Duplipensar

Duplipensar

Rodrigo Merli Antunes*

12 de maio de 2020 | 12h00

Rodrigo Merli Antunes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Acompanhando o noticiário dos últimos dias, me deparei com alguns eventos que me fizeram lembrar do escritor George Orwell, autor de obras reconhecidas em vários países, dentre elas 1984 e A Revolução dos Bichos.

A primeira notícia que me fez recordar do sobredito autor foi a exigência uniforme, em quase todo o Brasil, dos cidadãos terem que utilizar máscaras de proteção contra o covid-19 para que possam sair na rua. Caso assim não procedam, podem ser advertidos, multados ou até mesmo presos. Ocorre que, muito embora as 10 mil mortes já atingidas sejam mesmo motivo de preocupação, é fato que, durante anos a fio, os 65 mil homicídios anuais ocorridos no Brasil não ensejaram nem de longe uma preocupação semelhante. Aliás, ao contrário do que ocorre agora, aqueles que quiseram se defender deste mal bem maior sempre tiveram vedada essa possibilidade, proibindo-se ao cidadão de bem o direito de adquirir uma arma de fogo para a sua defesa e de sua família. Em outras palavras, 10 mil mortes até maio pelo vírus já exigem dos indivíduos obrigações inadiáveis, mas de duvidosa eficácia. Entretanto, por outro lado, 65 mil assassinatos anuais parecem nada significar, preferindo-se deixar as pessoas indefesas ao invés de se permitir uma efetiva proteção.

Outro fato que me fez lembrar o referido escritor foi a decretação do STF, no último domingo, de luto oficial por três dias também em função do atingimento de 10 mil vítimas fatais por conta do malfadado coronavírus. Em que pese eu não tenha nada contra a homenagem ou a simbologia do ato em si, fico a me perguntar o porquê de providência semelhante não ter sido feita a cada ano em nosso país, este a registrar, em números absolutos, o maior índice de homicídios dolosos ocorridos em todo o planeta Terra. Será que as vítimas de crimes violentos não possuem a mesma importância que as demais? Ou será que a atomização da sociedade, o medo e criminalidade em geral são convenientes para os propósitos de alguns, estes interessados cada vez mais na concessão voluntária das liberdades individuais das pessoas, isso em troca de uma pseudo proteção por parte de um poder global, central e absoluto? Creio que estas são indagações pertinentes e que, por óbvio, merecem uma reflexão aprofundada.

Já a última notícia que também me chamou a atenção foi a decisão de nossa Suprema Corte no sentido de declarar inconstitucionais algumas regras do Ministério da Saúde e da ANVISA, estas no sentido de homens homossexuais não poderem doar sangue durante doze meses após a última relação sexual. De acordo com a maioria dos ministros, as limitações eram discriminatórias e desproporcionais, razão pela qual não poderiam mesmo prevalecer. Já os quatro magistrados vencidos, em linhas gerais, argumentaram que as restrições nada possuíam de errado, sendo pautadas por dados técnicos e científicos, estes no sentido de que pessoas deste grupo estão mais sujeitas a desenvolverem doenças sexualmente transmissíveis, sendo necessário um período maior de testes imunológicos para a segurança de todos. Em outras palavras, e aqui a conclusão já é minha, se estão a se utilizar da ciência e das regras sanitárias para nos manter trancafiados dentro de casa por conta da tal pandemia, por que então não se fazer o mesmo em relação à doação de sangue por parte deste grupo de indivíduos? Ao que parece, o tecnicismo só é bom no primeiro caso, mas não quando atinge de forma politicamente incorreta a agenda LGBT. Infelizmente, dois pesos e duas medidas também aqui.

E é exatamente por isso, aliás, que afirmei no início do texto que me lembrei de George Orwell quando li estas três notícias. Como sabido, é dele a expressão que dá nome ao presente artigo (duplipensar), esta que tem a ver com contradição, mas que também pode ser melhor definida das seguintes maneiras: a) ato de aceitar simultaneamente duas crenças mutualmente contraditórias como corretas, ou, ainda, b) ausência absoluta de dissonância cognitiva, isto é, quando o sujeito não tem a menor consciência da contradição entre suas crenças.

Enfim, seja lá como for, creio que o leitor já entendeu o meu recado. Ao que parece, nosso país está levando a sério demais a questão da hipocrisia. Na realidade, o seu limite já passou há muito tempo. E, se assim continuar, logo logo ela se transformará em autoengano; e do autoengano para a demência, será apenas um “pulinho”.

Nesse dia, seremos então todos um bando de imbecis. Na verdade, nas palavras de um conhecido professor, seremos um imbecil coletivo. Não no sentido de mera soma aritmética de certo número de imbecis individuais, mas sim uma coletividade de pessoas de inteligência normal ou até mesmo superior, mas que se reúnem movidas pelo desejo comum de imbecilizar-se umas às outras. E, nesta data, espero mesmo é estar bem longe daqui. Se bem que, analisando o tema com atenção, acho mesmo é que este dia já chegou.

*Rodrigo Merli Antunes, promotor de Justiça em São Paulo e pós-graduado em Direito

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