“É covardia falar que o mensalão e a Lava Jato estão mudando o Judiciário brasileiro”, afirma Kakay

“É covardia falar que o mensalão e a Lava Jato estão mudando o Judiciário brasileiro”, afirma Kakay

O mais famoso advogado criminalista de Brasília quer reverter a decisão do STF de liberar a prisão após a 2ª Instância

Fabio Serapião

08 de setembro de 2016 | 10h16

Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, é advogado da ex-governadora Roseana Sarney. Foto: Ed Ferreira/Estadão

Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Foto: Ed Ferreira/Estadão

Aos 58 anos, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, mineiro de Patos de Minas, enfrenta um de seus maiores e mais importantes desafios em mais de 30 anos como advogado criminalista perante o Supremo Tribunal Federal. Além de sua banca administrar a defesa de políticos e grandes empresários – Edison Lobão, Romero Jucá, André Esteves, Aécio Neves, para citar alguns – alvos da Lava Jato, Kakay tenta reverter o cumprimento de ordem de prisão após julgamento pela 2ª instância, segundo ele, em uma tarde modorrenta pelo STF.

Kakay representa o Partido Ecológico Nacional, o PEN, na Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) que terá seu julgamento continuado nesta quinta-feira, 8. Após ter feito sua sustentação oral na sessão anterior, o advogado e vários outros defensores do retorno ao modelo anterior, com prisão apenas após o trânsito em julgado, estarão no plenário para acompanhar os votos dos ministros.

No entendimento do advogado, ao autorizar a prisão após a 2ª Instâcia e “receber as palmas de boa parte da população brasileira”, o STF esquece que “essa decisão vai levar para a prisão milhares de pessoas que não têm defensores ou defendidos pela valorosa Defensoria Pública, não consegue ter a capilaridade necessária”.

A Procuradoria-Geral da República, sua oponente no caso, afirma que uma nova mudança de posição do STF impactaria diretamente na Lava Jato.

Sempre incisivo, Kakay se diz amparado em sua imensa experiência nas Cortes superiores para questionar o modelo de Judiciário que o brasileiro quer para o país e afirmar que a situação atual ‘é muito grave, com supressão de direitos e extinção de garantias conquistadas ao longo da história recente’.

“Isso é muito grave, por que se ele (STF) afastou a presunção de inocência, ele pode acordar de manhã, num dia qualquer e afastar a liberdade de imprensa, afastar o direito da propriedade. São direitos do mesmo patamar”, dispara o advogado.

Em entrevista ao Café com Justiça do Estadão, Kakay falou sobre as expectativas para o julgamento que, segundo ele, envolve o debate ‘sobre qual Judiciário queremos para o país’. Nesse contexto, o criminalista classifica como ‘fascistas’ algumas das 10 Medidas Contra a Corrupção propostas pelo Ministério Público Federal, ataca as delações assinadas pela Lava Jato e responde ao chamado do ministro Luis Roberto Barroso, do STF, que em entrevista ao Estadão apontou a necessidade de revolucionar o Judiciário brasileiro.

“Todos nós queremos fazer uma revolução no Judiciário, mas é preciso perguntar: que país queremos e que Judiciário queremos? Um Judiciário garantista, que mantenha as conquistas individuais, que não flexibilize a presunção de inocência ou pelo menos até a reforma absoluta dos presídios brasileiros, onde o enfrentamento do Direito se dê com a ampla defesa, com a prova ilícita banida, tendo a dignidade da pessoa humana como base. Queremos uma revolução que se dê com os olhos no cidadão.”

Leia a íntegra da entrevista com Kakay:

Estadão: O sr. atua há muitos anos como defensor de políticos, grandes empresários e agora também na Lava Jato e é um dos principais críticos dessa operação. Qual o motivo dessas críticas à Lava Jato?

