É hora de agir!

É hora de agir!

José Renato Nalini*

17 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Esta década é fundamental para o mundo, se ele quiser escapar à catástrofe do aquecimento global. Por se conscientizar de que a situação é gravíssima, o mercado assumiu o compromisso de enfrentar a situação, a despeito de governos omissos ou detratores da natureza.

Tudo o que se fizer em termos de empreendimento terá de se ajustar à regra ESG. A sigla significa observância de três eixos: Meio Ambiente (Environmental), Social – os aspectos da redução das desigualdades – e G, de Governança Corporativa.

A regra já está valendo no mundo civilizado. O Brasil tem de suplantar uma série de adversidades. Primeiro, o negacionismo que se recusa a acreditar no aquecimento do planeta e solta a “boiada” do desmatamento, dos incêndios criminosos e do garimpo ilegal em terras indígenas e reservas florestais.

O desmanche do Ministério do Meio Ambiente, entregue a quem dissemina a política da impunidade, atribui às ONGs a conspiração determinada a enfraquecer o agronegócio brasileiro, critica chefes de Estado e a mulher deles, ridiculariza artistas que se propõem a alertar o mundo e jovens corajosas que puxam a orelha dos adultos ignorantes.

Para completar, entrega-se a Comissão do Meio Ambiente da Câmara Federal a deputada que tem opiniões próprias a respeito do tema, coincidentes com o pensamento hegemônico negacionista.

Tudo isso em País de iletrados, não só os que não conseguiram se alfabetizar, mas os que chegaram à escolaridade, mas continuam analfabetos funcionais. Brasil em que o pouco de reciclagem é resultante da miséria. Os catadores são aqueles informais que não têm como viver. Por isso recolhem as latinhas de alumínio, as garrafas pet e o papelão descartado por uma sociedade do desperdício.

E pensar que o Brasil já foi a esperança ecológica da Terra! Teve Chico Mendes, teve Paulo Nogueira Neto, o primeiro Secretário do Meio Ambiente, quando ainda não existia Ministério, teve a grife Marina Silva, sediou a Eco-92, quando quase duas centenas de Chefes de Estado se comprometeram a reverter o consumo irresponsável de recursos naturais.

Desde então, foi só retrocesso. Revogou-se o Código Florestal, pois o que se promulgou em lugar dele sequer menciona essa expressão: “Código  Florestal”. Contudo, considerado compatível com uma Constituição que tem um artigo 225, um dos mais belos dispositivos fundantes produzidos no século 20! O STF desconsiderou a vedação do retrocesso e validou esse desmonte de uma legislação protetiva da natureza.

Mas é preciso não esmorecer. A sociedade civil tem de assumir essa bandeira e mostrar que governos transitórios não podem esfacelar o patrimônio tangível, ou seja, o verde, a biodiversidade, a água doce, a pureza da atmosfera, nem sepultar o patrimônio intangível. Aquilo que se produziu em doutrina, legislação – desrespeitada – e jurisprudência tutelar do ambiente.

É a sociedade civil que tem de exigir educação ambiental formal e informal, em todos os níveis e espaços. É dela que devem partir os bons exemplos, e estes existem. Os governos locais precisam mostrar que não aderem ao projeto de terra arrasada, como São Paulo fez, promulgando a norma do ICMS ambiental.

São Paulo também dá o exemplo, tentando salvar o rio Pinheiros. Tomara consiga e não pare aí: o Tietê é uma vergonha universal. O belo curso piscoso e límpido, que serpenteava as várzeas de Piratininga, foi “retificado” e, com isso, tornou-se um condutor de esgoto e de venenos industriais.

Anunciou-se um plantio de árvores para homenagear os mortos pela Covid. Espero que isso também não cesse. Teríamos em São Paulo um bosque infinito. Já são quase duzentas e oitenta mil almas ceifadas pela peste. E esse número tende a crescer.

Redescobrir os córregos que foram sepultados sob o asfalto, para dar espaço para o automóvel, é outra missão de que ninguém deve se furtar. Cuidar melhor do descarte, pois somos a Nação que mais desperdiça, exigir logística reversa, economia circular e reposição de todas as árvores destruídas. Quanta coisa a ser feita. E não é impossível. Basta querer!

Mais do que nunca, invocar o lema ambientalista dos primeiros e saudosos tempos: “pensar globalmente, agir localmente”. Ninguém é tão impotente que seja incapaz de ajudar essa campanha de salvação da vida. De toda espécie de vida. Pois não é a Terra que corre perigo. É a vida que nela se desenvolve e que está sendo ameaçada e dizimada pela ignorância, aliada à ganância. Coisa própria dessa criatura imperfeita chamada ser humano.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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