E agora, José?

E agora, José?

Célia Parnes*

26 de agosto de 2019 | 06h53

Célia Parnes. Foto: Luiz Vicente Pereira/SEDS

José (nome fictício) comenta, com certa desenvoltura, a resistência inicial em participar de um grupo socioeducativo de apoio a homens autores de violência doméstica contra mulheres.

Casado há 35 anos, avô de três netos, agrediu a esposa enquanto passava por uma crise financeira. Tenta se justificar, dizendo que também foi agredido.

Denunciado pela companheira de toda uma vida, foi enviado pela Justiça a um grupo de apoio, como forma de garantir sua “recuperação” plena e não somente visando à sua punição em termos legais.

Nosso José faz parte de uma geração de homens criados para não demonstrar fraquezas ou fragilidades, nem nada que remeta a características como delicadeza, impermanência, vulnerabilidade.

Daquela geração ensinada a não levar desaforo para casa, a não chorar.
Como se, ser mulher, fosse sinônimo de tudo que o homem não pode ser.

Infelizmente, ser homem, ao longo da história, sempre significou força bruta, potência. As mulheres, em números assustadores, têm sido vítimas de seus companheiros. E, seus filhos, marcados emocionalmente para a vida, envolvidos que se veem com o ciclo da violência.

José é exemplo disso e tem consciência. Mas a decisão judicial o fez enfrentar a mudança que ele entende que foi de dentro para fora.
“No começo, tive preconceito. Depois, vi que não era nada daquilo. Hoje, mesmo quando me tiram do sério, eu não revido, não me altero. Eu espero que sigam o meu exemplo e não cometam mais esse erro”, relata orgulhoso.

José nunca havia discutido masculinidade saudável. Mas, agora, quer servir de exemplo para os novos membros do grupo.

O caso de José e de outros José serão apresentados durante o 1º Seminário Estadual Sobre Masculinidades, violência, discriminação, gênero, novos paradigmas, afetividade e ações socioassistenciais, promovido pela Secretaria de Desenvolvimento Social nesta segunda-feira, dia 26/08, no Memorial da América Latina.

O objetivo é debater a violência social, as relações de gênero, a partir do conceito de masculinidades, e reforçar as experiências bem-sucedidas de iniciativa do poder público e da sociedade, com vistas à promoção de uma cultura de paz.

A verdade é que passou da hora de discutirmos esse assunto. O seminário é uma oportunidade para trazer à tona temas como violência na sociedade e suas marcas de gênero, masculinidades saudáveis, programas e iniciativas setoriais no Estado de São Paulo, feminicídio e direitos humanos.

As relações desiguais entre homens e mulheres e a prática violenta do masculino sobre o feminino é um ciclo difícil de ser rompido.

O aumento nos casos de feminicídio nos leva a refletir e, mais do que isso, nos faz agir. Nossa missão na Secretaria de Desenvolvimento Social, e que nos foi lançada pelo governador João Doria, tem por finalidade fortalecer a política de Assistência Social no Estado de São Paulo em parceria com os municípios e as organizações sociais.

Temos disponíveis inúmeros serviços para atender, acompanhar e fortalecer a autonomia individual e familiar das vítimas da violência social.
Mas ainda necessitamos ampliar as ações de prevenção para romper o ciclo da violência, viabilizar os canais de denúncia e ofertar serviços especializados para o atendimento das vítimas, entre elas as mulheres e seus filhos.

Sabemos que é preciso reforçar a atenção sobre os agressores com atendimento adequado para ajudá-los a compreender a si próprios, seus conceitos e atitudes.

Normalmente, são homens marcados por referências masculinas violentas, sem qualquer outro tipo de exemplo. São igualmente vítimas de um ciclo de violência vivido desde a infância. Por isso, lançamos nosso olhar também sobre ELES e como ajudá-los a repensar suas ações.

O 1º Seminário Estadual Sobre Masculinidades será mais uma oportunidade para debatermos a masculinidade saudável como uma das chaves para rompermos com esse ciclo de violência. Afinal, diferentemente do poema de
Carlos Drummond de Andrade E Agora, José? não queremos que a festa acabe e nem que a luz apague.

*Célia Parnes é Secretária de Estado de Desenvolvimento Social de São Paulo

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