E a vacina contra o ódio?

E a vacina contra o ódio?

José Renato Nalini*

13 de agosto de 2020 | 07h30

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O mundo está ansioso pela vacina contra a peste. Pode parecer que a maioria está em desabalada fuga, voltando ao que seria normal e ignorando as mil mortes diárias, mas o pesadelo é contínuo. Ilusório acreditar que o pior já passou. Não há como deixar de se comover com a partida de famosos e de anônimos, de velhos e de moços. A volta às aulas nos Estados Unidos fez crescer, assustadoramente, o nível de contágio em crianças. Os profissionais da saúde estão extenuados e a morte de médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, atendentes e outros que ficaram na trincheira não é fator que tranquilize a categoria e menos ainda seus familiares.

A vacina é considerada a solução infalível. Nem se queira admitir a possibilidade de ser insuficiente para garantir eterna imunidade. Além do risco de se contrair novamente a Covid19, o vírus mutante voltará, inevitavelmente, forma de contribuição para reduzir a densidade populacional do planeta.

Ameaçada por uma calamidade perversa, que é democrática ao eleger suas vítimas, a humanidade se comoveu e arregimentou inteligências para a fabricação do remédio que, inoculado nos corpos sãos, os deixaria livres de contrair a moléstia fatal. Válidos e urgentes os esforços. À evidência, melhor sucedidos em países que não descuidaram da ciência, o que não é o nosso caso. Aqui, o tempo é prioritariamente voltado à disseminação de tolices e de manifestações de ignorância.

Os pesquisadores brasileiros são heróis não reconhecidos. Os cérebros são recrutados por institutos estrangeiros que valorizam a busca de fórmulas de resolução dos problemas humanos e os que permanecem aqui, não recebem o mínimo estímulo necessário. É milagre o que se consegue fazer, diante da incompreensão generalizada de sucessivos governos.

Não é incomum que se considere o investimento em pesquisa algo que vai sustentar uma “classe ociosa” de quem fica nos laboratórios, horas, dias, semanas e meses, até anos seguidos, em busca de respostas.

Os espaços nas mídias são reservados aos políticos. Às fofocas e boatos. Às articulações partidárias para salvar Fundos Eleitorais, para realizar eleições em meio à pandemia, para contemplar a famigerada reeleição, elemento nefasto que só tem produzido aflição e desgraça para esta Nação.

Milagrosamente, surgem exceções no pântano da mediocridade. Uma geração espontânea de cientistas que não desistem. Não contam com aplauso, nem reconhecimento. Mas continuam a senda predestinada a salvar vidas, a reduzir males, a tornar mais humana a vida dos semelhantes.

Há quem acredite que após a Covid19 o mundo será outro. Seria um novo milagre. A matéria-prima de que é feita o ser racional é muito frágil. Vulnerável às influências maléficas. Ávida por gloríolas, por poder, ambiciosa e materialista, egoísta e narcisista.

O efeito manada é manifesto para o que em nada testemunha a ficção da perfectibilidade humana. As certezas empacam na irrelevância das falsidades e os consensos revelam a pobreza de convicções equivocadas, mas persistentes.

Enquanto se aposta a corrida para chegar ao pódio da vacinação exitosa, constata-se a insuficiência das seringas. Como inocular a salvação em duzentos e doze milhões de pessoas?

Todavia, é uma questão menor diante de um fenômeno incontestável. O que falta mesmo ao Brasil é descobrir uma vacina contra a ignorância, lamentavelmente nutrida por um crescente ódio. Ele sempre esteve aqui, disfarçado na dissimulação, ou é doença recente?

A verdade é que, a despeito de estar sujeita à insidiosa inclemência de um vírus que mata por atacado, a sociedade tupiniquim não arrefece em sua exibição de insensibilidade. Não se generalize, é óbvio. Mas as ofensas, as difamações, o humor ácido, cáustico e preconceituoso, a zombaria e o deboche, continuam a habitar nossas redes sociais. Destroem-se reputações, presume-se a má-fé, acusa-se sem prova e sem contraditório, inocula-se a maldade e semeia-se a ira.

Os maus exemplos são tantos, que se poderia concluir, até de forma herética, ter sido um fracasso o projeto humano. Nossa trilha está a indicar escala ascendente rumo ao aprimoramento das almas? Há sinais de avanço ou de retrocesso?

Quando chegará o dia da descoberta de uma vacina contra o ódio e outros instintos que debilitam a crença de que somos de fato racionais?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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