É hora de tecer a história com o fio de nossas virtudes

É hora de tecer a história com o fio de nossas virtudes

Adriana Cecilio*

30 de março de 2021 | 05h00

Adriana Cecilio. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Conta Platão que Cadmo semeou dentes de dragão no solo de Tebas. Dessas sementes nasceram os bravos e corajosos espartanos. Para que os tebanos nunca se esquecessem do valor de suas origens, e assim pudessem honrá-las, havia um grande monumento de dentes do dragão em um local central, à vista de todos.

Saber de onde viemos é essencial para compreender quem nós somos. Um momento histórico de luta e união por valores comuns define o lastro de coragem que irá servir de inspiração para conferir força e grandiosidade aos que virão.

De que o povo brasileiro se orgulha? Qual foi o episódio na história brasileira que definiu nossos valores coletivos? Quais são nossas virtudes? O que nos une? Quem somos? Como respondemos a problemas de grandes proporções?

Precisamos dessas respostas.

Eu não me lembro de estudar um momento marcadamente virtuoso como esse nos livros de História do Brasil. O que estudamos, o que sabemos sobre nós são só os percalços. Conhecemos bem os erros, os enganos, as falhas éticas. Mas não encontramos um ponto em que possamos nos apoiar e dizer: “Que orgulho do nosso povo! Vencemos juntos, conscientemente, esse grande desafio!”.

As decisões ao longo da história brasileira sempre foram de cima para baixo. O povo sempre foi um mero espectador das mudanças nos rumos do país. Mesmo os movimentos como “Diretas Já”, “os caras-pintadas” ou os protestos de 2013 sempre tiveram um escopo classista. O grande povo, o motorista de caminhão, a faxineira, o catador e outros, nunca tomaram parte de forma suficientemente esclarecida nessas lutas.

Um povo carente de referências históricas cai facilmente em discursos populistas que oferecem falsas identidades como elementos agregadores. Vemos, atualmente, os “patriotas brasileiros” que defendem mais os interesses dos Estados Unidos do que os do Brasil. Isso revela não só falta de bom senso, mas o quanto nos sentimos órfãos de valores comuns que nos identifiquem de forma autêntica.

Se olhando pelo retrovisor não conseguimos identificar esse acontecimento do qual podemos nos orgulhar, talvez caiba à nossa geração produzi-lo. Estamos vivendo um momento crítico em nossa história. Diariamente, temos assistido a ameaças ostensivas à nossa democracia.

Trezentas mil vidas de brasileiros e brasileiras perdidas. A cada morte desnecessária e evitável para esse vírus terrível nos tornamos menores não só em números, mas em capital humano. Perdemos os seres humanos que partiram e nos perderemos definitivamente de nossa humanidade, se não nos levantarmos contra esse genocídio ao qual o povo brasileiro está sendo submetido.

Vivemos, diuturnamente, carregando o fardo do medo. Medo de morrer. Medo de perder a quem amamos. Medo de perder nossas liberdades democráticas. Medo de perder direitos básicos que têm sido atacados através de propostas legislativas retrógradas e odiosas, como o Projeto de Lei que prevê a possibilidade de um estuprador exigir informações à vítima sobre um filho que, supostamente, ela teria a obrigação de parir, sendo o fruto de uma violência extrema praticada contra a mulher.

Quão cruel e absurdamente insensível um indivíduo precisa ser para buscar regulamentar algo nesse sentido? Os marcos civilizatórios vão se diluindo ante a naturalização da perversidade.

A Lei de Segurança Nacional, essa fantasmagórica manifestação do autoritarismo em sua forma mais pura, tem avançado, a passos largos, contra a liberdade de expressão. Declarar que essa norma não foi recepcionada pela Constituição Cidadã de 1988, além de algo óbvio, revela-se essencial à preservação do Estado Democrático de Direito. É urgente.

Tudo isso é assustador e revoltante. Em situações como essa, quando somos postos à prova, descobrimos onde mora a nossa força, de que somos feitos. Encontramo-nos diante do intolerável. É preciso buscar construir um caminho comum que possa unir as pessoas. A solução para todos esses problemas que estamos enfrentando só poderá vir de forma realmente legítima da força gerada pela união do povo brasileiro.

Fomos ensinados que brasileiros são interesseiros, malandros, preguiçosos e pouco confiáveis, mas não são essas características que nos definem. Se olharmos para a maioria do povo brasileiro; homens e mulheres que vivem, infelizmente, com muito pouco, que resistem às injustiças diárias e, ainda assim, são a força motriz dessa nação; podemos dizer que as características que retratam com fidelidade a sociedade brasileira são: a dignidade, a solidariedade e o trabalho.

Não é pouco ser forjado por tamanhas virtudes. Somos um povo que também carrega uma característica tão peculiar quanto bela, resolvemos nossas dores com bom humor. A alegria é a nossa forma de exercer a resiliência ante o que nos afeta, estarrece e aflige. Se essa é uma característica comum, e é, podemos nos valer disso para nos conectar.

É preciso descer do discurso academicista e falar com as pessoas de forma compreensível. Aos que entendem com maior clareza o que estamos experienciando nasce o dever de traduzir de forma acessível aos que não sabem.

Construir esse diálogo de forma eficiente significa incluir o povo brasileiro no processo democrático. É o desafio que se impõe, há séculos, à nação brasileira.

Descobrir nossos valores comuns e estabelecer um diálogo a partir disso, essa é a chave para conseguirmos caminhar juntos para longe do autoritarismo. Que seja esse o ponto em nossa história que servirá como referência de união em prol do bem comum aos brasileiros que virão depois de nós. Que toda a dor que estamos vivendo se transforme em força para produzirmos uma resposta da qual possamos nos orgulhar.

É hora de tecer a história com o fio de nossas virtudes.

*Adriana Cecilio, advogada. Professora de Direito Constitucional. Presidente da Comissão do Acadêmico e da Acadêmica de Direito da OAB SP. Fundadora do Grupo de Estudos Democratismo

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