E o pedinte, como fica?

E o pedinte, como fica?

Fernando Goldsztein*

13 de junho de 2022 | 05h00

Fernando Goldsztein. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Neste final de semana houve a quermesse junina na escola dos meus filhos. O grupo de whatsapp pipocou de mensagens avisando: “não esqueçam de levar dinheiro, pois as barraquinhas de pipoca, pinhão e quentão não aceitam cartão e nem pix”.

Dinheiro? Seriam aquelas notas suadas e amassadas que usávamos para comprar coisas num passado recente? Antes da pandemia já havia uma tendência natural de usarmos os meios eletrônicos como forma de pagamento. Com a pandemia então, nem se fala. Não só reduziu-se muito as transações presenciais, como também criou-se a controversa tese de que o vírus poderia ser transmitido pelo contato com o dinheiro. Além é claro, da recente invenção que foi um verdadeiro golpe de misericórdia no dinheiro em espécie, o pix. Não carrego mais dinheiro no bolso há algum tempo. Nem lembro da última vez que fiz uma visita à um caixa eletrônico.

Trata-se de um fenômeno mundial e, na minha opinião, irreversível. Outro dia estive nos Estados Unidos. Fui e voltei exatamente com as mesmas notas de dólares. Ou seja, cruzei boa parte do planeta sem pagar nada em dinheiro. Nada. Um amigo retornou recentemente de Londres e disse que, na maioria dos lugares, nem aceitam pagamento em espécie. Você tira aquela nota do bolso e causa até constrangimento. Incrível a velocidade da mudança nos dias de hoje.

As vantagens do pagamento eletrônico são muitas. O consumidor não precisa mais portar dinheiro e nem preocupar-se em ir com frequência ao caixa eletrônico. Já o estabelecimento comercial, por sua vez,  não precisa armazenar dinheiro vivo no caixa, o que é mais seguro. O dinheiro entra automaticamente no  fluxo de caixa do comerciante, sem ser necessário esperar até o final do dia para fazer o depósito. E as vantagens não param por aí. Não é mais necessário ter troco disponível; a chance de haver fraude por parte dos funcionários é bem menor e, por último mas não menos importante, tudo é mais higiênico, o que é ótimo especialmente em lugares que vendem comida. Portanto, no meu ponto de vista, quase só há pontos favoráveis em abolir as notas e as moedas.

Entretanto, tem um ponto que me causa preocupação. Trata-se da frágil situação dos pedintes. Não me refiro àqueles que, ao menos aparentemente,  poderiam estar trabalhando ou fazendo um “bico” para ganhar o seu dinheiro. Mas, sim, aos pedintes que visivelmente possuem defeitos físicos ou mentais e que, infelizmente, não são alcançados pela mão do estado. São invisíveis para a nossa sociedade. Para estes, a vida que já era muito difícil, se agravou. Cada vez menos teremos aqueles parcos trocados no bolso que, não nos servem para muita coisa, mas são um alento precioso para a vida daqueles que nada têm.

*Fernando Goldsztein, empresário. Fundador www.mbinitiative.org

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.