Ecologia industrial: o ganha-ganha para as indústrias e o planeta

Ecologia industrial: o ganha-ganha para as indústrias e o planeta

Fernando Mourão*

03 de setembro de 2020 | 15h14

Fernando Mourão. Foto: Divulgação

O mundo vinha acostumado a um modelo de economia construído sobre a lógica da produção, consumo e descarte. Segundo a Organização de Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas, apesar de todos os avanços tecnológicos e aumento da produtividade dos processos nos últimos 30 anos, que contribuíram para a extração de 40% mais valor de matérias-primas, a demanda também sofreu um aumento quase três vezes maior nesse mesmo período. Significa dizer que o planeta está muito pressionado por esse modelo linear, velho conhecido, de muito tempo.

A valorização de resíduos ainda é um horizonte muito novo para o Brasil, coisa de dez anos, mas a boa notícia é que as grandes cadeias produtivas já percebem que seus resíduos têm valor no seu próprio processo de produção. Se o beneficiamento é uma atividade um pouco mais comum na indústria de plásticos (as embalagens contam com 20% de material reciclado), segmentos de siderurgia, papel e celulose começam a apostar em modelos de negócio com um ciclo de desenvolvimento positivo, que garantem competitividade, otimizem recursos, gerem novos valores e preservem o meio ambiente.

As multinacionais que operam no Brasil trouxeram seus modelos de fora e vão contribuindo para diminuir minimizar timidamente o nosso atraso neste novo modelo de negócios tema. Exemplo disso são companhias siderúrgicas que descartavam para aterros sanitários um resíduo rico em ferro que pode ser transformado em matéria-prima. Hoje, os processos de valorização e reaproveitamento permitem que se produzam briquetes (uma matéria-prima semelhante a uma bola de sinuca, com alto percentual de ferro) para que esse resíduo possa ser reutilizado como insumos até mesmo dentro da própria cadeia produtiva, temos uma tecnologia que permite a concentração magnética.

Sem dúvida, esta é uma aposta que requer inovação, investimentos altos, planejamento de longo prazo e um projeto robusto de implantação, mas fato é que a economia circular tem trazido até 60% de economia nos processos industriais de companhias que não deixam seus resíduos saírem das suas plantas. Documento editado pela Confederação Nacional das Indústrias, em 2018, traz dados de que “empresas com visão de longo prazo e com foco na inovação e na geração de valor tem um melhor desempenho econômico”. O estudo observa uma média de ganhos de 36%, além de um aumento de 47% nas receitas e margens de lucro superiores a 81%.

O programa mineiro de simbiose industrial, implementado em 2009 pela Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), é um outro ótimo exemplo prático dos benefícios da economia circular. O projeto estimula a transição do modelo linear para o circular e promove o intercâmbio de materiais de empresas âncora, antes vistos como resíduos, para servir como insumos e matérias-primas a outras indústrias ou empresas menores. Em seis anos, a valorização e o reaproveitamento dos resíduos significaram uma redução de R$ 8,7 milhões nos custos das mais de 760 empresas que aderiram ao programa. Neste período, cerca 140 mil toneladas de resíduos que seriam descartados em aterros sanitários foram recuperados e reutilizados em uma outra cadeia, contribuindo para a preservação de 200 mil toneladas de recursos naturais virgens e reaproveitamento de 13 milhões de m³ de água – o equivalente à cinco mil piscinas olímpicas. Com isso, o meio ambiente deixou de receber 90 mil toneladas de gás carbônico, o que representa mais de 552 mil árvores.

Se as gerações anteriores viviam em um mundo com recursos naturais abundantes e uma população pequena, a globalização tem tratado do reaproveitamento de uma forma mais estratégica. O ecossistema atual cobra – para o bem-estar de todos – mudanças individuais de comportamento e mentalidade e um compromisso corporativo com o crescimento sustentável.

O modelo que se apresenta torna projetos anteriormente inviáveis em soluções necessárias. Alia inovação e tecnologia a um propósito de consciência ambiental, que também gera um valor imensurável para as marcas. Para o meio ambiente, há, entre outros benefícios, perpetuidade maior dos aterros e redução na emissão de gás carbônico.

A ecologia industrial tem como lógica associar o crescimento a um modelo que promova a regeneração do capital natural e a utilização do que até então era descartado e – pior – despercebido. Afinal, resíduo tem valor.

*Fernando Mourão é diretor da Orizon Valorização de Resíduos

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