Kakay: Em primeiro lugar, acho a operação importantíssima. Acho que para o Brasil será um marco interessante. Eu não sou um crítico da Lava Jato em si, sou um crítico dos excessos da Lava Jato e da forma como algumas questões são levadas. Eu costumo dizer que não permito que procurador algum, juiz algum ou membro do Ministério Público e da polícia venha dizer que quer combater a corrupção mais do que qualquer pessoa, mais do que você, mais do que eu, mais do que a pessoa comum que está acompanhando o processo. O que interessa saber é como é feito esse enfrentamento, que país vai sair depois da Lava Jato, sob o aspecto do enfrentamento da corrupção. O enfrentamento que eu quero e acho que as pessoas que têm uma visão garantista do mundo e humanista do mundo querem é o enfrentamento dentro dos devidos processos legais, dentro da Constituição. Agora, o enfrentamento a qualquer custo, com essa espetacularização do processo penal, com a criminalização de todas as condutas, fez do país um país punitivo, monotemático. Então, eu acredito que esse enfrentamento vai fazer que o país possa sair em alguns pontos, um país obscurantista. Então, eu não sou um crítico da Lava Jato, eu sou um crítico por conhecer e conhecer razoavelmente bem, um crítico dos excessos. São muitos os excessos. A prisão preventiva virou a regra. Em qualquer país civilizado do mundo, a prisão preventiva não é a regra. No Brasil você vê hoje a prisão preventiva altamente banalizada. Você tem um próprio membro do Ministério Público que reconheceu que a prisão é feita para obter delação, é claro que isso é inconstitucional, isso é ilegal, isso é desumano. A base do processo penal brasileiro é a dignidade da pessoa humana. Então, a partir do momento que você tem uma operação que chega a admitir que tem prisão para delação, você entende, qualquer cidadão de bem há de entender, que alguma coisa está errada. Eu comento, elogio a Lava Jato, mas tenho como obrigação como cidadão e advogado de cometer essa imprudência de criticar.

Estadão: Essa sensação de que existe uma investida punitiva não se deve ao fato de que antes da Lava Jato, tirando o caso do Mensalão, esses tipos de crimes não eram punidos?

