na TORRE Comunicação e Estratégia

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