‘É minha categoria, meu sangue’, diz ex-deputado acusado de liderar motim no Ceará

‘É minha categoria, meu sangue’, diz ex-deputado acusado de liderar motim no Ceará

Respondendo a processo na Justiça Militar por conspiração e classificado pelo governo como 'foragido de Justiça', Cabo Sabino afirma ter certeza que sua demissão 'já está pronta' e questiona imparcialidade nos processos contra militares amotinados

Paulo Roberto Netto

06 de março de 2020 | 21h22

O ex-deputado federal Cabo Sabino durante audiência na Câmara dos Deputados, em Brasília. Foto: Alex Ferreira/Câmara dos Deputados

Acusado de liderar o grupo de policiais que se amotinaram no 18° Batalhão em Fortaleza e chamado de ‘foragido da Justiça’ pelo governo do Ceará, o ex-deputado federal Cabo Sabino (Avante-CE) afirmou ao Estado que não desempenhou papel de liderança entre os amotinados, mas que ‘não tinha como abandonar’ os militares.

No fim da tarde desta quinta, 5, Cabo Sabino se apresentou à Justiça Militar e teve a ordem de prisão preventiva substituída pela proibição de entrar em instalações das forças de segurança por seis meses. Nas redes sociais, o governador, Camilo Santana (PT), disse ter ficado ‘indignado’ com a decisão e acusou o ex-deputado de ‘promover todo tipo de desordem’.

Durante o motim, foram registrados 312 homicídios no Ceará, mês mais violento desde 2013, quando foram adotados os atuais critérios para a série histórica no Estado.

Sem chamar o caso de motim e se referindo aos agentes como ‘garotos’, o ex-parlamentar questiona a imparcialidade nos processos movidos contra os amotinados na Corregedoria Militar e diz não ter dúvidas que o governo irá trabalhar sua demissão. “Na realidade, acho que ela já está pronta”.

O ex-deputado federal Cabo Sabino, durante sessão na Câmara dos Deputados, em Brasília, em 2015. Foto: Gustavo Lima / Câmara dos Deputados

ESTADÃO: Qual a manifestação do senhor a respeito do processo e do mandado de prisão preventiva?

CABO SABINO: “Na realidade, o processo é uma situação que nem eu sei o que se trata. Tinha essa preventiva, mas ela foi relaxada. Agora, a gente trabalha. Vai vir as apurações do movimento e a gente vai se defender. Não cometi nenhum crime no sentido de matar, de roubar, não incentivei ninguém a fazer vandalismo. As minhas infrações são do Código Penal Militar. A gente vai responder na Justiça. Não tenho dúvidas que vamos ter direito a ampla defesa e ao contraditório. O grande problema mesmo é na Controladoria Militar. Aí, a questão é debaixo do jugo do governo e eu sei que lá não tem como serem imparciais com a gente. Lá, eles vão trabalhar a minha demissão, não tenho dúvida disso. Na realidade, acho que minha demissão já está pronta”

ESTADÃO: Na quarta, a gestão Camilo Santana classificou o senhor como um ‘foragido da Justiça’. Como o senhor encara essa afirmação e onde esteve durante a vigência do mandado de prisão?

CABO SABINO: “Eu nunca fui foragido. Foragido é quando você recebe voz de prisão e foge ou quando você está fugindo de um flagrante. Não era meu caso. Eu fui saber que havia um mandado contra mim, oficializado, ontem, na auditoria militar. Quem ventilou isso foi o Procurador de Justiça e o próprio governador, em rede nacional. Eu não entendo como é que existia um processo em segredo de justiça. Nem meu advogado teve acesso aos autos, e o governador teve. E disse que eu era foragido, entendeu? Não há abuso de poder aí?

Eu estive na minha casa no período. Fiz uma cirurgia bariátrica há um ano e três meses. Nesses treze dias que eu passei na paralisação, eu deixei de tomar minha medicação. Eu estava debilitado, perdi seis quilos durante a paralisação e, quando saí, fui direto para minha casa tomar minha medicação, me restabelecer. Quando vi no noticiário [sobre o mandado de prisão], já liguei para o advogado e, no dia seguinte, foi na auditoria militar para saber disso. Lá, ficamos sabendo, foi feita a audiência de custódia e, claro, já tinha passado o objeto [a paralisação]. Então, não tinha motivo para um mandado de prisão contra a minha pessoa”.

ESTADÃO: O senhor está sendo acusado de revolta, conspiração, incitamento e aliciamento – o crime militar de motim -, devido ao seu papel com o grupo de policiais que ficaram no 18° Batalhão. Eles viam o senhor como liderança do movimento. Como o senhor explica sua participação?

CABO SABINO: “As acusações no papel cabem tudo. O próprio comando da PM que coloca isso, não existe isso. No decorrer do processo nós vamos provar nossa inocência que não se trata disso. Nós estivemos ao lado de jovens, garotos que estavam sendo massacrados com a carga horária massacrante, com uma proposta salarial onde o governo tirava das próprias gratificações, tornava salário e dizia que estava dando aumento.

Em nenhum momento eu convoquei a greve. Em nenhum momento. Fui lá como radialista fazer a cobertura do meu programa. Quando cheguei lá, as esposas já tinham fechado o quartel. Os policiais começaram a chegar e me viram como ex-deputado federal, como uma das lideranças do movimento de 2011 e 2012, e eles ficaram ali sempre pedindo opinião e tudo devido a momentos de muita tensão no início.

Eu vi ali pelo agitar das coisas que podia ter confronto e tive que intervir, e a partir do momento que intervi, eles passaram a ter uma relação de confiança muito grande com minha pessoa, me pedindo que ficasse orientando, ficasse do lado deles. Não tinha como negar aquilo, aqueles jovens, aquela garotada. Eu digo que é jovem, garotada, porque estavam com balaclava e pela maneira que me tratavam, de cabo e de senhor, se fossem mais graduados do que eu, me tratariam pelo nome.

Dava ver que eram jovens, corajosos. E aí ficamos com eles por 13 dias. É minha categoria, meu sangue. Foi onde passei 27 anos da minha vida. Não tinha como abandonar aqueles garotos.

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