E se um dia tudo parasse?

E se um dia tudo parasse?

Luiz Rodrigues Wambier*

10 de junho de 2020 | 06h00

Luiz Rodrigues Wambier. FOTO: DIVULGAÇÃO

A vida era agitada, e assim o era tanto no plano pessoal quanto no profissional, para uns e para outros, cada qual ao seu modo e dentro de sua perspectiva de vida. Essa agitação toda fazia com que não nos encontrássemos com quem gostaríamos de nos encontrar. Mas não só, também aqueles indesejados, como aquele sujeito que insiste em nos fitar quando olhamos um espelho. Sim, esse cara também estava fora de nosso roteiro de encontros. Assim como ele, também não nos encontrávamos com nossa história, com nosso passado, nossas angústias, nossos desejos, projetos etc. E que coisa! Muitas vezes não nos encontrávamos sequer com nosso presente.

Frequentemente nos queixávamos dessa agitação toda que, por outro lado, parecia estar incorporada em nossas vidas como se em nossas entranhas tivesse sido inoculada, definitivamente.

Mal acordávamos e já íamos checar as mensagens que familiares, amigos e até parceiros de negócios nos haviam mandado depois de nos desligarmos do capítulo derradeiro do seriado a que também havíamos acostumado. Essa era a vida média do homem médio de classe média.

Acordávamos e fazíamos a nossa rapidíssima higiene pessoal, depois dávamos aquela engolida rápida naquela que deveria ser, segundo alguns entendedores, a principal refeição do dia e, um beijinho aqui, um “boa sorte” lá, uma piscada acolá, peguei isso, peguei aquilo, o celular, a pasta, o carregador e íamos para o trabalho. Opa! Às vezes, na corrida louca contra o tempo que o inclemente relógio (digital, no celular, claro!) fazia questão de registrar. Esquecíamos alguma coisa e, caramba, voltar podia significar chegar atrasado ao primeiro compromisso profissional do dia. Mas sempre dava certo, de um jeito ou de outro.

Aquele velho e bom hábito, de ler um bom jornal local e outro de alcance nacional, logo cedo, antes de ir para o trabalho, já havia ido embora, há muito tempo. Nestes últimos tempos bastava uma passada de olhos nas manchetes dos blogs e de algum jornal em sua edição digital e, pronto, estávamos bem informados para enfrentar o dia que nos esperava. Era uma situação, mal comparando, muito parecida com a da cultura de “orelha” de livro. Mal líamos e já nos achávamos super entendidos, prontos para tagarelar a respeito em qualquer ambiente, com aquele ar de intelectual de botequim de quinta categoria.

Aí tínhamos a encrenca do trânsito e essa dificuldade não se via apenas nas metrópoles. Cidades de porte médio e até mesmo as menores também enfrentavam o mesmo drama diário. Engarrafamentos, trânsito lento, gente nervosa gesticulando dentro do carro, como se fosse possível, com absoluta segurança e ao mesmo tempo, comer um sanduíche, falar ao celular, discutindo alguma estratégia de trabalho e dirigir. Sem contar aquele garoto cuja destreza (ou coragem, ou irresponsabilidade) sempre nos espantou: na mesma hora em que a gente estava naquela avenida que sequer sabíamos se teria sido, ou não, uma alameda, ele estava sempre a caminho do trabalho pilotando um skate. Sujeito corajoso, pensávamos, pois nossas ruas sequer tinham pistas apropriadas para esse e outros meios de transporte que não o automotor. Mas ele estava lá, com seus fones de ouvido, como se o perigoso mundo ao seu lado sequer existisse. Conservadores nos costumes (relativos à locomoção para o trabalho, ao menos) ou não, lá íamos nós, feito manada.

Ufa! E não é que dava tempo?… Apesar daquele carro quebrado que ninguém tirava do meio da rua, conseguíamos chegar ao nosso local de trabalho.

Lá, sempre havia os inevitáveis encontros com o chefe mal-humorado, com aquele colega que sempre nos bajulou, mas que, às nossas costas, falava horrores a respeito de nossa conduta pessoal e profissional (e a gente lembra de um sábio e velho conselho de nossos irmãos saxões: watch your back), sem que sequer conhecesse qualquer delas em detalhes. E também nos encontrávamos com aqueles que nos eram completamente indiferentes e vice-versa. Estes, sempre foram aqueles que nos dirigiam um desinteressante “olá”. Credo!

Na hora de sair para o almoço, sempre havia uma baita correria para pegar o elevador antes dos outros! E nossa! Está muito cheio, mas cabe mais um. Vamos lá, tentar apertar o botão do térreo, sem que a gente se dê conta de que muitas outras pessoas já fizeram a mesma coisa. Mas insistíamos em esticar o braço e alongar o dedo indicador, desde lá do fundo do elevador, para onde fomos empurrados assim que entramos no dito cujo, até alcançar o já aludido botão.

Havia também uma coisa cada vez mais incomum: boa parte de nossos coleguinhas de elevador iam para suas casas. Cada vez menos gente, ao menos nas cidades médias grandes. A maioria de nós ia até um daqueles restaurantes do shopping mais próximo, porque numa dessas a gente aproveitava e comprava o presente do amigo para cuja festa de aniversário havíamos sido convidados. Um vinho? Será? Argentino ou italiano?