Kakay: Eu discordo, eu acho que, na realidade, há um excesso de espetacularização dessa operação. Existia um princípio de paridade entre acusação e defesa. Hoje não existe mais isso. Evidentemente, quando eles deflagram uma fase da operação, o Ministério Público e a polícia chamam a imprensa nacional e, durante duas horas, expõe aquela operação de uma denúncia que está sendo oferecida e nem réu o cidadão é. Se fosse já não poderia, mas nem réu é. Mostra os detalhes da vida dele, mostra o whatsapp e isso é pra que? Isso é para pré-julgar o cidadão. Primeiro para pré-julgar aquele que está sendo acusado e, segundo, para jogar o Poder Judiciário contra a sociedade – se o Poder Judiciário tiver a coragem de tomar uma decisão garantista, vai parecer que está sendo leniente de alguma forma. Então, assim eu entendo que todos esses excessos têm que ser denunciados. Isso não significa que a operação toda é absolutamente negativa, eu nunca disse isso. Ao contrário, ela é uma operação extremamente importante. Mas se você tem um excesso de delações, sessenta e tantas delações numa operação, uma delação que claramente a gente vê que tem gente protegendo gente. Eu tive um caso: o primeiro delator citou um cliente meu e disse que quem tinha entregado o dinheiro foi outro delator, esse outro delator disse: “Eu nunca entreguei dinheiro”. Ainda assim o inquérito ficou aberto dois anos, só agora o Ministério Público pediu o arquivamento. Como é que você pode ter dois delatores que falam coisas contraditórias, sendo que a base da delação é a espontaneidade? O cidadão preso não deveria poder fazer a delação, claro que perdeu a espontaneidade, se você tem um delator que diz coisas diferentes do outro, alguém está mentindo. Eu não acho que tenha essa sanha punitiva, eu acho que, infelizmente, algumas pessoas extrapolam, viraram pequenos heróis. Triste um país que precisa de um herói. Um país não precisa de heróis, precisa do cumprimento das leis. Hoje nós temos, por exemplo, a ousadia de parte do Ministério Público em apresentar esses tais projetos de moralização. São projetos atrasados, tacanhos, retiram o direito e nem lealdade intelectual eles tiveram. Disseram que apresentaram dois milhões de assinaturas. Eu duvido que 0,1% daquelas pessoas que assinaram leram o projeto. É claro que não leram. Isso é falta de lealdade intelectual. Acho que falta lealdade, seriedade em relação a uma questão muito séria, que é o destino desse país. Eu quero enfrentamento, mas eu quero com o devido processo legal, quero poder fazer a defesa. Para você ter uma ideia, antigamente, o bom jornalista tinha que ter uma fonte na advocacia, hoje, o advogado tem que ter uma fonte no jornalismo. Eu fico sabendo dos meus casos pelos jornais, pelo blog e pela imprensa como um todo. A intimação se dá pelo Jornal Nacional. Então, isso é muito sério. Eu sempre digo o seguinte: a vida dá, nega e tira. As pessoas como um todo estão achando muito bom, por que tem uma série de pessoas poderosas sendo processadas, presas, com prisões às vezes absurdas, por tempo desnecessário, absolutamente desnecessário. Mas esse recrudescimento ele é capilarizado, você vai ter o juiz lá do interior de Minas, o juiz no interior do Maranhão, que vai querer também aparecer. Por que não? Vai querer virar herói nacional. Então esse direito vai, no meu ponto de vista, perdendo o seu espaço garantista. O que eu estou dizendo de garantias mínimas, individuais e constitucionais são garantias que foram incorporadas à civilização durante séculos, não estou falando de coisa que foi conseguida só na Constituição de 1988, não. Para chegar na Constituição de 1988 foram anos e anos de evolução, de iluminismo. Estamos em um estágio perigoso, espero que saia um país melhor, sem dúvida nenhuma.

Estadão: Os procuradores da Lava Jato dizem que ou o combate à corrupção melhora, com aprovação do projeto 10 Medidas ou piora com aprovação de leis no Congresso. Como a Lei de Abuso de Autoridade, limitação da delação e por aí vai. O que o sr prevê?

Kakay: Quem é contra a Lei de Abuso a Autoridade é porque comete algum abuso. A lei não é contra a autoridade, a lei é contra o abuso. Essa lei é necessária, as pessoas desconhecem a lei. Essa lei que foi reapresentada agora pelo senador Renan Calheiros e, por isso, criou toda essa celeuma, é uma lei de 2009 apresentada pelo Raul Jungmann, após a discussão do pacto federativo. Quem participou da redação do projeto idêntico ao que foi apresentado agora foi, inclusive, o ministro Teori Zavascki. Isso que algumas pessoas fazem da crítica dessa lei é um fascismo. Eles têm, talvez, medo pelos excessos que cometem. E chegam, no meu ponto de vista, a ser desleais com quem desconhece, dizendo que esse projeto é um projeto de agora, que quer impedir o avanço da Lava Jato. Em 2009, nem existia Lava Jato. As pessoas precisam parar de pensar, principalmente alguns procuradores, que só existe Lava Jato no mundo. Existe literatura, existe vida familiar, existe alegria simples das pessoas do dia-a-dia e existem pessoas que procuram o Judiciário e não encontram o Judiciário. A maior balela, a maior covardia é falar que o Mensalão mudou o judiciário brasileiro, que a Lava Jato está mudando. Claro que tem avanço, mas pergunta para o cara do interior de Minas Gerais, que não tem nem juízo, se mudou. Entre com um processo no Foro de São Paulo, para esperar três, quatro, cinco meses para ter uma distribuição, tente uma liminar em alguns tribunais no Brasil, às vezes, absolutamente necessária para sua vida e espera cinco, seis, sete meses para ser recebido por um juiz. Porra, vamos ter humildade. Vamos ter a tranquilidade de ver assim: cada um faz o seu papel. É importante que faça. Tem um episódio interessante: quando veio o AI-5, perguntaram para o Pedro Aleixo (vice de Costa e Silva), por que ele era contra o AI-5, se ele podia estar de alguma forma duvidando do presidente da República, ele disse: “Eu não tenho medo do presidente da República, eu tenho medo do guarda da esquina”. Então, falta um pouco de conhecimento histórico. Essa é uma questão que tem que ser discutida.

