É preciso separar o joio do trigo

É preciso separar o joio do trigo

Sylvio Lazzarini e Nabil Sahyoun*

28 de fevereiro de 2021 | 09h00

Sylvio Lazzarini e Nabil Sahyoun. FOTOS: DIVULGAÇÃO

O agravamento da crise da saúde pública gerada pela segunda onda da pandemia de Covid-19 levou governos do mundo todo a ampliarem as restrições de circulação das pessoas e do funcionamento do comércio em geral. No Brasil não tem sido diferente e quase todos os estados anunciaram regras de endurecimento de circulação para a população e de distanciamento social.

O governo paulista reviu, nesta semana,  o Plano São Paulo e a Grande São Paulo regrediu à fase laranja, que veta o funcionamento de bares e permite que os restaurantes, shoppings centers e o comércio não essencial operem até as 20h. São medidas compreensíveis no cenário atual, mas, sem a menor dúvida, servem também para agravar ainda mais a situação extremamente difícil por que passam os setores do varejo e o de serviços.

A restrição do horário de funcionamento é muito prejudicial à retomada da atividade econômica, além atingir ainda mais setores que já vem pagando um alto preço desde o início da pandemia. A demanda está comprometida. Não há mais o auxílio emergencial e o desemprego, em nível recorde, tende a aumentar. Além disso, os estabelecimentos enfrentam enormes dificuldades financeiras e não têm mais a possibilidade de redução de jornadas de trabalho.

Um outro exemplo desse impacto é a queda prevista de quase 40% no faturamento do setor de foodservice no primeiro bimestre de 2021 em relação ao mesmo período do ano anterior. Menos renda e menos arrecadação somadas resultam em mais desemprego. Sem recuperação da atividade, o desemprego tenderá a aumentar significativamente neste primeiro semestre.

Dados divulgados pela Alshop (Associação dos Lojistas em Shoppings Centers) demonstram que mais de 150 mil trabalhadores, somente no Estado de São Paulo, perderam seus empregos em 2020. Por seu turno, dados do Sindresbar (Sindicatos dos bares e restaurantes) atestam que, antes da pandemia, havia cerca de 150 mil restaurantes, bares e similares também no Estado e cerca de um terço já fechou suas portas, cortando mais de 180 mil vagas de emprego nesses estabelecimentos.

Outro ponto que merece reflexão é até que ponto medidas restritivas severas significam queda no número de pessoas afetadas pela pandemia? Um exemplo: o lockdown aplicado no Reino Unido, que manteve quase tudo fechado por semanas. O país ocupa o desastroso quarto lugar entre os países com maior número de vítimas por Covid-19 no mundo. Já o Japão, que preferiu nunca aplicar quarentenas e nem fechar o comércio, teve, até o dia 24 de fevereiro último, tão somente 60,7 óbitos por milhão de pessoas, enquanto o Reino Unido, no mesmo período, registrou o total de 1818,2 óbitos por milhão, ou seja, 30 vezes mais. No lado britânico, hábitos alimentares, alta obesidade e índice alto da população diabética podem explicar estas diferenças.

Entendemos que só há uma saída para o país sair dessa crise terrível que é vacinar toda a população o mais rapidamente possível. O governo federal negligenciou o assunto e o país ainda sofre para conseguir adquirir vacinas seja de que laboratório for. Hoje, 9 em cada 10 vacinas aplicadas no Brasil são do Instituto Butantã, o que demonstra o descaso e a incompetência do governo federal no combate à pandemia. Somente 2,9% da população brasileira foi vacinada até agora; enquanto que nos EUA já se vacinaram 18% e a campanha de vacinação segue em ritmo acelerado por lá. Com isto, já se registra decréscimo no número de internações em todos os estados norte-americanos.

É preciso vacinar; é preciso prevenir, seguir os protocolos de forma rigorosa, para voltarmos a poder sonhar com uma vida mais livre. O impacto no ânimo das pessoas se reflete em todas as dimensões da vida, inclusive na econômica. A economista Marina Gontijo, diretora da Oliver Wyman, comandou uma pesquisa em dez países sobre o sentimento do consumidor na pandemia. Segundo ela, “com um alto índice de informalidade, os brasileiros estão entre os que mais sofreram. Muitos viram sua renda cair e tiveram de focar nas necessidades básicas, fazendo cortes de despesas, em um movimento mais severo do que nos outros nove países pesquisados”.

Os empresários de restaurantes, bares e shoppings centers responsáveis, que vêm seguindo à risca os protocolos, garantindo a saúde de seus clientes e funcionários, esperam que a restrição de funcionamento após as 20h seja revista, para que o setor não veja agravadas as dificuldades de sobrevivência. Esses empresários baseiam seu trabalho no trinômio saúde, emprego e renda.

*Nabil Sahyoun é presidente da Alshop – Associação de Lojistas de Shoppings

*Sylvio Lazzarini é vice-presidente do Sindresbar – Sindicatos de Restaurantes e Bares de São Paulo

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