E tudo parou…

E tudo parou…

Luiz Rodrigues Wambier*

28 de junho de 2020 | 12h00

Luiz Rodrigues Wambier. FOTO: DIVULGAÇÃO

Aquilo que jamais se imaginava ser possível acontecer, aconteceu. O mundo reduziu seu ritmo frenético assustadoramente. Assustados, os habitantes do planeta Terra ouviram as recomendações mais sensatas, de verdadeiras autoridades, inclusive no plano sanitário, e refugiaram-se em suas casas, na medida em que isso era possível. Sendo impossível, saíam de casa, temerosos, usando máscaras, evitando contato físico com outras pessoas, mantendo cuidados que talvez nunca antes tenham tido.

O vaticínio de alguns, por muitos tido como um delírio, se fez verdade. O mundo cedeu passo diante de um vírus extremamente contagioso, em muitos casos letal e, pasmem, absolutamente desconhecido.

Foram meses de reclusão. O que mais se leu nesse período, além de informações “médicas” fornecidas por líderes políticos absolutamente despreparados para a mínima gestão de verdadeira crise, foi a singela expressão “fique em casa, se puder”, sempre acompanhada do aviso “se não puder, use máscaras”.

O encontro no boteco (boteco chique, é claro) acabou. Se não acabou, isso se deu em razão da irresponsabilidade de alguns e da indisciplina de alguns povos, como aqueles que habitam um extenso país latino-americano abundantemente banhado pelo Oceano Atlântico. Para nosso amigo acabou. Ele não entendia direito o que estava acontecendo, porque alguns diziam ser tudo muito sério, outros diziam que era só uma gripezinha. Meio desorientado, resolveu ouvir os entendidos e não voltou mais ao boteco. Soube que alguns de seu velho grupo ainda iam, até que o dono do boteco, sujeito responsável, resolveu aderir, mesmo com o risco de quebrar, e fechou o dito cujo estabelecimento.

A velha frase, que nosso personagem (e já amigo) – homem médio da classe média – usava todas as sagradas quintas-feiras em que, devidamente autorizado, participava da tal hora feliz com alguns de seus colegas de trabalho (pois é, a tal happy hour), “garçom, manda aí mais uma bem gelada”, foi suprimida do arsenal de textos frequentemente usados por ele e por muitos de nós. E no lugar dessa expressão bonitinha, que inspira bons momentos, de leve convívio, nosso homem médio da classe média, pouco versado na língua de Shakespeare, teve que aprender o que significa lockdown. Sobre o fecha ou não fecha, sobre a extensão do fechamento, sobre os discursos e mais discursos de muitos tagarelas despreparados que nessa quadra exercem função pública, passamos a conversar com os amigos. Só que de outro jeito, sem boteco, sem ajuntamento naquele balcão em que fica a garrafa térmica no cantinho destinado ao sagrado cafezinho, lá no escritório.

Agora o papo, sério ou descontraído, é pelo facetime ou pelo zoom ou pelo gotomeeting. O trabalho? Pois é! Tudo ficou difícil e complicado. Bom, talvez nem tanto assim, apenas diferente. Agora seus escritos e relatórios são feitos em casa, sim, isso mesmo, no meio daquela deliciosa confusão e brincadeiras de seus filhos. É o tal do homeoffice, quer dizer, um certo escritório doméstico. Laptop a postos e vamos lá. Puxa vida, pensava ele, acho que vou ter mesmo que desenferrujar meus poucos conhecimentos da língua inglesa ou sequer sobreviverei ao tal do Covid-19, nome técnico do bichinho assassino que começou matando um mundaréu de gente lá na China e se espalhou pelo mundo, fazendo tristes estragos na região norte da Itália, em boa parte da Espanha, na França, em toda a Europa, em todo o mundo enfim, salvo alguns lugares em que o povo levou a sério as recomendações de também sérias lideranças como a Alemanha e a Nova Zelândia para ficar em dois bons exemplos.

O trabalho em casa começou desarranjado, com tudo improvisado, desde a mesa até a cadeira, que emprestou da mesa da sala de jantar, assim como também o fez sua esposa. Mas deu certo, no fim das contas. A garotada entendeu que papai e mamãe não estavam em férias, que havia um grande risco em sair do apartamento e que havia momentos em que deviam baixar o tom de voz para que ambos pudessem trabalhar, cada qual de um lado daquela mesinha que antes estava jogada num canto da pequena varanda.

