Drummond em São Cristovão

Drummond em São Cristovão

Bernardo Pasqualette*

07 de novembro de 2021 | 08h10

Carlos Drummond de Andrade. FOTO: ARQUIVO/AG. ESTADO

Brasil, março de 1989. Em meio a expectativa pela primeira eleição presidencial em quase trinta anos, o Banco Central lançava a nova cédula de 50 cruzados novos. Em mais um plano econômico ruinoso lançado ao final do governo Sarney, a nova cédula chegava carregada de descrença e incredulidade – fruto da desconfiança generalizada da população com os rumos da economia do país. Seria o suspiro final do Plano Cruzado.

Se o poder de compra se deteriorava ante uma inflação galopante, por outro lado a nova cédula trazia uma novidade instigante, disruptiva até. Estampando ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade em seu anverso, o reverso da nota trazia o que de melhor se viu até hoje estampado no dinheiro brasileiro: a íntegra de “canção viva”, uma das mais expressivas poesias do poeta da Itabira.

O cruzado novo não resistiu ao tempo e, em março de 1990, era rebatizado de cruzeiro. Retrato vivo de uma época em que o país era assolado pela hiperinflação. A poesia de Drummond, no entanto, é eterna. Resiste – e sempre resistirá – ao tempo.

Bernardo Pasqualette. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Por esse motivo, o Grupo Editorial Record brindará o leitor brasileiro, a partir de 2022, com o relançamento das obras de um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, incluindo nesse rol de publicações alguns manuscritos nunca antes publicados. As inovações, porém, não param por aí. Haverá um selo Drummond, uma espécie de marca da coleção, que identificará tanto as edições regulares, publicadas pela Record, quanto as edições especiais, a serem produzidas pela editora José Olympio, também do grupo, que trarão fac-símiles e vasto material iconográfico. Todos os livros terão seus textos fixados a partir do cotejo com os manuscritos do autor e de suas correções de próprio punho feitas em edições anteriores.

Sem dúvidas, alguns tesouros da Cultura nacional estão prestes a ser revelados ao grande público, ou redescobertos por ele.

O maior legado da iniciativa, no entanto, não reside apenas no relançamento da obra do poeta imortal. Significa muito, mas não é tudo. Em um momento tão difícil para a Cultura, a iniciativa se reveste de um valor maior – transcendental. Preservar uma obra que é eterna em sua essência, dando-lhe uma nova roupagem através de publicações que dialogam com o leitor atual significa propiciar às atuais gerações acesso à obra de uma forma que as estimule a conhecer com maior profundidade o riquíssimo repertório de Drummond.

Na programação do primeiro ano de relançamento da obra de Drummond pela Record, estão os livros: Viola de bolso, que há setenta anos não é publicado em volume avulso, aparecendo apenas em edições antigas da obra completa; o clássico Alguma poesia, o mais próximo do espírito da Semana de Arte Moderna, que completa cem anos em 2022; e dois livros atualmente esgotados, O amor natural e As impurezas do branco.

Em um momento delicado que o nosso país atravessa – nitidamente marcado pelo culto à ignorância -, não poderia haver notícia melhor.

*Bernardo Pasqualette é escritor, autor de Figueiredo: a biografia de uma presidência (2020), e do livro Daniella Perez: Wishing on a Star, sobre o assassinato da jovem atriz, a ser lançado em 2022

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