É saudade o nome disso

É saudade o nome disso

Izabella de Macedo*

10 de agosto de 2020 | 12h00

Izabella de Macedo. Foto: Divulgação

Pessoas intensas me encantam. Elas são mais charmosas. Talvez a monotonia que guiou a construção do meu perfil de adulta comportada tenha me feito um pouco carente de intensidade e eu tomei como suficiente compartilhar o excesso de outras pessoas.

Eu tenho uma amiga dona de uma gargalhada que enche uma festa de 50 pessoas e que a define como a pessoa mais autêntica que conheço. E ela não economiza o seu riso largo e robusto. O que faz dela uma das melhores companhias para uma noitada.

Tenho outra amiga que faz absolutamente tudo o que tem vontade e só depois ela olha em volta para saber o que sobrou dos outros. Dos homens que estiveram com ela, quase não sobrou nada. Por isso é tão bom sempre tê-la por perto.

Tenho uma amiga que nunca se apegou a coisa nenhuma (e a quase ninguém) e que tomou o mundo todo como se fosse seu lugar e que some sem deixar vestígio e depois diz que está morando em uma cidadezinha da Inglaterra e que não volta nunca mais. Sinto falta dela o tempo todo.

Outra amiga decidiu quando ainda era criança que seria bailarina e que com menos de 15 anos morava sozinha em uma cidade que não conhecia e eu acho que fui sua primeira amiga nesse lugar novo e que talvez por isso eu não perdia nenhum de seus espetáculos. Ela fala com gestos e faz da dança a sua
língua. Ela me ensinou o que é sensibilidade.

Uma de minhas amigas fala muito palavrão e xinga todo mundo que tem vontade e não leva desaforo para casa. Acho que ela nunca engoliu a seco uma só palavra. Ela não se importa com quem não gosta dela e eu acho que essa é a sua melhor qualidade. Aprendi com ela a deixar de me importar com
quem não me importa de verdade.

Eu tenho uma amiga que desde criança tem como marca a sua originalidade. Ela também ri alto. Ela fala muita asneira. Vive trocando os ditados. E ela tem sacadas geniais. Ela faz todo mundo rir de tudo que ela fala. Sem querer ser, ela é a pessoa mais autêntica e engraçada que conheço.

A lista é longa, mas as páginas são limitadas. Tem pessoas boas demais que ocupam meu coração e que fizeram de mim uma chata rodeada de pessoas legais. Eu sempre fui óbvia demais. E sem talentos sociais.

Pois é. Estou há 5 meses em distanciamento social. E nesse tempo percebi que as minhas pessoas preferidas são como avalanches que impactaram em algum momento meu coração.

Acho que nunca as amei tanto como agora. Talvez seja só porque fiz 30 anos e estou meio nostálgica. Ou, como diria meu marido, talvez seja saudade o nome disso.

*Izabella de Macedo, advogada.

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