‘É difícil ficar isolado sabendo que o mundo está caindo na sua frente’, diz Uip ‘enjaulado’

‘É difícil ficar isolado sabendo que o mundo está caindo na sua frente’, diz Uip ‘enjaulado’

Chefe do Centro de Contingenciamento do Coronavírus, infectologista está em casa após ser diagnosticado com Covid-19; em mensagem ao Ministério Público, diz que auge da doença virá nos próximos meses, defende isolamento social e pede tranquilidade

Fausto Macedo e Paulo Roberto Netto

29 de março de 2020 | 15h36

Diagnosticado com Covid-19 e em quarentena, o infectologista David Uip afirmou que está sendo difícil ficar isolado ‘sabendo que o mundo está caindo na sua frente’. Em áudio enviado ao Ministério Público de São Paulo, o chefe do Centro de Contingenciamento do Coronavírus defende o isolamento social para achatar a curva de infecção, diz que auge da doença virá entre abril e maio, mas pede tranquilidade à população.

“Eu estou aqui na minha quarentena, estou enjaulado. É difícil você ficar isolado sabendo que o mundo está caindo na sua frente, mas faz parte da doença e eu tenho que cumprir a minha parte à semelhança de tantos outros brasileiros que estão isolados”, disse Uip.

Segundo o infectologista, está havendo uma ‘confusão na mídia’ em relação aos dados do Ministério da Saúde. A pasta atualiza números somente de pessoas diagnosticadas com o novo coronavírus, pois no Brasil só é testado quem está em estágio grave da doença – isso acaba deixando de fora quem está com o vírus, mas com poucos ou nenhum sintoma. O último balanço aponta 3.904 casos confirmados e 114 mortes.

“Hoje o Brasil só diagnostica os casos graves que estão em hospitais e os profissionais da área de saúde com sintomas. Então, é um numerador baixo. Diferente do que se você testasse toda a população”, explica. “Se a gente trabalhar com o denominador só de doentes versus mortes, nós vamos ter uma letalidade muito alta. Agora, se nós trabalharmos com uma população imensa que faz exames e com a letalidade que a mesma, nós vamos ter uma letalidade baixa, seguramente abaixo de 1%”.

O infectologista relembra que qualquer um pode ser infectado e qualquer um pode ficar em estado grave. “A letalidade que está na faixa dos mais vulneráveis”, destacou.

O infectologista David Uip, chefe do Centro de Contingenciamento do Coronavírus em São Paulo. Foto: Daniel Teixeira / Estadão

Uip afirma aos promotores que, na sua opinião, o Brasil ainda não chegou ao auge da doença e que, quando isso ocorrer, todo o sistema de saúde e o econômico enfrentarão dificuldades.

“Isso vai acontecer durante o mês de abril e maio, e teremos grandes dificuldades. Tanto para o sistema público e privado de saúde, sistema econômico. Não tem muito jeito, nós vamos ter que passar por isso à semelhança de outros países”, afirmou.

O médico defendeu o distanciamento social como forma de achatar a curva de ascensão da doença. A medida é recomendada por órgãos de saúde, como a Organização Mundial da Saúde, mas enfrenta resistência no governo federal, que encabeça iniciativa por um isolamento ‘vertical’, no qual apenas idosos e pessoas do grupo de risco ficam em casa.

Uip destaca que o isolamento serve para minimizar os impactos no serviço de saúde. “Se as pessoas não entenderem que esse confinamento, neste momento, é importante, nós vamos ter uma subida rápida do pico de doentes e isso vai ter repercussão em todo o sistema”, afirmou.

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Sintomas. Diagnosticado com Covid-19 na última segunda, 23, Uip relata que a doença é ‘chata’ e como uma ‘gripe seca’. “Eu pouco espirrei, não tenho coriza nos meus olhos, são fatos novos. Mudou meu olfato, mudou meu paladar – são dois sintomas novos que eu já havia vendo nos meus pacientes e estou sentindo agora no dia a dia”.

O médico alerta que a qualquer sinal de falta de ar, o paciente deve procurar imediatamente o sistema de saúde.

Na quarentena, Uip afirma que inicialmente sentiu medo ‘como qualquer outra pessoa’, mas que controlou o sentimento com fé e com paz na alma. E pede tranquilidade aos promotores: “Ainda acho que tenho uma missão a cumprir, eu acho que eu preciso voltar a trabalhar e eu acredito que as pessoas podem ajudar umas às outras. É sofrido? É sofrido. É doído? É doído. Mas nós vamos em frente”.

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