É preciso fazer mais pela transformação digital da medicina diagnóstica

É preciso fazer mais pela transformação digital da medicina diagnóstica

José Leovigildo de Melo Coelho Filho*

01 de novembro de 2020 | 04h30

José Leovigildo de Melo Coelho Filho. FOTO: DIVULGAÇÃO

No primeiro semestre de 2019, muito antes de cogitarmos uma pandemia infecciosa como a do novo coronavírus, já notávamos que a transformação digital das empresas ao longo dos últimos anos estava crescendo exponencialmente. A chegada da COVID-19 elevou essa percepção à décima potência.

Ao analisar a última década das organizações mais valorizadas do planeta, podemos observar de forma ainda mais nítida a velocidade e a intensidade dessa transformação. Em meados de 2008 tínhamos empresas dos ramos de energia e de telecomunicações liderando o famoso ranking da Bloomberg.

Passados dez anos, as gigantes da tecnologia deram um vertiginoso salto, e o topo da lista foi dominado por Apple, Google, Microsoft, Amazon e Facebook. 24 meses depois, essas mesmas companhias se mantêm em alta, inclusive durante a atual pandemia. Assim, podemos perceber que o abismo que se criou entre as empresas digitais e as que insistem em se manter analógicas está a cada dia maior.

Mesmo que essas companhias tão valiosas sejam inspiração para tantas empresas ao redor do mundo, são vários os fatores de motivação da transformação digital, entre eles o crescimento rápido, a reinvenção do negócio e as crises. E se a crise de COVID-19 veio com tanta força impactando todos os setores, sua magnitude também impactou a necessidade dessas empresas apostarem na tecnologia.

Mas, para conseguir caminhar assim, em alta velocidade, as companhias precisam estabelecer estratégias, processos e metas. Precisam se organizar sistematicamente, investindo em formação de equipes multidisciplinares e que se complementam; precisam discutir objetivos e resultados chave para a aplicação da inovação focada em solução de problemas; apostar em geração de valor e mudanças organizacionais verticalizadas orientadas à resultados; investir em troca de experiências e intercâmbio de conhecimento e, principalmente, considerar projetos pilotos para testar e avaliar performance e aplicabilidade de forma ágil.

E quando a inovação digital domina a cena empresarial, novas profissões também começam a surgir ao mesmo tempo em que outras tendem a desaparecer. Segundo a Singularity University, nos próximos anos teremos uma alta demanda por profissionais especializados em gestão de mídias sociais, ciência de dados, produção de podcasts, desenvolvimento de software mobile, atuação com Inteligência Artificial, arquitetura de nuvem computacional, gestão de Search Engine Optimization (SEO), assistência virtual, telemedicina, dentre tantas outras.

Mudam as empresas, mudam as necessidades, mudam os profissionais. Vivemos em um cenário extremamente intenso que vai exigir cada vez mais de todos os envolvidos nessa cadeia.

Na medicina diagnóstica a intensidade da transformação também é alta e estar atento à movimentação mundial é extremamente importante. Em 2019, no maior evento de radiologia do mundo, o RSNA, vivenciei o que há de mais moderno em Inteligência Artificial. Startups e grandes players da tecnologia, como Google e Amazon, demonstrando novas ferramentas dedicadas à saúde e que despontam constantemente no mercado.

Dos EUA para o Brasil, temos o setor de diagnóstico representando um mercado de R$ 35,4 bilhões em uma fase onde fusões e aquisições são constantes e surgem, todos os dias, novidades que impactam o dia a dia dos centros de saúde, tanto na visão dos profissionais quanto na dos pacientes. Podemos inclusive considerar que o futuro do médico radiologista também está sendo debatido, visto que a tecnologia pode transformar a profissão, trazendo maior qualidade e efetividade na elaboração de laudos, mas é certo que todas as melhorias transformarão a rotina, mas nunca eliminarão o trabalho médico, essencial para as tomadas de decisão focadas no paciente.

Toda transformação enfrenta desafios e não seria diferente na saúde. No Brasil, por exemplo, temos uma reunião de poucos e grandes players que continuam a crescer organicamente concentrando cada vez mais o acesso às tecnologias, boas práticas, ganhos de escala e conhecimento. E, mesmo assim, pecam em acompanhar a velocidade das mudanças e transformações necessárias visto que sofrem com o excesso de processos, estruturas e burocracias internas.

Essa concentração faz com que sobre pouco para os menores que têm garra, motivação e buscam espaço em um mercado dominado por gigantes. E a preocupação surge, pois, a maior parte do setor está centrada em centenas de pequenas e médias empresas com baixo nível de gestão, eficiência e tecnologia, que normalmente têm gestão familiar e um mindset pouco voltado à transformação.

Outro ponto a considerar está no fato de que a formação acadêmica do médico radiologista falha ao não abordar administração, empreendedorismo, finanças e tecnologia, limitando seu conhecimento à prática médica e impedindo que ele vislumbre outros avanços. Sem motivação e com a alta remuneração ao exercer suas atividades clínicas, o profissional supre suas necessidades financeiras e deixa de considerar o empreendedorismo.

Assim, entre avanços e percalços, as iniciativas de transformação digital são urgentes e prementes para toda empresa que atua no ramo de medicina diagnóstica, seja ela grande, média ou pequena. E com a COVID-19, que impulsionou transformações rápidas, porém superficiais, o desafio é gigante. Quem já investia há mais tempo, reagiu bem e com mais eficiência. Quem estava preso na era analógica, está enfrentando mais dificuldades. Estamos avançando, mas ainda longe da alta necessidade de transformação que o mercado exige para que os negócios sejam, de fato, alavancados.

*José Leovigildo de Melo Coelho Filho é Co-founder & CEO da NESS Health, especialista em Empreendedorismo pela Harvard Business School e em Inteligência Artificial pelo Massachusetts Institute of Technology – MIT

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