Economia colaborativa: o que temos a aprender com isso?

Economia colaborativa: o que temos a aprender com isso?

Camila Nasser*

11 de janeiro de 2020 | 05h00

Camila Nasser. FOTO: DIVULGAÇÃO

O ano é 2020. Os recursos mais escassos. O planeta já não suporta tanto consumo. A economia não sustenta a tal “demanda versus oferta” proposta. Desemprego alto. Mais pessoas atingindo a linha da pobreza. Como lidar? Como reverter uma situação que parece sem solução?

Se você não ouviu falar no termo “economia colaborativa”, pode já ter participado dessa tendência, usando aplicativos como AirBnB ou espaços como o de coworking. O consumo sustentável é o ponto de partida do conceito. A premissa parte do fato de não precisarmos adquirir determinados recursos para fazer uso deles. Podemos usar os recursos por um período que nos for útil, sem precisar gerar acúmulos desnecessários, ou então, sem precisar alocar nosso dinheiro em um bem que não precisaremos fazer uso constante. Apesar deste ser um termo ainda muito polêmico em determinados campos intelectuais, onde muitas pessoas sustentam a tese de que, se é consumo, já não é consciente, essa tendência tem se demonstrado eficiente, tanto para quem oferece, quanto para que faz uso.

Talvez, também, você já tenha se deparado com outro conceito da economia colaborativa ajudando algum amigo em um projeto por meio de crowdfunding. Em suma, alguém tem uma ideia, um projeto, ou uma necessidade específica, e sites e portais abrem a possibilidade das “vaquinhas” digitais. Se eu gosto do projeto ou da proposta, eu faço uma contribuição financeira, e, na maioria dos casos, ganho alguma recompensa por ter apoiado o projeto.

Além desses conceitos já conhecidos e consolidados não só no mercado brasileiro, mas globalmente, uma nova vertente da economia colaborativa vem surgindo como solução para um fomento mais igualitário, inclusivo e socialmente relevante de novos negócios e projetos. Um coletivo de apoio e incentivo a projetos de alto impacto social e ambiental surge com o objetivo de ajudar empreendedores a tornarem seus projetos viáveis, fornecendo consultoria, mentoria e alavancagem financeira, quando necessário.

O conceito pode parecer familiar, algo como investimentos-anjo, mas existem algumas diferenças essenciais: o conceito de investimento-anjo tem uma premissa de negócios de larga escala, com grande possibilidade de alavancagem rápida, para posterior venda da empresa, ou abertura de mercado, os conhecidos IPOs. Normalmente, projetos de tecnologia são muito bem-vindos para investidores-anjo pois cumprem essas premissas. O coletivo de economia colaborativa ruma para o caminho contrário: negócios pequenos, lucrativos, de alto impacto socioambiental e relevância de propósito.

Na economia tradicional, o modelo de investidores de empresas e de mercados torna a pirâmide social cada vez mais verticalizada. Quando partimos para conceitos de menor consumo, maior envolvimento social e menor impacto ambiental, começamos a achatar a pirâmide e diminuir a desigualdade. No conceito de economia colaborativa podemos trocar a especulação financeira, que alimenta grandes investidores e suprime a base da sociedade com altas taxas de cheque especial e empréstimos pessoais, por maior possibilidade de acesso ao que realmente é necessário para uma vida plena das pessoas, independente da classe social.

Não é incomum encontrar pessoas que tenham engavetado algum projeto, ainda que pequeno, por falta de apoio, de recursos financeiros ou de recursos humanos.

No coletivo de economia colaborativa, somam-se idealizadores de projetos, profissionais que tem algo a agregar (por conhecimento em marketing, finanças, vendas ou áreas de conhecimento que apoiem esse desenvolvimento) e pessoas que desejam fazer parte como pequenos apoiadores, fazendo aportes financeiros que viabilizem essas ideias e tenham ganhos com esse apoio, seja fazendo uso daquele produto ou serviço, seja participando dos lucros. Aqui, o conceito-base da economia colaborativa, que é o consumo sustentável, expande para, também, a produção sustentável desses projetos. Dividir recursos, espaços, conhecimento. Menos custo de produção, preços de produtos e serviços mais acessíveis, maior impacto social, menor uso de recursos ambientais. É uma conta simples.

Quando falamos em alto impacto social e baixo impacto ambiental, naturalmente associa-se a projetos artísticos ou ecológicos. Estes costumam ser, mas não apenas eles. Quem se quer impactar com o projeto? Que diferença esse projeto faria na comunidade? Que falta faria se deixasse de existir? É possível executá-lo pensando os recursos necessários de forma mais sustentável? Tem uma lucratividade interessante? Pronto. É possível que tenhamos um projeto social e ambientalmente relevante e alinhado ao conceito de economia colaborativa.

Por fim, a concepção da economia colaborativa é simples, e o primeiro passo a ser dado é entender que nesse conceito o acesso é mais importante que a posse e a experiência mais relevante que o bem adquirido.

*Camila Nasser, diretora executiva do BNI

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