É São Paulo uma cidade inteligente?

É São Paulo uma cidade inteligente?

Andréa de Oliveira Tourinho e Fernando G. Vázquez Ramos*

25 de janeiro de 2021 | 08h30

Andréa de Oliveira Tourinho e Fernando G. Vázquez Ramos. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

O argumento básico que define o conceito de “cidade inteligente” se sustenta na utilização de tecnologia e inovação para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Mas, o segredo das smart cities é o acúmulo de dados. Qualquer um que tenha visto O Dilema das Redes, documentário dirigido por Jeff Orlowski, pode facilmente perceber que a utilização de tecnologias (e a concentração de dados) não é, necessariamente, um caminho para a melhorar a qualidade de vida das pessoas. Os defensores do conceito insistem, contudo, em que os fatores fundamentais, além da tecnologia (que é central) são: proteção do meio ambiente, uso sustentável e economia de recursos, mobilidade (especialmente a não poluente), pessoas (atividade, sinergia), energia (em geral, limpa) e serviços que possam ajudar ao cidadão no seu dia a dia. Para que tudo isso funcione, é necessário que algum ente centralizador, normalmente vinculado ao governo municipal, colete dados e seja capaz de devolver soluções rápidas para os problemas detectados pelos dados. A cidade inteligente seria assim uma política pública macro, atrelada à melhoria da qualidade da vida urbana, norteada pela tecnologia da informação e da comunicação (ICT, na sigla em inglês), pensada como substrato “inteligente” da cidade. Se estas são as premissas, seria possível afirmar que São Paulo é uma cidade inteligente? Em realidade, não.

São Paulo, como a totalidade das cidades da América Latina e dos chamados países em desenvolvimento (seja lá o que isso possa significar hoje), não tem condições sociais, e muito menos tecnológicas, para poder atuar de forma eficiente no mundo da ICT (que é um mundo idealizado por europeus, nórdicos principalmente). Mas, no Hemisfério Sul em geral, e em São Paulo em particular, os problemas urbanos são muito mais graves que os que acontecem nos países que se debruçam sobre o Mar Báltico. Em São Paulo, vão do saneamento básico (mais de 35% do esgoto não tem tratamento, uma afronta ao meio ambiente) ao descaso com a população em situação de rua (mais de 25 mil cidadão estão hoje nessa situação e o governo municipal não consegue emplacar políticas públicas para erradicar o problema), da falta de perspectiva para os jovens (30% dos jovens entre 15 e 10 anos estão desempregados) aos impactos da vulnerabilidade social (étnica, de gênero, de idade ou de orientação sexual), que afetam a mobilidade, a saúde e a cultura e se reconhecem no território urbano.

Como se pode falar, nesse panorama, de qualidade de vida urbana em São Paulo? A recente eliminação do subsídio de gratuidade para o uso de transporte público por pessoas entre 60 e 64 anos é um exemplo do descaso com a população vulnerável e com a mobilidade, mas sobretudo com a qualidade de vida urbana. Uma cidade inteligente faria isso?

A situação cultural também é precária, não só desde o ponto de vista da educação, sucateada desde os níveis mais baixos até os universitários, mas também da consciência histórica, da memória e do patrimônio. É sempre curioso notar que os aspectos culturais são relegados a um segundo plano se o tema é qualidade de vida ou cidades inteligentes. Quando não é assim, em realidade do que se fala não é de cultura, mas de lazer, de espetáculo. Não comparece normalmente no conceito de “inteligência” o conceito de “cultura”. Pareceria ser que a qualidade de vida está relacionada com o fluxo de atividades (mobilidade, mas também espetáculo) e com o ambiente (em relação à poluição ou ao saneamento, por exemplo), mas não com a percepção de pertencimento a uma coletividade historicamente constituída.

Estudos sobre as relações entre patrimônio cultural, arquitetura e cidade, que poderiam estar ligados a um entendimento de um ambiente socialmente enriquecedor, identitário, considerando que o patrimônio é um dos vetores fundamentais de memória na contemporaneidade, têm pouco, ou nenhum, impacto na construção do entendimento da cidade como inteligente. O que é estranho, uma vez que a relação entre memória e território contribui de forma evidente para a qualidade de vida urbana, entre outras coisas porque dá significado ao ambiente construído. Mas, a preservação do patrimônio cultural constitui um campo de conflitos e disputas, materiais e simbólicas, especialmente sensível por se tratar de uma construção fundamentada na atribuição de valores. E os diferentes atores sociais, movidos por interesses particulares, dão diferente peso a esses valores. Em alguns casos, não dão valor algum, ou é negativo. A percepção e o entendimento da construção da cultura material (e da imaterial também), a construção da memória, impacta a produção do espaço urbano, que num movimento dialético também a impacta, pois é na tensão entre o espaço socialmente percebido e as representações espaciais, políticas, culturais, identitárias, legais (incluindo as categorias da preservação) que se constroem as sociabilidades no território e sobre a qual se reconhecem os diferentes grupos sociais que constituem a cidade.

