É fácil enganar o povo?

É fácil enganar o povo?

José Renato Nalini*

14 de junho de 2021 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Nós, cultores da democracia, aprendemos que este é o regime levado a efeito pelo povo, com o povo e para o povo. Povo, conceituado na teoria política e no direito constitucional, como o conjunto dos cidadãos do Estado. Cidadãos: os seres racionais providos da prerrogativa de influenciar a gestão da coisa pública.

Nessa concepção repousamos nossa mente e ficamos satisfeitos com a receita que nos é oferecida para a certeza de estarmos no estado de direito de índole democrática. Afinal, temos uma Constituição que vai chegar aos 30 anos de vigência, o que é significativo para uma nação de tamanha complexidade e heterogeneidade como é o Brasil.

Todavia, existem os que não se satisfazem com isso. Sua fome de democracia é mais intensa. Gostariam de maior participação dos indivíduos na escolha das políticas públicas, terem voz quanto à opção de gastar os recursos do erário e de poderem trocar os representantes quando estes se afastassem do dever de consecução do bem comum.

São os que não se conformam com a situação de muitos países, em que sua população se vê excluída da condução dos negócios de governo. Sabem que, por longas eras, os povos “acreditaram ser capazes de construir sua história, de controlar seus atos, de se dirigir a um futuro que prometia as maiores bem aventuranças, mesmo que em alguns momentos tenham sido forçados a perceber que o caminho escolhido não levava a parte alguma ou era mesmo uma regressão”, como diz Eugène Enriquez.

Nem sempre acontece de a população ser forçada a perceber o que ocorre. Essa capacidade de tomada de consciência é muito rara. Para Eugène Enriquez, “a aptidão dos povos de se iludir, de se desviar da realidade, de não ver o que está sob seus olhos, portanto de se cegar, é bem maior que a de olhar as coisas de frente, em sua verdade”.

Será que é isso mesmo o que se verifica na aventura humana por este planeta? A visão de Enriquez é muito clara: “Nada mais fácil de enganar que um povo. Os tribunos populistas, os aprendizes de ditadores e os revolucionários iluminados ou que se dizem científicos sabem isso bem. Não fosse assim, a Revolução Francesa não teria engendrado o Terror e depois o bonapartismo; a revolução soviética, o totalitarismo; a revolução chinesa, o maoismo intransigente; as revoluções conservadoras alemã e italiana, o nazismo e o fascismo, que não precisamos qualificar”.

Tudo isso aconteceu e faz parte da crônica humana e não foi suficiente para fazer o povo desacreditar nos falsos líderes. Incrível a persistência e a consistência da crença no impossível.

A promessa de futuro radioso costuma ser seguida de um nocivo retrocesso. basta acompanhar o que já aconteceu na história mundial. Para ficar mais nítido na consciência, pois fenômeno ainda não integralmente erradicado, o capitalismo exacerbado e destituído de ética gerou no século 19 a dolorosa miséria entre os operários, obrigados a jornadas de 14 horas diárias em troca de um salário insignificante. A vida rural brasileira é pródiga de exemplos de proprietários inescrupulosos, que impõe aos lavradores e, principalmente, aos chamados “boias frias”, regime de verdadeira servidão, incompatível com o meta-princípio da dignidade da pessoa humana, a bússola orientadora da democracia brasileira.

Quantas vezes não somos alertados de que refugiados de outras nações, principalmente latino-americanos, submetem-se a condições desumanas, espoliados por conterrâneos?

Acreditava-se que a modernidade sujeitaria os homens ao reinado da razão e que esta, como pensava Descartes, Asseguraria a humanidade o domínio e a posse da natureza, sepultando os fantasmas e as ilusões.

Não foi assim, o que é fácil comprovar. Inegável reconhecer que os avanços científicos trouxeram vantagens, mas o progresso aqueceu o planeta, tornou-o poluído, assim como poluídas e imersas na ignorância e no fanatismo, continuam legiões de seres aparentemente racionais, mundo afora.

Contra a cegueira moral não existe ainda vacina. O remédio é disponível, mas pouco adequadamente utilizado. É a educação de qualidade, um processo formativo inebriado de ética, ingrediente que figura no discurso e é sentida ausência na prática

Parcela minoritária da lucidez mundial atentou para a aceleração dos tempos rumo à tragédia do caos. Para minimizá-la, já que é impossível eliminá-la, elaborou o conceito ESG, que propõe trato simultâneo e correto das questões ambientais e sociais, mediante uma gestão corporativa inteligente.

Talvez seja a derradeira chance para a tentativa de se obter escala na conscientização dos infiéis e desastrados inquilinos deste planeta, de que ainda não há uma rota de fuga. Ao matar a Terra, estaremos a praticar suicídio premeditado. E o capitalismo também precisa se converter, para tornar-se mais humano, ecológico e, principalmente, mais ético.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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