Economia brasileira em tempos de eleição

Economia brasileira em tempos de eleição

Leila Rocha Pellegrino*

13 de agosto de 2018 | 13h00

Leila Rocha Pellegrino. FOTO: DIVULGAÇÃO

É recorrente a percepção de que, com a proximidade das eleições, aumentam-se as incertezas acerca do futuro próximo da economia. Essas indefinições parecem abreviar o tempo de atuação do governo em exercício, quase como se seus compromissos fossem finalizados com o acirramento da disputa. Passado o processo eleitoral, recai sobre o futuro governante a responsabilidade de reconduzir a trajetória da economia rumo ao desenvolvimento depois de meses de indefinições. Se essa afirmação se aplica a diversos países e momentos históricos, no Brasil de 2018 ela ganha especial gravidade. A persistência, nos últimos anos, de um fraco desempenho econômico impactando os níveis de investimento, renda e emprego é agravado pelas instabilidades jurídica e política. Assim, a incerteza ganha tons fortes e predomina no quadro da conjuntura econômica.

Desse modo, para além das propostas dos candidatos para a economia (ou da ausência delas), é preciso perguntar como os efeitos econômicos do processo eleitoral impactam a vida do eleitor. Se considerarmos diferentes dimensões do ambiente macroeconômico, fica evidenciado que a sociedade é impactada pelo ambiente de incerteza de diversas formas:

Redução do nível de emprego e adiamento das decisões de investimento

As incertezas que rondam o pleito eleitoral fazem com que muitos empresários adiem suas decisões de investimento, impactando nas oportunidades de novos empregos. Se a economia brasileira já vinha, nos últimos anos, apresentando níveis elevados de desemprego, a proximidade das eleições reforça e aumenta a gravidade do problema. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD – contínua) publicada pelo IBGE aponta para uma taxa de desocupação entre a população com mais de 14 anos de 12,4% entre abril e junho deste ano.

As inseguranças acerca do ambiente regulatório e das condições dadas ao capital estrangeiro somadas aos efeitos acumulados de anos de fraco desempenho da economia brasileira implicam também no adiamento das decisões de investimento de muitas empresas multinacionais. Segundo o Banco Central do Brasil, o país recebeu, no primeiro semestre de 2018, 29,878 bilhões de dólares sob a forma de Investimento Direto. Esse montante representa uma queda de 17,5% em relação ao ano anterior (US$ 36,221) e é o menor valor desde 2010.

Aumento da volatilidade da moeda estrangeira e do mercado de ações

Quanto maior a incerteza acerca do novo ocupante da cadeira presidencial e de suas ações de política econômica, mais voláteis ficam o dólar e o mercado de ações. A “cautela eleitoral” predomina no mercado financeiro, sinalizando que os investidores resistem a reações mais eufóricas no mercado de ações. Tanto as oscilações da moeda, como do mercado de ações têm um forte componente especulativo, associado a apostas acerca do vencedor da disputa eleitoral.

Ao mesmo tempo, à medida que se aproximam as eleições, a relação entre o real e dólar tende a ficar mais instável, com maior tendência à desvalorização da moeda nacional. De fevereiro a agosto, a moeda norte-americana se valorizou cerca de 21% em relação ao real. Se setores diretamente dependentes do comércio exterior (como, por exemplo, a atividade mineradora) têm motivos para comemorar, o mercado interno sobe com o encarecimento de insumos produtivos importados, comprometendo ainda mais as possibilidades de recuperação da economia nacional.

Inflação e juros

As incertezas acerca do mercado financeiro também impactam as expectativas de inflação de juros. A aceleração da inflação nas primeiras semanas de agosto nos dá sinais de que a inflação deve terminar o ano acima do esperado, devendo, portanto, estar na mira da autoridade monetária em 2019. A manutenção do nível geral de preços acima do desejado pelas autoridades monetárias pode ter impacto sobre as taxas de juros no segundo semestre de 2018 e em 2019. Além da manutenção das taxas juros em 6,5% na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o mercado já sinaliza uma alta dos contratos de juros futuros. Adicionalmente, o Banco Central aventa a possibilidade de uma elevação nas taxas de juros caso seja eleito um presidente avesso a reformas.

Precariedade das finanças públicas e gastos do governo

O desequilíbrio das contas públicas no Brasil não é novidade. Tampouco é desconhecido o “afrouxamento” fiscal em busca de apoio político no processo eleitoral. Contudo, se considerarmos a fragilidade financeira que acomete os diversos níveis de poder público nacional, a governabilidade do próximo Presidente da República estará bastante comprometida. Esta situação é agravada pela incapacidade do atual governo de conduzir um ajuste fiscal profundo e uma reforma previdenciária que assegurassem a governabilidade do sucessor.

O futuro próximo da economia brasileira é, para dizer o mínimo, preocupante. O futuro governante do país enfrentará grandes desafios, sendo a recuperação da atividade econômica o principal deles. Para isso deverá tomar medidas que impactem nos diversos setores da atividade econômica de forma abrangente e sistemática. Não há espaço para alternativas fáceis e ou soluções mágicas. Aos eleitores brasileiros, nos quais me incluo, fica a responsabilidade de escolher um líder com os atributos necessários para promover a recuperação sustentável da economia brasileira. É uma grande responsabilidade.

*Leila Rocha Pellegrino é professora do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA) da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas

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