É a economia, não (apenas) finanças

É a economia, não (apenas) finanças

Luiz Augusto Ferreira Magalhães e Mathias Schneid Tessmann*

18 de setembro de 2020 | 11h20

Luiz Augusto Ferreira Magalhães e Mathias Schneid Tessmann. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Ao andar pelas ruas em tempos de pandemia, uma paisagem peculiar chama a atenção tanto pelo grau de contágio. Placas de “aluga-se”, “vende-se” e “passo o ponto” convivem juntamente a vendedores e atendentes à espera de clientes. Por todos os lados, a cada dia que passa, a ausência de demanda é sentida na pele dos comerciantes e as cicatrizes da incerteza econômica se manifestam de forma vívida em seus rostos.

Para tentar contrabalancear os efeitos das medidas de distanciamento social imposta pelos governos regionais do país, o governo federal tem adotado esforços fiscais. Apesar de serem necessários, é preciso ter em mente que tais medidas visam atacar o problema financeiro mais imediato que acomete tanto as empresas quanto as famílias. Quando o dinheiro em caixa destinado a cumprir as obrigações deixa de entrar, e é isso que as políticas visam mitigar. A boa notícia é que, apesar da situação fiscal delicada deixada por governos anteriores, os esforços têm sido muito grandes. Mas a má notícia é que o problema é mais amplo.

O que ocorre é que o problema vai além da falta de dinheiro disponível para honrar compromissos financeiros. O distanciamento social impede ou dificulta que certas atividades sejam exercidas, sobretudo aquelas que são intensivas em trabalho humano, isto é, dependentes da presença das pessoas em um local específico. Quando uma crise interrompe, além do fluxo monetário entre as pessoas, mas também a capacidade de produzir os calçados a serem transportados por serviços de frete e vendidos na loja do bairro, significa menos produtos nas prateleiras. Como bem sabido, menos produtos significam, em geral, preços mais altos[1].

Outro ponto importante é o de que o impacto das medidas não é homogêneo, e sim, alguns setores de atividade sentirão mais a tempestade. Além da capacidade de produção reduzida, como os casos citados anteriormente, a redução da demanda também traz efeitos deletérios. A impossibilidade de realizar shows ao vivo, e a redução drástica no número de viagens e consequentemente da necessidade de acomodações fazem com que os os setores de alojamento (hotéis, pousadas, etc.) e atividades artísticas (shows, exposições, etc.) tenham maior perda agregada com as medidas de isolamento. Enquanto isso, setores como atividade imobiliária, construção, tiveram quedas muito mais suaves. Algo não muito comum, mas que vale a pena ser citado é que existem setores que inclusive irão crescer, como é o caso da saúde pública, da educação pública e da administração pública.

Além de setores, a heterogeneidade afeta também as regiões do país. As economias das regiões Sul, Sudeste, e Nordeste são as mais afetadas, enquanto que as regiões Centro-Oeste e Norte são as menos afetadas. A causa de tais diferenças se deve, em boa medida, à composição produtiva de cada região, que implica em diferentes especialidades produtivas, diferentes relações entre os setores, e diferente alocação de mão-de-obra. Em geral, regiões que estão mais vocacionadas ao agronegócio e à administração pública tendem a ser menos afetados pela crise.

Logicamente, os resultados estimados dependem das premissas usadas na hora de estimar os impactos, mas o fator comum às pesquisas realizadas sobre o tema é que precisamos aceitar que o isolamento social não pode ser uma estratégia definitiva de combate à pandemia, mas sim uma ferramenta. Uma ferramenta que serve para que todos nós, restaurantes, escolas, etc., possamos ganhar tempo e nos readaptarmos para o que pode ser seguramente um dos maiores desafios dos nossos tempos.

[1] Obviamente não podemos nos esquecer de que existem efeitos nos demais setores de atividades e ao longo do tempo.

*Luiz Augusto Ferreira Magalhães, doutorando em Economia de Empresas pela Universidade Católica de Brasília e pesquisador visitante no Instituto de Pesquisa Economia Aplicada

*Mathias Schneid Tessmann, assessor acadêmico, pesquisador e professor no IDP. Doutorando em Economia de Empresas com ênfase em Finanças pela Universidade Católica de Brasília

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