Fim da tarde havia, quase todo dia, quem nos fizesse aquele despretensioso convite para uma gelada antes de ir embora. Havia quem acompanhasse o solitário autor do convite. A maior parte da turma, todavia, seguia para casa, sabendo que teria que enfrentar o trânsito e, depois, curtir aquela vida que se repetia todo dia. Havia quem achasse essa vida caseira, com trabalhos domésticos, auxílio aos filhos nas lições escolares etc, uma enorme chatice. Aliás, esse tema era frequente nos bate-papos nos botecos e nos longos intervalos para aquele café fraco e frio que ficava lá na garrafa térmica, no esperando e, quem sabe, cheio de vontade de ouvir as fofocas da tarde.

À noite, em casa, esse sujeito médio da classe média seguia o ritual comum a todos os seus semelhantes: um lanche com muitas calorias, acompanhado de muito silêncio, de algumas encrencas e muito raramente de sinceras e verdadeiras trocas de informações e de experiências. Vez ou outra havia algum momento de intimidade. Só vez ou outra. No mais das vezes era aquela vida mecânica, repetitiva, enfadonha. Mas éramos muito felizes assim. Ou achávamos que éramos. Ou será que nem mesmo achávamos isso?

Certo dia, nosso homem médio da classe média resolveu aceitar o convite do colega solitário e foi para o boteco, para o tal horário alegre (seria isso o happy hour?).

Sabem vocês, que hoje passam os olhos neste texto, que o cara gostou muito da prosa? Era uma conversa animada, sobre temas descompromissados, mas sempre muito interessantes: futebol, fórmula 1, política, fofocas e muita descontração.

Nosso personagem se acostumou. Combinou com quem nele mandava e obteve a “permissão” para ir a esses encontros duas vezes por semana. Isso virou um hábito, dos bons.

Em certas ocasiões havia também papo sério. Vida, carreira, pais velhos, investimentos, futuro etc. Tudo regado a uma boa cerveja ou, às vezes, a um interessante vinho, sem que, todavia, qualquer dos companheiros de boteco se arriscasse a dizer aquelas coisas chiques que só os bons degustadores sabem dizer. Ninguém se arriscava a dizer que se tratava de vinho com taninos intensos, bom de corpo, que lembrava o alvorecer do outono ou que tinha final elegante. Essas coisas eles deixavam para os entendidos ou para os metidos a entendedores de vinho.

Certo dia o papo ficou mais sério. Um dos colegas veio com uma conversa esquisita, cheia de cogitações que puseram medo em todos os que ali estavam bebendo e conversando, às vezes na companhia de uma boa porção de queijo brie com geleia de pimenta. Ah! Havia também os que preferiam porções de pastel, de queijo, carne e palmito. Tinha papo e pratos para todos os gostos.

Mas a verdade é que o colega da conversa esquisita incomodou a todos com suas histórias de terror. Dizia ele: “e se a gente fosse, nós, nosso bairro, nossa empresa, nossa cidade, nosso Estado, nosso país e o mundo todo, por um vírus invisível, capaz de matar muita gente e de botar medo em mais de meio mundo?”.

Alguns perguntavam de que filme de ficção aquele sujeito havia retirado aquela ideia maluca.

Mas ele continuava: “imaginem vocês que surgisse mesmo um vírus e que esse vírus contaminasse muita gente, no mundo todo, matando velhos e jovens, sadios e doentes, enchendo os hospitais com gente sem fôlego?”.

Ninguém gostava daquela conversa. Um mudava para um tema mais tranquilo: futebol. Outro dizia ter um compromisso na casa do sogro de seu irmão e ia embora, sem antes deixar sua parte na conta sobre a mesa. Outro ainda lembrava que havia prometido ao filho que estudaria história do Brasil com ele, exatamente nessa noite, para prepará-lo para o exame que ainda estava distante.

Mas o cara insistia, dizendo para os que ainda resistiam à vontade de ir embora e deixar aquele agourento falando sozinho: “vocês já pensaram se isso acontecesse e a gente tivesse que se proteger e proteger aos nossos ficando em casa, sem sair, durante meses?”. Depois dessa frase, mais um deixou sua parte na despesa e justificou sua saída dizendo que o estacionamento onde havia deixado seu carro fecharia em cinco minutos.

Encontro após encontro, naquelas terças e quintas em que o grupo de colegas de trabalho ia até o boteco (boteco chique, diga-se de passagem, porque tinha belíssima carta de vinhos), o fulano já apelidado de urubu pelos demais insistia com a conversa sobre esse cenário catastrófico que imaginava: um vírus assolando a humanidade; muita gente ficando muito doente; muita gente não resistindo e morrendo em razão das complicações causadas pelo tal vírus; as pessoas sendo aconselhadas pelos governantes responsáveis a ficarem em casa e a evitarem ir às ruas; muita gente levando a sério essas recomendações e ficando mesmo em casa, por medo do desconhecido ou por medo da velha conhecida, a tal da morte que a todos um dia levará.

Mas ele um dia se superou. Em seu delírio sobre o tal vírus, que só existia em sua imaginação aparentemente doentia, ele saiu com essa: “vocês verão que todo mundo terá que usar um tipo de proteção no rosto, como se fosse uma máscara, escondendo boca e nariz, para evitar a disseminação do vírus”.

O resultado era previsível: daquele dia em diante todo mundo ia embora mais cedo, evitando ir ao boteco (chique, repito) com aquele sujeito mal-humorado que insistia em contar histórias de um mundo que nunca existiria. E todos iam mais cedo para casa, para evitar o contágio desse medo que parecia aterrorizar o colega.

Mas, na dura, todos pensavam, toda noite, depois de deitados: e se um dia tudo parasse?

*Luiz Rodrigues Wambier é doutor em Direito pela PUC-SP. Professor no programa de mestrado e doutorado em Direito do Instituto Brasiliense de Direito Público – IDP. Sócio do Wambier, Yamasaki, Bevervanço & Lobo Advogados

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