E-mail com chantagem por pagamento em caso de MP era descabido e maluco, diz secretária de montadora

Lilian Gasperoni, da MMC Automotores, disse que polícia não foi avisada sobre mensagens por causa de 'vocabulário muito tosco'

Fábio Fabrini e Andreza Matais / Brasília

02 de fevereiro de 2016 | 14h48

A secretária executiva Lilian Gasperoni, que trabalha na MMC Automotores (fabricante de veículos Mitsubishi no Brasil, afirmou nesta terça-feira, 2, que a polícia não foi informada sobre e-mails enviados à empresa com ameaças e extorsão porque o conteúdo era “descabido” e “maluco”. Segundo ela, não foi dada importância ao texto, que cobrava, em tom de chantagem, pagamentos pela negociação de uma medida provisória.

Lilian é auxiliar do executivo da montadora Eduardo de Souza Ramos, réu de ação penal que apura suposta “compra” de medidas provisórias no governo federal. Ele responde por corrupção ativa, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Em outubro de 2010, Lilian recebeu mensagens que exigiam o pagamento de US$ 1,5 milhão de representantes da montadora. Caso o valor não fosse desembolsado, o remetente ameaçava contar o que sabe sobre supostas irregularidades na negociação da medida provisória 471.

Conforme um dos e-mails, nas tratativas, teria havido a oferta e R$ 4 milhões a “pessoas do governo” do “PT”. As ameaças foram reveladas pelo Estado em outubro do ano passado.

Segundo a denúncia do Ministério Público Federal oferecida à Justiça, o esquema para chantagear a montadora foi contratado por lobistas que haviam pactuado com a MMC e a Caoa (que fabrica modelos Hyundai) o pagamento de R$ 32 milhões para viabilizar a edição, pelo governo, e a aprovação, pelo Congresso, da medida provisória.

A MMC teria feito os pagamentos, mas a Caoa, supostamente, não teria cumprido sua parte no acordo. Diante disso, os lobistas teriam enviado as mensagens para pressionar pelos repasses. O remetente se identificava como Raimundo Lima, mas o verdadeiro autor seria Halysson Carvalho, que responde à ação penal por extorsão.

No depoimento, prestado por videoconferência, Lilian explicou recebeu os e-mails e os mostrou para o chefe. Ramos, no entanto, disse para que ela os repassasse ao lobista Mauro Marcondes Machado, que representava tanto a MMC quanto a Caoa. “Achei muito descabido. Maluco! Essa pessoa tinha um vocabulário muito tosco”, justificou.

Lilian afirmou que as mensagens não foram levadas a sério. Por isso, a polícia não teria sido avisada. “Não foi comunicada justamente porque não foi levada a sério” , explicou a secretária. O Ministério Público sustenta, no entanto, que não houve a denúncia por medo de que o esquema fosse descoberto.
Lilian informou que não conhece a maioria dos lobistas investigados na Operação Zelotes por envolvimento no suposto esquema. Ela disse que seus superiores não comentaram qual era a origem da dívida cobrada nas mensagens.

Nesta terça, a Justiça Federal ouviu sete testemunhas de defesa do caso. As audiências serão retomadas. A previsão é de que seja ouvida a primeira ré: a empresária Cristina Mautoni, mulher de Mauro Marcondes.

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