É tri! Mas não há o que comemorar

É tri! Mas não há o que comemorar

José Pena*

04 de maio de 2019 | 06h00

José Pena. FOTO: DIVULGAÇÃO

Ao longo dos últimos vários meses, a existência de um quadro de elevada incerteza, tanto por razões domésticas como externas, tem mantido empresas e famílias numa posição de maior cautela com relação às suas decisões de investimento e consumo, o que juntamente com uma expansão da demanda externa cada vez menor, condena o país a seguir com taxas bastante modestas de crescimento econômico.

Se desde meados do segundo semestre de 2018 já tínhamos uma visão menos positiva que a mediana do mercado com relação às perspectivas de crescimento do PIB de 2019, as primeiras semanas deste ano indicaram que nem mesmo aquela projeção de 2,2% seria exequível, o que nos levou a uma primeira revisão para 1,8% em fevereiro.

Ocorre, porém, que desde então o cenário doméstico mostrou uma deterioração adicional importante, sobretudo no que diz respeito às perspectivas de avanço da reforma da previdência, que deve demorar mais e produzir um ganho fiscal inferior ao inicialmente esperado.

Como resultado, o grau de confiança dos agentes econômicos deverá seguir deprimido até que uma maior clareza sobre o conteúdo a ser aprovado pelo Congresso emerja, o que não deverá ocorrer antes de meados do ano, na melhor das hipóteses. Somando-se a esse cenário um início de ano bastante decepcionante para os principais segmentos econômicos, torna-se inevitável fazer nova revisão para baixo da projeção de expansão do PIB deste ano.

Desta vez, contudo, o movimento é ainda maior que aquele do início do ano, levando-nos para um crescimento esperado apenas marginalmente superior a 1%, que caso se confirme, marcaria o terceiro ano consecutivo com a taxa de expansão da economia em 1,1%. Tal desempenho por si só já seria bastante decepcionante, mas quando se considera que a população registra um crescimento médio anual ao redor de 0,8%, o quadro é ainda pior, à medida que mostra um crescimento do PIB per capita de meros 0,3% ao ano no período 2017-19.

Diante de uma expansão tão modesta, não surpreende que de um lado o índice de desemprego se mantenha em patamares tão elevados e, de outro, o grau de utilização da capacidade instalada da indústria exiba níveis muito inferiores à média histórica. Em seus patamares atuais, esses dois importantes indicadores de ociosidade da economia sugerem que não haverá pressão inflacionária relevante, ao menos com origem na demanda, num horizonte de curto e médio prazo. Muito pelo contrário.

Desenha-se, porém, um risco inflacionário para os próximos meses: o agravamento de uma crise sanitária de grandes proporções na China envolvendo seu rebanho suíno, com projeções dando conta de uma mortalidade de pelo menos 15% do plantel.

Como a demanda chinesa responde por cerca de 50% de toda a carne suína consumida no planeta, tamanha restrição da oferta tende a afetar de forma significativa os preços internacionais não apenas desse produto em particular, mas potencialmente de toda a cadeia de proteína animal. Vale lembrar que no passado, outros episódios internacionais de restrição de oferta, ainda que de menor relevância, foram capazes de produzir um forte impacto nos preços do complexo de carnes no Brasil por um período relativamente longo.

Assim, de um lado o Copom se defronta com uma fraqueza da demanda doméstica que conspira para uma variação do IPCA abaixo do centro da meta de inflação, o que poderia abrir espaço para a retomada dos cortes da taxa básica. De outro lado, porém, esse potencial choque de oferta no mercado de carnes pode mitigar em grande medida o efeito desinflacionário de um hiato negativo do PIB (ociosidade) que deve se manter por mais tempo.

Adicionalmente, as incertezas quanto ao progresso da agenda de reformas e à evolução da economia global também podem reforçar a postura mais cautelosa adotada pela autoridade monetária no passado recente. O provável resultante dessas forças até certo ponto antagônicas é a manutenção da taxa Selic por um período bastante prolongado.

*José Pena é economista-chefe da Porto Seguro Investimentos

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