‘É crédito, débito ou Pix?’

‘É crédito, débito ou Pix?’

Vai levar um tempo até a gente ouvir essa pergunta no varejo físico; enquanto o novo sistema de pagamentos ganha força entre pessoas físicas, comerciantes ainda tentam entender a tecnologia

Philippe Katz*

12 de janeiro de 2021 | 06h15

Philippe Katz. Foto: Divulgação

Não há dúvidas de que o Pix está ganhando popularidade entre pessoas físicas. Pouco mais de um mês depois de seu lançamento, o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central já atraiu mais de 46 milhões de pessoas, as quais registraram mais de 10 milhões de chaves de endereçamento em instituições financeiras do país.

Agora, transferir dinheiro gratuitamente para um amigo ou quem quer que seja virou coisa de segundos, a qualquer hora do dia, sete dias por semana.

Basta pedir a chave do usuário para quem você deseja mandar o valor (CPF, celular, e-mail ou código aleatório) e pronto.

Quando falamos de Pix no âmbito da pessoa jurídica, no entanto, a história é outra. O último balanço do Banco Central mostrou que, enquanto 84% das operações de Pix ocorrem entre pessoas, só 6% envolvem transferências de pessoas para empresas e apenas 3% são entre empresas. Quando observado o número de chaves cadastradas, temos somente 5,1 milhões de chaves de empresas em um universo de 116 milhões de chaves no país.

A pouca expressividade do PJ na cena da tecnologia mais inovadora dos últimos tempos despertou algumas reflexões, principalmente entre os early adopters que esperavam sair às ruas e já encontrar o Pix como um método oficial de pagamento em estabelecimentos comerciais. “É crédito, débito ou Pix?”: não, essa pergunta ainda não existe no varejo. Com exceção de uma ou outra rede de lojas fazendo divulgação discreta da tecnologia no ponto de venda, não vemos lojistas preocupados em promover a nova ferramenta.

Isso é natural — e já era esperado. Ao contrário da experiência entre pessoas físicas, que é simples e direta, a mecânica do Pix no varejo físico envolve muitos fatores, como disponibilidade da tecnologia, benefícios percebidos pelo consumidor e pelo varejista, custo da transação, percepção da segurança, entre outros.

São muitas camadas de entendimento que acabam fazendo a adoção do recurso ser naturalmente mais lenta no comércio.

Antes de entrar em cada uma delas, sugiro observar o contexto. Estamos em meio a uma pandemia. O varejo físico ainda tenta, a duras penas, voltar à normalidade. Quem reabriu as portas nos últimos meses se viu obrigado a lidar com velhos e novos tipos de problema, do estoque à higienização redobrada do local, do caixa ao treinamento de funcionários, do preparo para Black Friday e Natal à multa pela lotação da casa, sem falar em funcionários com covid-19. Introduzir um novo método de pagamento ao dia a dia do negócio, portanto, não pôde ser uma prioridade.

Ainda que fosse, não dá para dizer também que a tecnologia está disponível em todo e qualquer dispositivo usado para intermediar vendas no comércio. Várias das maquininhas que hoje capturam transações com cartão ainda estão sendo preparadas para o Pix. É que existem aspectos técnicos a serem considerados aí. Imagine que a maquininha da marca A tem de ser capaz de exibir em sua tela um QR Code que permita ao vendedor receber um Pix na instituição financeira de sua preferência. Isso exige uma integração tecnológica sofisticada entre diversos atores do mercado, o que tem sido feito aos poucos.

Além disso, a cobrança do Pix na atividade comercial começou a ficar mais clara apenas nas últimas semanas, com a divulgação das tarifas por parte de algumas instituições financeiras. O empreendedor do varejo ainda está tentando entender isso.

Nessa nova modalidade de pagamento, o dinheiro sai da conta do consumidor e vai direto para a conta do lojista. O adquirente, que numa transação normal faz a ponte entre a bandeira, o emissor do cartão (banco) e o lojista, fica agora com o papel de exibir o QR Code que vai permitir a transferência. E a tarifa, que antes era um valor fixo dividido entre esses entes, passa a ser destinada apenas ao banco. É um arranjo (em definição) que causa estranhamento, apesar de ficar clara a economia para o lojista — com menos agentes intermediando o processo, não tem como não ficar mais barata a transação, e o dinheiro ainda cai na hora para o comerciante.

Outro aspecto que os empreendedores, principalmente os pequenos, estão tentando compreender é a conferência do recebimento do Pix.

Pense em um vendedor na praia que vende um coco atrás do outro no verão e, às vezes, tem até fila para administrar. Ele vai simplesmente imprimir um QR Code num papel e, a cada venda, abrir o app do banco para ver se o dinheiro caiu e só aí seguir para a próxima? Inviável, certo? O mesmo dilema vivem as empresas um pouco maiores, na qual apenas o dono tem acesso à conta corrente da companhia. Como fazer essa checagem da forma mais prática?

Enquanto essas dúvidas ainda são esclarecidas na cabeça de quem vende, o consumidor aguarda. Segundo pesquisa encomendada pelo C6 Bank ao IBOPEdtm, 45% dos brasileiros querem usar o Pix para pagar produtos e serviços em estabelecimentos comerciais e 53% vão preferir fazer um Pix a usar um cartão. Só a prática confirmará, no entanto.

O Pix, hoje, é um substituto equivalente apenas ao cartão de débito ou ao dinheiro vivo. Quem quiser comprar no crédito à vista ou parcelado para ganhar seus pontos no cartão não deverá ter interesse no novo meio de pagamento.

Já no varejo virtual não há pontos de interrogação. Quem compra com boleto e espera até dois dias para que a mercadoria saia do armazém (mais os dias normais do frete) certamente vai preferir a instantaneidade do Pix. Se o lojista recebe o dinheiro na hora, ele já pode despachar o produto. Está decretada a morte do boleto, sabemos.

O varejo físico não é capaz ainda de fornecer a mesma certeza, até porque a experiência no ponto de venda também vai contar. O que vai ser mais rápido e conveniente: o consumidor vai preferir tirar o cartão da carteira e pagar sua compra, algo com que já está acostumado, ou vai abrir o celular, entrar no app do banco e escanear um código? E, se não fizer diferença nenhuma para o cliente, é o lojista quem vai incentivar o pagamento com Pix? Como? Vai dar desconto no produto? E as bandeiras de cartão, diante da previsão de perda de receita com menos transações em débito, o que elas farão?

Desde o surgimento do comércio online, em meados dos anos 1990, não fazíamos tantas perguntas ao mesmo tempo. Coisas da inovação.

*Philippe Katz, CEO da PayGo, empresa de meios de pagamento do C6 Bank

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