É possível manter cultura empresarial no home office?

É possível manter cultura empresarial no home office?

Rogério Moraes*

17 de outubro de 2020 | 04h00

Rogério Moraes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Para uma retomada pós-pandemia, é essencial ter consciência da importância de os colaboradores estarem conectados com o propósito empresarial. Os líderes do negócio são os responsáveis por construir essa ponte. Afinal, pessoas engajadas conseguem ser mais criativas e adaptáveis. Essa é a perspectiva, acredito, é o ponto de partida para reorganizar a cultura corporativa e virar a chave para esta fase que o novo normal exige das organizações.

Depois de realocar, em apenas dez horas, 150 pessoas para o home office, percebi que este é o momento ideal para se aproximar dos funcionários e conhecer melhor suas habilidades e necessidades. Afinal, toda crise também apresenta seu lado positivo e pode fortalecer, além dos negócios, as conexões. Nesse momento, é preciso redefinir toda estratégia, para seguirmos para um novo mundo mais fortes. Mas é claro que essa mudança do local de trabalho, ainda mais em um contexto pandêmico, vem acompanhada de muitos desafios. Em uma pesquisa que li recentemente, da Harvard Business Review, trouxe que no trabalho remoto os colaboradores podem ter dificuldade que afetam a motivação. Os indicadores – acentuados pelo cenário – são a pressão emocional, a pressão econômica e a inércia, que podem levar a uma desconexão com o propósito da empresa.

O estudo aponta que esses indicadores são equivalentes às sensações causadas pela falta de cultura empresarial. No home office, a ausência da equipe induz a insegurança ao tomar uma decisão. O propósito também pode diminuir com a falta de convivência, uma vez que não há ninguém para lembrar sobre o impacto das atividades na vida de outras pessoas.

Apesar da transição do escritório para o home office ter sido acelerado devido ao decreto, nos últimos meses observamos que é possível realizar mudanças internas para desviar dos indicadores negativos que a pesquisa trouxe. Com isso, a nossa percepção sobre esse modelo de trabalho mudou completamente. Se antes muitas empresas tinham resistência em adotar o trabalho remoto, agora os benefícios são inegáveis. A flexibilidade de horário, economia de tempo e recursos, mais momentos com a família ou até consigo mesmo, certamente propiciam melhor qualidade de vida.

Uma das alternativas que gosto de destacar é que a reestruturação do posicionamento da empresa é necessária, com novos valores, cultura e visão. Para esse novo olhar é importante também envolver toda a equipe. Convidar os colaboradores para dividir a sua perspectiva sobre a essência da empresa, a forma como trabalha e age, pode gerar um grande nível de interação, e mostra como cada pessoa que compõe seu time faz a diferença e é importante para o todo. Além de enriquecer o trabalho, motiva a todos nós, de funcionários à gestão.

Uma outra mudança que enxergo como necessária, é facilitar o contato dos colaboradores com a gestão da empresa, promovendo uma comunicação mais horizontal. Apesar de um(a) gestor(a), por exemplo, ser uma figura muito presente em todos os processos de uma empresa, os colaboradores podem apresentar uma certa resistência em procurá-lo(a). Agora, longe da rotina agitada do escritório, disponibilizar algumas horas da sua agenda para trocas individuais com os interessados traz benefícios.

Esse é o tipo de desafio que podemos nos deparar ao pensar em como proporcionar um clima leve e acolhedor como parte do ambiente de trabalho, para o home office. Ao invés de gestor(a), essa pessoa assume o papel de ouvinte. Pronta para escutar a opinião, as novidades e até para tomar um café virtualmente. Para se aproximar das equipes, também compartilha o seu resumo da semana, com indicadores, pendências e tarefas finalizadas.

Outra preocupação são as reuniões que, com o home office, se tornaram mais longas e frequentes, afinal a internet pode apresentar lentidão, por exemplo, e prejudicar a dinâmica da troca de informações. Torná-las eficientes e objetivas é essencial, reuniões mensais de equipe para apresentar projetos e resultados aos demais pode ser um modelo interessante, uma excelente oportunidade para compartilhar o que está sendo executado, os aprendizados, compartilhar as dores, receber ajuda para solucionar problemas e, claro, comemorar as conquistas. Esse diálogo permite identificar pontos de melhorias, aplicá-los na prática e nos fortalecer como profissionais, os verdadeiros responsáveis pela reação da empresa aos desafios que certamente virão.

*Rogério Moraes, CEO da Kemp

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