Estadão: Mas o fato é que há um embate entre aqueles que defendem as dez medidas e os que são contra e defendem algumas reformas dessas leis penais. O sr, com a experiência que tem, se arriscaria dizer qual será o futuro em relação a isso?

Kakay: Não, eu não daria tanta importância para essas dez medidas. Esses procuradores se sentiram importantes demais pela mídia que teve. Você tentar criar um teste de integridade, isso é de um fascismo inacreditável. Me espanta ter uma pessoa, que tem a cultura que essas pessoas têm, de defender essas medidas ou mesmo de defender o uso de prova ilícita. Isso nem o (juiz Sérgio) Moro defende. O uso de prova ilícita ‘se for de boa fé’, o que é boa fé? Boa fé é um procurador que acha que está salvando o mundo? Boa fé é um policial federal que acha que ‘vou fazer o melhor para esse país, eu vou plantar uma prova ilícita ali, que eu sei que o cidadão é desonesto’ ?. Isso é boa fé? Isso é retrocesso. É absolutamente retrocesso. E eu insisto: essas coisas se voltam contra o cidadão comum. Por que quando você faz uma lei, e com essa falsa promessa de que a lei é feita para atingir o corrupto tal, é a mesma lei que vai ser usada contra a pessoa simples do interior do país. Esse endurecimento das leis penais não serve para absolutamente ninguém, salvo aqueles que acham que são os donos da verdade, que propõem prova ilícita ser validada. Isso é o retrocesso do retrocesso. Várias coisas na lei: prisão obrigatória… Então, nós estamos vivendo um momento em que, no meu ponto de vista, falta uma discussão um pouco mais serena. Nem um lado está completamente certo, nem o outro está completamente certo. Nós não devíamos dividir o país desta forma. Nós temos que entender que, aquele que pensa diferente de mim, não é meu inimigo. Eu não sou inimigo de ninguém. O Brasil não aguenta essa chaga da corrupção como está. Agora, como fazer esse enfrentamento? Validando prova ilícita? Validando a hipótese de você fazer algumas questões propostas na lei como a prisão quase obrigatória? Eu não quero isso, acho que o Brasil tende a sofrer muito com esse endurecimento e é importante essa reflexão: dizer que é para fazer isso que é para enfrentar os grandes processos de colarinho branco, é falso. Essa lei servirá para todas as pessoas.

Estadão: O fato é: pela primeira vez na história o direito penal alcançou o poderio econômico, político, como nunca tinha alcançado. O sr pondera que não são as 10 Medidas, não é isso que vai resolver. Qual seria o caminho?

