Drones revolucionam a auditoria

Drones revolucionam a auditoria

Empresas do setor adotam veículos não tripulados com o objetivo de adquirir o volume maior de informações qualificadas

Beatriz G. Moraes*

07 de dezembro de 2019 | 07h00

Beatriz G. Moraes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Cada vez mais populares, os drones ou veículos aéreos não tripulados (VANT) devem movimentar cerca de 11,2 bilhões de dólares até 2020 com a venda de três milhões de dispositivos no mundo, segundo estimativas de mercado. Inspirado em bombas voadoras alemãs, o drone foi criado para o lançamento de explosivos e amplamente utilizado com sucesso na Primeira e Segunda Guerra Mundial. Os modelos disponíveis hoje no mercado foram projetados e desenvolvidos para missões militares que ofereciam risco à vida de seres humanos, como resgate em incêndios e segurança não militar (monitoramento ou ataque a alguma região).

No Brasil, um dos primeiros dispositivos com essa função foi desenvolvido em 1983 pela Companhia Brasileira de Tratores (CBT). No mesmo ano, também foi fabricado no País o VANT Gralha Azul da Embravant que tinha mais de 4 metros de envergadura e conseguia realizar até 3 horas de voo. Mas, foi com o Projeto Aeronave de Reconhecimento Autônoma e Remotamente Assistida (Arara), realizado pela empresa AGX Tecnologia em conjunto com o Instituto de Ciências Matemáticas e Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), nos anos 2000, que a criação de drones para uso civil no País recebeu inventivo no lançamento do primeiro VANT de asa fixa com tecnologia 100% brasileira.

Depois de tantas transformações, ano a ano, os drones vêm se tornando cada vez mais acessível globalmente e o avanço da tecnologia deixou o dispositivo compacto, proporcionando mudanças em diversos setores do mercado ao redor mundo, embora ainda de forma cautelosa. Algumas empresas, atentas as implementações de novas metodologias de trabalho, já adotaram esses recursos para fazer entregas de produtos, aperfeiçoar a segurança e até mesmo realizar transporte de órgãos. Mas, pouco se fala ou discute a respeito da evolução que esses “mini robôs” estão realizando na área de auditoria no Brasil e no mundo.

Assim como o restante do mercado, para sobreviver, às empresas do setor também tiveram que investir na melhora de suas atividades, colocando em prática novas tecnologias para atender as exigências, aprimorar serviços e recursos, além de gerar maior valor agregado aos clientes. Esses fatores parecem óbvios, mas quando se trata da área de auditoria demandam um cuidado ainda maior, visto que a única matéria-prima disponível é composta pelos dados e informações sigilosas de outras companhias. Esses pontos foram fundamentais para o uso e desenvolvimento de drones internacionais adaptados aos modelos de negócios brasileiro e às necessidades dos auditores.

Porém, um entrave potencializou ainda mais o desafio no Brasil: o ambiente regulatório. No País, a legislação referente ao uso de drones ainda é bastante ampla e generalista, o que dificulta o processo de implementação desses dispositivos. Para exemplificar, dentre as exigências, algumas atividades precisam apresentar planos de voos estruturados, comunicar os órgãos competentes, realizar treinamentos, entre outros requisitos que devem estar alinhados as normas para viabilização do uso da tecnologia. Além de todas as questões de legislação, também são necessários processos nos três âmbitos: do governo, da própria empresa auditora e do cliente.

Com esse panorama não é difícil concluir que apenas auditorias sólidas e dispostas a realizar grandes investimentos foram capazes de implementar esse recurso nos últimos anos. O resultado final, nem sempre é animador e exige muita persistência, pois diante de tanta complexidade, é esperado haver certa resistência na utilização dos drones, porque qualquer mudança interna em uma companhia, seja ela privada ou pública, demanda um elevado nível de aprovações, alterações de requisitos internos – que são específicos em cada cliente – e tudo isso resulta em impactos na relação custo-benefício. Nessa etapa foi essencial que o setor destacasse a otimização das tarefas de auditoria que apresentam análises mais confiáveis, principalmente em serviços que ainda atendem outras premissas regulatórias e compliance nos testes realizados. Nas auditorias financeiras, por exemplo, a seleção amostral é comumente utilizada para verificação in loco do estoque físico de produtos disponíveis. Assim, com a utilização do drone é possível aumentar a quantidade de amostra verificada em um período menor ou igual ao anterior.

No varejo as experiências bem-sucedidas também são inúmeras. Por meio da tecnologia RFID (coleta dados por meio do uso de ondas de radiofrequência emitidas a partir uma tag instalada no produto), os drones podem ser utilizados para a realização de inventário físico em pátios de automóveis que ocupam áreas físicas maiores e grandes almoxarifados, estoques, acompanhamento físico de construções, inspeções, monitoramento ambiental, e mais uma enorme gama de serviços.

Diante de tantas vantagens, não é precipitado afirmar a utilização dessa tecnologia já superou as expectativas em auditoria. Afinal, ao conseguir obter mais informações no mesmo período de tempo, os processos já ganharam mais eficiência e a tendência é que isso evolua ainda mais. Basta esperar para ver o quanto o setor ainda tem a ganhar com a adoção desse advento e veremos quão longe é possível para chegar.

*Beatriz G. Moraes, sócia de auditoria da EY Brasil

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