ECA 31 anos: a missão de cultivar sonhos durante  a pandemia

ECA 31 anos: a missão de cultivar sonhos durante  a pandemia

Marilusa Rossari*

12 de julho de 2021 | 07h50

FOTO: UNSPLASH

Rotinas modificadas, novas formas de relacionamento e o aumento do uso da tecnologia. Além das mudanças que o novo normal trouxe para o cotidiano das famílias, a pandemia da covid-19 influenciou os sentimentos das crianças e adolescentes, que passaram a conviver diariamente com medos, inseguranças e dúvidas com relação ao futuro. No mês que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) celebra 31 anos de existência, a maior reflexão para aqueles que trabalham com crianças e adolescentes é: como tornar  possível cultivar os sonhos durante a pandemia?

Segundo a pesquisa Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes, divulgada pelo UNICEF em junho deste ano, entre as residências com crianças ou adolescentes, 64% afirmaram que a renda diminuiu. Entre os mais empobrecidos o impacto foi ainda maior, aumentando de 69% para 80% o percentual de famílias com até um salário mínimo que revelaram que sua renda diminuiu desde o início da pandemia. Os números apontam para um aumento ainda maior das desigualdades sociais já enfrentadas e um crescimento de problemas de acesso a direitos básicos, distanciando ainda mais nossas realidades.

Todos esses números reforçam o compromisso de todos nós que atuamos diariamente na defesa dos direitos das crianças e adolescentes. E o maior símbolo desse comprometimento foi criado há mais de 30 anos, quando o ECA trouxe a proteção integral e a importância da formação de crianças e adolescentes como sujeitos de direito. A proposta é a integração com a família, sociedade e estado para que nenhum direito seja negligenciado. Anos depois de somar inúmeras conquistas, surge agora uma nova realidade.

Considerando a atual circunstância e dentro  das possibilidades, oferecer oportunidades às crianças e adolescentes é uma forma de incentivá-los a desenvolver seus anseios e projetos de vida. Neste sentido, a educação continua sendo a melhor maneira de quebrar barreiras e criar pontes entre realidades distintas. É por meio do acesso ao ensino de qualidade que essas crianças e adolescentes podem conhecer seus direitos e deveres, e criar os seus caminhos, mesmo diante de toda dificuldade.

E cabe a nós, que estamos na rotina, dentro e fora das salas de aula, nas comunidades mais vulneráveis, compreender o momento de mudanças, e oportunizar esse acesso. Afinal, garantir os direitos e a proteção é também ensinar a cultivar sonhos e projetos de vida, é reconhecer o papel fundamental de transformação da educação, chegando a lugares onde até a internet não chega, e fomentar esses sonhos em meio ao conflito da realidade, provavelmente seja nossa grande missão.

*Marilusa Rossari é doutora em educação e gerente de cuidado integral do Marista Escola Sociais

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