Kakay: Eu tenho uma preocupação e faço uma reflexão desde um julgamento que fiz no Supremo há 15 anos, muito antes desse momento brasileiro. No julgamento, o dr. Cláudio Fontelles (então procurador-geral da República) pediu a manutenção de prisão de um empresário, porque ele era um empresário que tinha um bom relacionamento com as pessoas, era poderoso. Eu fui pra tribuna e disse: ‘Olha, até pouco tempo atrás eram presos os pobres, putas e pretos. Pelos mais tacanhos motivos, pelo cidadão não ter um lugar digno de moradia e tal e tal, e agora começam a prender as pessoas por elas serem detentoras de um certo poder econômico, ou detentora de um poder político’. Eu não quero nem um nem outro. Eu quero que a lei seja aplicada com igualdade e, se a pessoa cometeu o ilícito, seja ela pobre ou não. Existe um Brasil real que tem quer ser enfrentado. Eu tenho muito medo dessas medidas que se dispõem a dizer que são as salvadoras da pátria. O Brasil não vai mudar por isso, vai piorar em alguns pontos. ‘Não, mas eu quero moralizar, na boa fé eu posso tudo’. Ninguém pode tudo, nem o poder pode tudo. Dalberg-Acton já dizia em 1934: “Todo poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente”. Infelizmente, é o que nós temos visto, e é natural que o cidadão comum tenha certo regozijo íntimo quando vê a prisão de um poderoso econômica ou politicamente. Só que a vida dá, nega e tira. Se você hoje afasta o direito de um cidadão, pergunta se ele teve o seu pleno direito garantido, se o advogado dele teve acesso ao processo dele. Eu brigo às vezes para ter acesso ao processo. Os clientes podem ser presos sem que o advogado tenha acesso ao processo. Então, se isso acontece com a pessoa que tem poder, você imagina o que acontece em uma cadeia no interior do Piauí, onde as pessoas podem ficar presas indefinidamente, muito além do tempo que deveriam estar presas, e não têm acesso ao Poder Judiciário. Eu acho que esse é o falso debate.

Estadão: O sr, dentro do campo da Lava Jato, é crítico ao modo como as delações têm sido utilizadas. O sr não tem clientes que são delatores. É uma questão pessoal? Isso é uma questão técnica, qual a sua relação com a delação?

Kakay: É uma série de fatores, acho que a delação premiada é um instituto extremamente importante no combate do crime organizado. É um instituto necessário, mas a forma… Eu tenho dificuldade pessoal com a delação. Primeiro, que eu acho que conheço boa parte das delações e dos delatores e, quase todos mentem, mentem muito e mentem deliberadamente. Mentem para proteger, mentem porque pedem algumas coisas. Numa delação, quem está sob investigação não pode pedir para falar com alguma pessoa, a pessoa tem que ser espontânea e falar aquilo que sabe, para tentar terminar um determinado crime já acontecendo ou que tenha acontecido. Então, no meu ponto de vista, na maioria não tem espontaneidade, existe uma pressão violenta para as delações, há uma discussão grave a ser feita. Você pode ter o mesmo advogado atendendo dez delatores? Ele tem informações privilegiadas, você pode fazer isso? O delator que é pego mentindo em uma mentira absurda como essa que citei, que um contrapõe ao outro. Eu fiz uma provocação, pelo Estadão e, por incrível que pareça, o Ministério Público pede uma acareação entre os dois delatores. Esse é o fim do instituto da delação. É a negação do instituto da delação. Além do que, eu acredito que existe um poder excessivo por parte dos investigadores das delações, que ao que tudo indica, escolhem temas específicos. Tivemos agora um caso gravíssimo. Nós temos a delação daquele sr Sérgio Machado, que fez gravações ilegais e imorais, não sei se houve ajuda ou não de algum agente público. Fiz uma petição em nome do presidente Sarney, pra ver se consigo descobrir isso. Aí você tem um pedido de prisão, mas aí vazam. Vazam pra que? Pra poder fazer um fato consumado, pra humilhar a pessoa ou para pressionar o poder judiciário, é muito grave. E mesmo com esse vazamento, depois, concedem ainda assim, o direito de delatar desse cidadão. Esse cidadão hoje, está morando na casa dele, com todo conforto, não apresentou nenhuma prova, o pedido de prisão foi um pedido totalmente desfundamentado. Toda delação importante no Brasil é vazada. Isso é grave! Eu posso te dar a certeza, todo vazamento é direcionado, criminoso e tem um objetivo. Qual é o objetivo? Não sei. É caso a caso. Então, delação virou um instituto que tem que ser aprimorado. Eu não sou contra a delação… Eu pessoalmente, não acompanharia como advogado a princípio uma delação por vários motivos. Esses delatores principais, falariam de várias pessoas que eu fui advogado ou que eu sou, às vezes, sem nenhum tipo de prova, sem resquícios de prova, e a palavra do delator no Brasil passou a ter foro de verdade absoluta. Isso também não pode acontecer. Se a pessoa faz uma delação e cita uma autoridade, ainda que não tenha absolutamente nada contra aquela autoridade, essa palavra por si só passa a ser verdade, ao ser colocada na imprensa através de um vazamento. Então, eu tenho muita crítica ao instituto delação, como eu tenho crítica ao excesso de prisão, como eu tenho crítica a banalização da prisão preventiva, o excesso de tempo nas prisões preventivas.

