É hora de aprender a ser só

É hora de aprender a ser só

Emanuela Carvalho*

26 de janeiro de 2017 | 06h00

Emanuela Carvalho

Emanuela Carvalho

O curso rápido e à distância começa agora. Serão ensinados em cinco passos como ser só. Como estar só. Mesmo que em meio a um milhão de pessoas. Não importa.

Iniciando:

Estar só requer autocontrole. Nada de carência, nostalgia. Isso é muito clichê. Ouvir música romântica e ficar deprê, nem pensar. Passo 1.

Ficar nas redes sociais vendo os amigos viajando, rodeados de tantos outros amigos e sentir aquela invejinha, que descarada e preconceituosamente chamamos de “branca” – sim porque a inveja, inveja mesmo seria preta, de acordo com esse raciocínio cretino – não vale. Passo 2.

Isso de achar que ter alguém para dormir abraçadinho, no frio do ar-condicionado ou na ventania da janela aberta é ilusão. Fazem você acreditar nisso e você, além de cair na armadilha, se afunda na tristeza e desperdiça todos os ensinamentos de como ser só. Esqueça. Passo 3.

Sair com os amigos para beber, tomar uma, encher a cara, whatever. Desnecessário. Passo 4.

Esgota-se aqui a ironia, antes do passo 5.

Não existe receita para aprender a ser só. A estar só.

A vida tem sido tão amarga, por vezes, que obriga as pessoas a se embrutecerem, para provarem que são autossuficientes – o suficiente – para viver sozinhas, sem precisar do amor, da amizade, da presença de outras pessoas em suas vidas.

Atenção: não confundir com dependência. Viver em função do sentimento de outra pessoa, de fato, não é saudável, mas querer estar na presença de quem faz bem, literalmente, faz muito bem!

E então, porque há tantas pessoas por aí reclamando da solidão? Na era digital, onde contatos são tão rápidos e fáceis, por que se sentem cada vez mais solitárias, essas pessoas?

Talvez porque estejam se iludindo com a própria era digital. A tecnologia, com a maior boa-vontade, não aproxima as pessoas, ao contrário, as afasta. Elas vivem iludidas com os números de seguidores, de amigos virtuais, de curtidas e comentários, que até a próxima postagem deixarão um vazio. E quem vai ocupá-lo? Ou a próxima postagem será tão rápida, que não deixe espaço para o vazio sufocante da solidão disfarçada.

Quantas pessoas se encontram e tão rapidamente pegam os seus celulares e começam a conversar e a compartilhar a vida digital, enquanto a vida real passa, bem diante da tela?

Isso sem falar nas relações amorosas, que daria – ou dará – outro artigo exclusivo. Se você é daqueles que quer mesmo dormir de conchinha no frio do ar-condicionado ou na tal ventania da janela aberta, com constância e não apenas um fim de semana ou dois, as suas expectativas correm um grande risco de se frustrarem, e a você também, porque afinal, isso é raro, meu caro.

As amizades, que deveriam ir se solidificando ao longo dos anos, vão sendo devoradas pela falta de tempo, pela competitividade que por vezes a vida estimula, e quando se olha para os lados e se procura todos aqueles amigos, onde estão afinal?

Não só aqueles que estejam ao seu lado nas horas difíceis, é preciso dizer, porque o mais difícil mesmo é ter amigos que suportem conviver com o seu sucesso, sem sentir inveja, branca, presta, multicolorida.

Um amigo que compartilha a sua felicidade sem achar que o mundo é injusto com ele e excessivamente justo com você, porque no seu caso, tudo “cai do céu”, é uma espécie rara e que sofre sério risco de extinção.

Mas então. Se o objetivo inicial era desconstruir a ideia de que aprender a estar e ser só é a única solução para evitar o sofrimento e as decepções e ao longo do caminho e as alternativas apresentadas mostram que estar bem acompanhado está ficando tão difícil quanto ganhar na loteria, o que fazer?

Em cinco passos?

Não. De novo, não.

A receita não está pronta. Os ingredientes são muitos, e ao mesmo tempo, específicos. Cabe a cada um encontrar o modo de fazer que transforme em realidade possível, palpável, a chance de compartilhar as alegrias e dores, as conquistas e frustrações dessa vida, que não é vazia, mas que precisa ser preenchida, porque ainda há espaço, com o amor que vem de lá, do lado de fora, do lado do outro.

Mais amor, por favor.

* Emanuela Carvalho é professora e autora do livro ‘Antes feliz do que mal acompanhada’

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