Economia de guerra para salvar vidas e empregos

Economia de guerra para salvar vidas e empregos

Mario Cebrian*

17 de março de 2021 | 10h20

Mario Cebrian. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

No abismo ideológico entre as administrações republicana e democrata, há uma congruência dos Estados Unidos quanto ao enfrentamento das graves consequências da Covid-19 na economia: a emissão de pacotes de ajuda financeira para alívio dos efeitos da pandemia por parte do governo e a manutenção de uma política monetária extremamente expansiva pelo Banco Central Americano, o Federal Reserve (FED). Se somarmos os pacotes fiscais de ajuda do ano passado, de US$ 2,59 trilhões, e o atual pacote que acaba de ser aprovado pelo Congresso Americano, de US$ 1,90 trilhão, o montante equivale quase ao total do orçamento de gastos do setor público americano para o ano de 2021, de US$ 4,8 trilhões.

Num passado não muito distante, lembro-me das veementes discussões dos políticos americanos a cada vez que o Congresso discutia a aprovação do orçamento anual e a elevação do teto dos gastos da dívida pública. Nada agora parece importar mais do que o combate “financeiro” aos efeitos da pandemia e das inúmeras medidas restritivas tomadas em todo o mundo. O Federal Reserve também interveio com uma ampla gama de ações para limitar os danos econômicos da Covid-19, incluindo US$ 2,3 trilhões em empréstimos para apoiar famílias, empregadores, mercados financeiros, governos e prefeituras.

É uma causa nobre, na qual errar pelo excesso parece ser uma tendência entre os políticos, ao defenderem os pacotes financeiros de ajuda no combate dos efeitos da pandemia. Mas, quais serão as consequências dessa expansão fiscal e monetária? Não é a primeira vez que os norte-americanos adotam medidas de excepcionalidade ousadas para enfrentar conjunturas adversas. O que se faz agora é similar a outras providências colocadas em prática na crise do subprime, em 2008 e, acreditem, ainda sofremos as fortes consequências dessa grande crise de crédito.

Nesta conjuntura complexa, o mercado ficará sim muito mais sensível aos indicadores de inflação vindos da terra de Tio Sam, o que possui potencial para gerar uma demanda técnica por dólares, ocasionada pela necessidade que os investidores terão ao precisarem se desfazer de posições de investimentos. Mas, enquanto a inflação não dá as caras, deveremos seguir assistindo às políticas monetária e fiscal extremamente expansivas e à desvalorização gradativa do dólar.

Uma alternativa de precaução necessária para aqueles que têm investimentos financeiros exclusivamente em dólares é: fazer uma diversificação no portfólio com ativos como fundos imobiliários e ações de empresas resistentes a ciclos econômicos, para que possam beneficiar-se num cenário inflacionário.

No mais, devemos ambicionar que os excessos fiscais funcionem e impulsionem a economia dos Estados Unidos enquanto a guerra contra o Coronavírus durar e que os efeitos colaterais desse remédio não sejam graves. Neste momento, aqui muito tem se falado sobre a reabertura da economia, o que pode ser muito positivo. Afinal, nenhum país ou pessoa estará imune a uma queda prolongada e profunda do maior PIB do mundo.

*Mario Cebrian, economista, é especialista em moedas, tendo atuado mais de 20 anos no mercado financeiro. Hoje é empresário e residente dos EUA

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