Estadão: Os procuradores dizem que, de certa forma, a delação é um caminho importante para combate o crime organizado.

Kakay: É o que diziam na Inquisição quando praticavam tortura. Era a única forma que se tinha para chegar a uma verdade. Eu penso que é possível que nós habitemos uma sociedade organizada, digna, onde se preserve a dignidade da pessoa humana. Eu, se tiver que abrir mão dos direitos e deveres individuais, para poder, na visão de alguns, chegar de forma quase justiceira a uma verdade encomendada, eu prefiro ser um crítico e ficar sozinho, não tenho nenhuma preocupação em relação a isso.

Estadão: O que vem pela frente, pós Lava Jato? Como vê o amanhã para o Judiciário?

Kakay: É o que eu digo, como fazer esse enfrentamento vai definir como o país se sairá. O país definido, vai definir como nós sairemos de tudo isso, seja como advogado, seja como cidadão. O que acontece no Brasil de hoje nessas operações espetaculares? Você tem um legislativo completamente investigado, o legislativo está acuado, sem ocupar o espaço que deveria estar ocupando. Veja bem, eu acho que tem que ser feita a investigação sim, contra quem quer que seja e, se for o caso, pode ser um senador, um deputado, qualquer pessoa, mas tem que ter um tempo rápido. Tem que ter uma competência pra fazer isso. Você ter um poder acuado por 2 anos, 3 anos, é extremamente negativo, até para a estabilização democrática. Você tem um executivo que está aí do jeito que está. Uma presidente incompetente que não falava com absolutamente ninguém, que não ouvia ninguém. No meu ponto de vista, não cometeu crime de motivo para impeachment, infelizmente ou felizmente, nós não podemos ter um impeachment como forma de tirar a incompetência, é muito grave o impeachment. Então você tem o executivo completamente paralisado e então você passa a ter um super Judiciário. Você passa a ter um super judiciário por não haver vácuo de poder. Então o judiciário passa a ter um ativismo que eu me preocupo. Eu sempre digo o seguinte, mesmo o Supremo Tribunal pode muito, mas não pode tudo. Então você tem um Supremo Tribunal, em uma tarde modorrenta, ao julgar um habeas corpus, afasta a presunção de inocência, que era um instituto, no meu ponto de vista pétreo, que não poderia ser afastado pelo Supremo. O Supremo ao afastar aquele instituto, e receber as palmas de boa parte da população brasileira, que quer ver preso 20, 30 pessoas, esquece que na realidade essa decisão, vai levar pra prisão milhares de pessoas que não tem defensores ou defendidos pela valorosa Defensoria Pública, não consegue ter a capilaridade pelo serviço inteiro. Isso é muito grave, por que se ele afastou a presunção de inocência ele pode acordar de manhã, num dia qualquer, e afastar a liberdade de imprensa, afastar o direito da propriedade. São direitos do mesmo patamar. Eu tenho muita preocupação nesse momento que você tenta, ou uma parte da sociedade, quase de maneira inconsciente, meio indizível, tenta fazer dessa aparente briga que existe entre as pessoas que querem mudar a qualquer custo, com aprovação de prova ilícita, com prisão obrigatória e outra parte que quer mudar e quer fazer uma discussão pelo menos razoável pela dignidade da pessoa humana e seus direitos individuais. Eu tenho muito medo que nessa espetacularização, nós tenhamos aprovado projetos que, no meu ponto de vista, privam direitos do cidadão. E não é do cidadão que tem acesso a advogados e a banca da advocacia e a imprensa pra falar das suas mazelas. É do homem simples, é da pessoa comum. Na capilaridade da aplicação desse direito, não tenha dúvida, quem mais sofre são as pessoas que não tem acesso, sequer a Defensoria Pública.

