Durmam com os anjos, brasileiros

Durmam com os anjos, brasileiros

Paulo Gontijo*

12 de julho de 2020 | 09h00

Paulo Gontijo. FOTO: DIVULGAÇÃO

Todas as noites, antes de dormir, Cora me pede uma história ou estória nova. Ao contrário da irmã, que sempre quer escutar a mesma, Cora testa minha criatividade seja lançando um personagem ou um tema; e eu que me vire para dar conta do que virá seja uma aventura da Barbie, um panda ou algum super herói. Histórias tem esse poder, nos transportam para um futuro ou passado, nos aproximam do nosso grupo de pessoas às quais afetivamente nos ligamos e, principalmente nos dão esperança e ânimo.

“Nós temos 15 semanas para mudar o Brasil”

Minhas histórias são curtas e possuem sempre alguma moral simples, então normalmente me saio bem. O diabo é quando a imaginação trata de falhar, aí acabo apelando para alguma história antiga. Como percebi que a minha filha mais velha começou a exercer seus dotes ficcionais, principalmente nas brigas com a irmã; resolvi ensinar uma lição nesse fim de semana e contei “Pedro e o Lobo”. Óbvio que eu não lembrava se o menino morria ou não no fim, então atenuei a história. Mas a mensagem principal foi passada; e é tão simples que uma criança de 3 anos entende com facilidade. É uma história sobre reputação, sobre confiança, sobre um vínculo difícil de se construir e muito fácil de se quebrar.

“Há um ano, aqui, disse a eles para confiarem na democracia brasileira para aprovar as reformas. Tudo correu como esperava”

Depois de colocar as meninas para dormir, vi a entrevista do Ministro Paulo Guedes na CNN e voltei à história de Pedro. Como a minha filha, nosso ministro parece acreditar no poder reconfortante das histórias. Ele também não parece ter muita clareza de proporções ou dos impactos que o excesso de fantasia na nossa vida pode trazer. Guedes é um homem feito, conhecido no meio liberal por suas palestras e ativismo. Foi alguém em quem depositei alguma esperança, pelo menos de moderação e racionalidade, em um governo que eu sempre soube que seria guiado aos solavancos. Confesso não ter tido a clarividência das crateras na estrada, nem do “esburacador” supremo cavando sob nossos pés enquanto caminhamos. Mas o Guedes? Comandaria o polo de racionalidade, entregaria resultados tão incontestáveis que deixaria Carluxo e sua trupe sem ter o que atrapalhar. Sim, eu também gosto de criar histórias fantásticas para me reconfortar.

“O Brasil tem ativos imobiliários que chegam a mais de R$ 1 trilhão de valor”

Se eu fosse criar um título para essa história seria “O Homem que Contava Trilhão”. Em uma versão mais adulta, ao invés de Godot esperamos o trilhão. Mas, ao contrário das histórias que crio, ou das que minha filha pede, as histórias do ministro têm um quê de verossímil que deixa tudo mais delicado. A cada trilhão, 15 semanas revolucionárias ou revolução da privatização em 90 dias, vivemos um contraponto de vazio ensurdecedor. O problema é que ali podia ser de verdade, mas pelo jeito vai ser só história mesmo.

Todo bom roteiro deveria ser testado também, mas as mesmas perguntas que Cora me faz, parece que o ministro é incapaz de fazer a si mesmo: mas como? de onde? tem certeza? quais empresas? Ok, confesso que minha filha ainda não sabe o que são empresas. Mas entende o valor da própria reputação, da confiança que inspira nos outros, nos vínculos que constrói. Nosso ministro, por outro lado, parece plantado à beira da floresta berrando TRILHÃO alheio à sua própria história. O melancólico desenrolar, porém, é que ninguém mais sai de casa para ver. Quando a confiança na história se esvai, a brincadeira perde completamente a graça. Em alguns anos contaremos a história do Paulo que foi ministro. O final dela pode ser perigosamente parecido com o do Pedro da história infantil. Ao invés do homem que fez história, o homem que conta estórias.

“Eu salvo a República de duas a três vezes por semana”
“Com 5 bilhões a gente aniquila o Coronavírus”

Durmam com os anjos, brasileiros.

Observação: as frases entre aspas no texto foram todas ditas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, durante a crise global da Covid-19.

*Paulo Gontijo é diretor executivo do Livres, especialista do Instituto Millenium, foi conselheiro da Confederação Nacional dos Jovens Empresários e presidiu o Conselho de Jovens Empreendedores da Associação Comercial do Rio de Janeiro

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