É hora de sermos pragmáticos e melhorarmos a transição que está em curso

É hora de sermos pragmáticos e melhorarmos a transição que está em curso

Maxime Carmignac*

20 de junho de 2020 | 09h00

Maxime Carmignac. FOTO: DIVULGAÇÃO

Por enquanto, ninguém pode avaliar as consequências da pandemia que está assolando o mundo. Alguns, no entanto, tentam fazer essas avaliações arriscando previsões que podem ser resumidas em: tudo vai mudar e nada voltará a ser como antes. Então, como resultado dessa pandemia, parece existir um pensamento binário, e que teríamos passado da globalização e do capitalismo cego para um futuro mais brilhante, baseado em uma economia completamente virtuosa e na total solidariedade entre os povos? Talleyrand, um político e diplomata francês nascido no século XVIII escreveu que “tudo o que é exagerado é insignificante”. Quando se trata de encontrar soluções a problemas vitais, de responder a ansiedades existenciais, de nada servem as soluções excessivamente simplistas ou os lemas fabulosos.

Muitas vezes, a história tem sido escrita por meio de rupturas violentas, mas na maioria das vezes tem sido resultado de mudanças mais sutis. Enquanto gestores de investimentos, preferimos ser pragmáticos e criar cenários baseados em análises aprofundadas e independentes e não em previsões. Seria mentira se afirmássemos que as nossas economias podem mudar radicalmente de um dia para o outro. Exigir isso levaria a uma iniciativa de lavagem de dinheiro enorme. Além disto, significaria ignorar a grande mudança de comportamento pela qual as empresas estão passando lentamente, mas de forma segura. A transição está acontecendo de fato, e os resultados são encorajadores.

As empresas que zelam pelos seus acionistas e monitoram os fatores externos estão se beneficiando do seu compromisso e estão mais preparadas para ultrapassar a crise atual e sair mais fortes dela. Isto não se trata de um discurso milagroso nem de uma previsão. Pesquisas recentes mostraram que as empresas que têm tido desempenho superior ao habitual no ambiente econômico atual, mostraram-se também superiores em matéria de produto, saúde e segurança, bem como melhores políticas de trabalho. Zelar pelos acionistas é, de fato, uma das formas mais eficientes de evitar numerosos riscos. É disso que se trata o investimento sustentável, na observação cuidadosa dos critérios ESG (critérios ambientais, sociais e de governança) e buscando a contribuição positiva que sua implementação pode dar.

Isso teve de ser provado e eram muitos os céticos que olhavam para o investimento sustentável como uma moda ou um luxo. Esse tipo de pensamento já é do passado. A realidade dos números começa a refletir o bom senso. Desde o início da pandemia, o desempenho dos fundos que investem em empresas com políticas ESG exigentes têm ultrapassado significativamente os valores de referência. Os critérios ESG já podem ser considerados um “porto seguro”, como durante muito tempo foi o caso do ouro. Para um investidor, apoiar empresas com um forte compromisso em matéria de critérios ESG é, logicamente, a melhor decisão a se tomar e uma ferramenta de gestão do risco muito eficiente.

Atualmente, nós podemos estar em ponto de viragem ao assistirmos a uma mudança rápida no comportamento das empresas. A história está acelerando. Não podemos ser ingênuos, caindo na armadilha lançada por Talleyrand. As coisas estão longe de serem perfeitas e o caminho a trilhar é enorme, mas há boas notícias e motivos para ter esperança após vencermos esse vírus.

O setor da gestão de investimentos tem desempenhado o seu papel apoiando e financiando empresas, tendo realmente uma visão de longo prazo, e, ao fazê-lo, tem atingido melhores resultados e maior rentabilidade. Da nossa parte, estamos empenhados em prosseguir nesta direção. Isto exige que sejamos pragmáticos, que evitemos a lavagem de qualquer tipo, mantendo uma abordagem de investimento ativa e baseada em fatos, sendo, ao mesmo tempo, seletivos e comprometidos com as empresas que compartilham os nossos valores em questões de critérios ESG. A sustentabilidade e o desempenho superior decidiram caminhar juntos. Vamos juntos, criando as condições para que este seja um casamento duradouro. Vale a pena tentar.

*Maxime Carmignac, diretora executiva da Carmignac UK

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