Estadão: Então, eu posso dizer que o nosso futuro está atrelado a como ficará essa equação sobre o tamanho dos poderes?

Kakay: Passa por isso. A máxima da divisão dos poderes de Montesquieu nunca foi tão atual como na visão do Brasil agora. Você tem um Legislativo dilacerado, você tem um Executivo sem rumo e um poder Judiciário totalmente preponderante sob os demais. Agora, mais do que isso, quero ver como a sociedade vai se portar. A sociedade tem que parar de acompanhar a vida real como se fosse um filme. Tem que parar de aplaudir os excessos. Tem que parar de quase se vingar da pessoa que está sendo investigada. Tem que olhar pra si próprio no dia-a-dia: a vida dele familiar, a vida dele no trabalho. É muito simples estar na sua casa, às vezes com a vida difícil economicamente falando, torce pro Atlético Mineiro, ou seja, você é um cara infeliz. Está em casa e, de repente, vê uma pessoa poderosa economicamente sendo presa; você tem um prazer íntimo, indizível, e que pode acobertar uma série de excessos. Eu quero todos os enfrentamentos e a independência dos poderes. Admiro o trabalho do Ministério Público e critico os excessos. Admiro o trabalho da Polícia Federal e critico os excessos. Veja só, vou te contar uma história, você vai ver como às vezes há grandes evoluções que não são detectadas. Eu fui levar, nos anos 1990, no governo do Fernando Henrique, um grande empresário para depor. Eu perguntei a um delegado na Bahia: “Quando o sr vai relatar o inquérito?” Ele disse: “Eu vou ouvir o governador, e vou relatar”. Eu liguei pro Márcio Thomaz Bastos e disse: “Seu cliente vai ser ouvido” – o governador era o Antônio Carlos Magalhães. O Márcio liga pro Antônio Carlos Magalhães que diz: “O quê, tem um delegado que queria me ouvir?”. (ACM) Ligou pro ministro da Justiça e falou: “O delegado tem 2 horas para sair dos limites da Bahia ou eu vou prendê-lo, algemá-lo e ele vai andar no pelourinho com a Polícia Militar”. No outro dia, eu estava aqui na Polícia Federal em Brasília e encontrei o delegado e perguntei: “E aí? Ouviu o governador (eu sabia que não tinha ouvido)”, “Não, acabei saindo do caso”. Então, olha que avanço que nós tivemos, hoje em dia você tem um Polícia Federal independente – e é bom que seja assim-, você tem um Ministério Público independente, mesmo com os excessos que produz. Eu prefiro mil vezes um Ministério Público que produz em excesso, do que na época que não existia investigação. Do que a época em que tudo era resolvido entre quatro paredes. Então eu acho que nós avançamos. Só que eu já tenho uma experiência razoável, por isso a barba branca, que os avanços podem ser feitos sem exageros, sem arroubo de pessoas que acham que estão usando a boa fé para tornar lícita a prova ilícita “por que eu vou salvar o mundo”. Não é assim que se salva o mundo, eu prefiro que tenhamos a tranquilidade e fazer os enfrentamentos corretos, dentro da constituição e respeitando a dignidade da pessoa humana.

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