O pequeno Joaquim perguntou um dia ao pai a razão pela qual o pai do João não podia trabalhar em casa. É que o João contou a ele que seu pai não tinha como ficar em casa e estava saindo todo dia, embora o fizesse com todos os cuidados. O João até contou para Joaquim que seu pai fazia uma coisa meio estranha, ao chegar: tirava toda a roupa, corria para o banho e colocava toda a roupa usada naquele dia para lavar. Todo Santo dia.  A dúvida do pequeno era muito simples: será que o pai do João não acredita na possível gravidade da doença causada por esse vírus malvado? Ou será que o pai do João é irresponsável? Do seu jeito de pensar, era isso o que Joaquim pensava. A explicação dada pelo casal médio da classe média foi compreendida rapidamente pelo Joaquim e por sua irmãzinha Maria Clara: o pai do João tinha um trabalho que não o permitia fazer o tal do homeoffice. Enfermeiro, tinha que trabalhar e, nossa, que assustador, justamente no atendimento aos doentes vitimados pelo temido vírus.

Os pequenos tiveram que se acostumar com as aulas on-line. Aliás, não foram só os pequenos, mas também as escolas, os professores, as professoras, todos tiveram que se adaptar. Havia um problema, todavia: com pai e mãe cada qual usando seu laptop para trabalhar, como os dois frequentariam as aulas nesse novo método? Mamãe deu um jeito: comprou um computador grande para os dois pequenos e o instalou num dos outros cantos da mesa. Parece, disse o irmão para a irmã, que ela comprou “em vezes”, mas ambos acharam muito legal e ficaram muito gratos. Sorte que um deles estudava no período da manhã e o outro no da tarde. Assim, um computador foi o suficiente para os dois.

Mas havia problemas: a aula desaparecia da tela com muita frequência. A professora disse, um dia, que era o sistema que caía. Em casa tudo estava bem, porque o wi-fi funcionava bem e o papai disse que tinha aumentado o “pacote de dados”. Eles não entenderam bem por que os pacotes que viam chegar em casa (e que ajudavam a higienizar, verbo novo no dia a dia de cada um dos pequenos) não continham dados, mas frutas, verduras, pão e outras coisas, como tubos de pastas de dente, remédios etc.

Ah! Também havia caixas que às vezes chegavam. Eram algumas garrafas de vinho que papai e mamãe bebiam às sextas à noite e aos sábados, na hora do almoço. Era bacana, pensavam (e conversavam entre si os pequenos), porque nesses dias os pais ficavam descontraídos e falavam de coisas legais, lembranças, planos para o futuro etc.

Certa sexta-feira, enquanto nosso casal médio de classe média bebia um belo vinho da Serra Gaúcha (muito elogiado, por sinal), os pequenos fizeram uma pergunta interessante: por que os pais trabalhavam em casa? Isso ajudava a curar pessoas? Era só para que a família não adoecesse?

Mamãe falou antes, enquanto papai servia para ela a segunda taça de vinho, e explicou que além da proteção da família, isso ajudava a reduzir o fluxo de pessoas nas ruas, nos locais de trabalho, no transporte coletivo etc, e que isso beneficiava aqueles que, como o pai do João, não podiam trabalhar em casa. Eles entenderam direitinho: quanto menos gente batendo pernas pelas ruas, menor a possibilidade de o malvado vírus se espalhar e atingir outras pessoas, especialmente aquelas que não tinham outro jeito, senão sair para trabalhar.  Agora tudo fazia sentido, embora eles não conseguissem entender os comentários dos pais sobre outra onda, a da desinformação. Pensavam eles (e confabulavam a respeito, um com o outro): se é assim, por que tem tanta gente nas ruas? Se é assim que se deve fazer para ajudar a todos, porque há essa confusão de notícias em que um cara manda sair de casa e o outro manda ficar em casa?

Numa daquelas sextas (ou terá sido num sábado, quando havia um churrasquinho ali na varanda?), os pais comentaram que estavam tristes porque um dos amigos do nosso personagem, colega de happy hour, havia testado positivo. Ana Clara, curiosa, logo disparou: o que quer dizer isso? E a mamãe novamente explicou: essa pessoa estava contaminada com o vírus. Embora estivesse distraída, jogando dominó com o irmão, a menina ouviu o pai dizer alguma coisa “tipo assim”: “uma pena, mas ele sempre foi medido a valentão, até me convidou para ir num boteco que ele disse que estaria aberto; acho que foi numa dessas saidinhas que ele se contaminou”.

E a vida seguia, com essas novas dificuldades, que vieram se somar a muitas das velhas dificuldades, como a financeira, a dos relacionamentos desgastados, a dos propósitos nunca perseguidos, a dos planos frustrados, a dos arrependimentos pelas escolhas feitas.

E se, com isso tudo, pensou nosso amigo, o arrependimento for muito grande?

*Luiz Rodrigues Wambier é doutor em Direito pela PUC-SP. Professor no programa de mestrado e doutorado em Direito do Instituto Brasiliense de Direito Público – IDP. Sócio do Wambier, Yamasaki, Bevervanço & Lobo Advogados

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