Sobretudo na última década, assistimos a uma alteração das regras do jogo político e social, que hoje permeia todo o campo de disputas no âmbito do patrimônio cultural, pois as atribuições de valor patrimonial, inclusive a identificação dos objetos ou atividades que possam vira a ter esse valor, se deslocou do campo oficial (as distintas instâncias de governo, municipal, estadual ou federal, e de seus quadros técnicos e políticos) para grupos da sociedade civil organizada. Assim, parece hoje necessário incorporar às representações urbanas da preservação a visão desses grupos. Não só como um fator de complementação do enfoque da visão dos técnicos dos órgãos de patrimônio e de desenvolvimento urbano, mas, sobretudo, como uma forma de ampliar e aprofundar o debate sobre o significado do patrimônio cultural na vida cotidiana dos cidadãos. É esse cotidiano que deve ser repensado quando falamos de qualidade de vida. Seria mais uma inteligência emocional da cidade que uma inteligência informacional. A finalidade dos dados não pode ser só operacional, dirigida para melhorar funções de mobilidade populacional ou detecção de ilhas de calor (aspectos importantes também da vida urbana), mas não podem ser centrais na construção do território urbano que precisa de um sentido histórico para se conservar integro e com um significado relevante para a população.

Vários exemplos de iniciativas públicas do governo municipal e do estadual demostram a falta de interesse na proteção do patrimônio cultural e do ambiental, destruindo o espaço urbano e piorando as condições de vida urbana, de direito à memória e ao entendimento do significado da cidade como construção social. Exemplos como a reforma do Vale do Anhangabaú, transformado num deserto de concreto destinado a espetáculos de massa (projetado por um nórdico que possivelmente tem dificuldades em entender os trópicos), ou o descaso com o Complexo Esportivo Vaz Guimarães (conhecido como Ginásio do Ibirapuera), que a partir das propostas de um Relatório de Modelagem Econômico-Financeira, resultou ser mais “rentável” como área para um shopping-center que mantendo seu uso tradicional. Se perdem, nesses exemplos, as qualidades de identidade cultural, social e ambiental, que dão carácter ao lugar (não ao espaço do espetáculo ou dos negócios). No centro, a destruição da massa arbórea do projeto da arquiteta e paisagista Rosa Kliass; no Ibirapuera, o ataque à tradição da Arquitetura Moderna paulista, muito bem representada pela obra de Ícaro de Castro Melo (o arquiteto projetista do ginásio e do complexo).

Para a situação complexa e preocupante de cidades como São Paulo, pensar no desenvolvimento de uma política macro, como a das cidades inteligentes, não passa de uma miragem. Um desejo de modernidade ordeira e limpa que reconhece no espaço urbano um lugar para a vida urbana vivida com dignidade, que em definitiva é o que chamamos de qualidade de vida. Mas, a quantificação dos problemas (e sua análise informacional), como aponta o conceito smart cities, não é a melhor solução dos problemas sociais (vulnerabilidade) ou culturais (patrimônio), encarados por cidades como São Paulo, pois o que interessa nesse enfrentamento não é um conhecimento operativo, mas histórico (político e social). A atividade histórica, o conhecimento da história, tem que ser indiferente às ações positivas, tem que ser de crítica da ideologia totalizadora que desconhece a fragmentação urbana (não só territorial, mas social). Como já falou alguma vez um historiador italiano, na história não existem soluções, mas com ela podemos sempre acentuar as contradições e promover o choque frontal de posições, não com a finalidade de resolver, mas com a de promover uma mudança radical das estruturas socioespaciais da cidade. Não temos como antecipar uma cidade para uma sociedade equilibrada e libertária, socialmente justa (que provavelmente nunca chegará), mas podemos manter o sentido crítico de nossas visões de cidade evitando a miragem mágica da tecnologia e da comunicação, apostando nossas cartas na crítica e na política.

*Andréa de Oliveira Tourinho e Fernando G. Vázquez Ramos são do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Judas Tadeu

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoSão Paulo [cidade SP]

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.