Duas ampulhetas

Duas ampulhetas

Cassio Grinberg*

30 de março de 2022 | 04h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

A ampulheta, também conhecida como relógio de areia, é um dos objetos mais antigos de medir o tempo. Em navios, se usavam ampulhetas de meia em meia hora. Em igrejas, elas determinavam a duração das cerimônias. Em casas telefônicas comerciais, mediam o limite das chamadas.

A ampulheta também foi, durante muito tempo, utilizada, na arte, para simbolizar a transitoriedade da vida: a morte, por exemplo, por vezes é representada como um esqueleto com uma foice numa das mãos e uma ampulheta na outra. Como se ali, com a ampulheta na mão, aquele esqueleto nos dissesse: o que você fez, ou o que você não fez, agora você já fez, ou já não fez: game over, acabou o tempo.

Agora, imagine uma ampulheta com duração de dois anos. Imagine que essa ampulheta é global, ou seja, vale tanto para você quanto para um eventual clone seu na Nova Zelândia. Imagine também que, durante esses dois anos, não havia muito o que fazer para escapar: se você tirasse um pouco de areia, a abertura do cone fechava. Se aumentasse o tamanho da abertura, a areia engrossava.

Mas agora essa ampulheta girada já escorreu toda a areia. E o que restou são pequenos grãos que recebem nomes de letras gregas ou de letras de nosso alfabeto seguidas de números (A.1, A.2, B.1, B.2…). Micro-grãos que, embora pequenos — e que tendem a continuar escorrendo pela abertura dos cones —, ainda vão seguir atraindo aqueles que precisam ter certeza de que dali não sai mais nada. Quando na verdade, é para outra ampulheta que deveriam estar olhando.

Porque, depois de dois anos, girou uma outra ampulheta, e um novo tempo começou a correr. E esta nova ampulheta nos convida a aprovar orçamentos, lançar experimentos, inaugurar lojas, marcar viagens, ir para a academia, marcar cafés, colocar maquiagem, sair para a rua e mostrar o rosto.

Eu gostaria de dizer que as duas ampulhetas não se misturam, mas é claro que elas se misturam, sim. A gente precisa conversar, confiar, acolher e mostrar. O que ficou na antiga ampulheta, a gente perdeu para sempre. Mas com o tempo vamos entender que é lá que ficou. E é lá que deve permanecer.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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